A imprensa e a hidroxicloroquina

Jornalismo sem ceticismo e nuance passa a ideia de certeza onde ela não existe

(Nota: A Folha de S.Paulo publicou uma versão resumida deste artigo e também uma réplica a algumas críticas que recebi. Agradeço ao veículo pelo espaço e pela divulgação.)

A hidroxicloroquina é comprovadamente ineficaz contra a Covid-19. O seu uso já foi descartado. Não existe evidência a favor. Essa é uma questão superada. Esse é o consenso científico.

Muita gente teoricamente bem informada acredita piamente em algumas das afirmações acima. Ou mesmo em todas. O problema? Nenhuma delas está correta.

Quer dizer que a hidroxicloroquina funciona? Não sabemos. Esse é o ponto. Ainda há dúvidas sobre a eficácia da droga, mas há meses a imprensa passa a ideia de que existe uma certeza: não funciona. E, no esforço de fortalecer esse discurso, o jornalismo comete uma série de erros.

“Imprensa”, aqui, é a mídia mainstream, formada por veículos com maior alcance, influência e credibilidade, como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Rede Globo. E “gente teoricamente bem informada” é o grupo de pessoas que costuma se informar principalmente por esses canais.

Abaixo, mostro algumas dessas falhas jornalísticas e a incerteza que ainda existe sobre o uso da hidroxicloroquina para Covid-19. Os exemplos são todos da Folha apenas por ser o veículo brasileiro que mais acompanho. Seus principais concorrentes, de qualquer maneira, têm feito um trabalho de nível semelhante, quando não pior.

Parcialidade e falta de ceticismo

Em editorial no dia 9 de setembro, a Folha afirmou: “Centenas de grupos de pesquisa as escrutinaram e a conclusão é que, se elas [cloroquina e hidroxicloroquina] têm efeito sobre a moléstia, é pequeno demais e não compensa o risco dos graves efeitos adversos que podem produzir.”

Um levantamento dessa magnitude mereceria uma reportagem própria – não apenas um parágrafo em um editorial – mostrando quais foram essas centenas de grupos e como foi essa escrutinação que chegou a uma conclusão que parece até mágica de tão certeira.

Prossegue o texto: “Desde maio, a recomendação quase unânime de reguladores e associações médicas é que não sejam utilizadas para tratar a Covid-19.”

Esse seria outro fato digno de uma matéria própria. Se alguém fez a sondagem da posição de “reguladores e associações médicas” do mundo todo sobre o uso das drogas – e acompanhou isso desde maio –, por que o jornal não mostrou?

As duas afirmações da Folha parecem um tanto duvidosas. Afinal, houve apuração ou apenas chute?

Sem evidências claras – algo que jornalistas cobram tanto do presidente Jair Bolsonaro –, o texto procura reforçar a ideia de que a ineficácia da hidroxicloroquina seria um fato, uma certeza.

Meses antes, em 24 de julho, outro editorial já proclamava: “Governo insiste na cruzada pela hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz”.

Aqui, dois problemas. Primeiro, se a droga fosse de fato “comprovadamente ineficaz”, por que tantos cientistas continuaram – e continuam – a estudá-la?[1] Alguém estava errado: o jornal ou os cientistas.

Segundo, a Folha aparentemente escreveu isso motivada por um estudo publicado no dia anterior no New England Journal of Medicine (NEJM). Talvez levada pelo calor da discussão, ela aceitou apressadamente os seus resultados, sem demonstrar um pingo de ceticismo ou aguardar a reação de outros cientistas.

Realizado no Brasil, o estudo recebeu ampla cobertura positiva na mídia do país. A reportagem da Folha basicamente reproduz as suas conclusões e não menciona nenhuma das limitações listadas no próprio NEJM – parece até um press release. (Press releases de ciência não costumam ser muito diferentes dos de outras áreas – exageram a qualidade e a importância e diminuem ou escondem as fraquezas do material propagandeado.)

Cabe notar que a Folha (assim como o Estadão) teve acesso antecipado ao conteúdo da pesquisa, incluindo entrevistas com alguns de seus autores. Pelo visto, até houve tempo para fazer um texto mais equilibrado, mas o jornal deliberadamente optou por uma cobertura acrítica. Com isso, ficaram satisfeitos o jornal e as suas fontes – o primeiro, ao ganhar acesso privilegiado, e as últimas, ao ganhar propaganda (que incluiu também chamada na primeira página da edição impressa).

Todos ganharam, então? Infelizmente não. Nessa troca de favores, quem perdeu foi o leitor.

Os textos supracitados evidenciam um dos grandes problemas do jornalismo de ciência: a falta de ceticismo (ironicamente, um elemento básico tanto do jornalismo quanto da ciência).

Claro, nem sempre é assim. As reportagens “Site faz placar de pesquisas pró e contra uso de cloroquina” (22 de agosto) e “Novos artigos sobre hidroxicloroquina e Covid-19 levantam ‘debate estatístico’” (17 de outubro), por exemplo, abordam com bastante ceticismo estudos que sugerem a possibilidade de as drogas terem efeitos positivos.

Elas, porém, expõem outros problemas na cobertura.

A matéria sobre o “debate estatístico” inclui entrevista com cinco pessoas, das quais quatro atacam as meta-análises que sugerem um possível benefício no uso da hidroxicloroquina. A única a defendê-las é a que tem um domínio melhor de estatística, mas isso não fica claro no texto. Parece até que a proposta era colocar um número maior de entrevistados contra as meta-análises, sem se importar com o conhecimento de estatística de cada um deles – decisão completamente questionável dado o título da matéria.

O texto sobre o “placar de pesquisas” tem mais problemas. Ele diz que “a comunidade científica tende a duvidar do potencial dessas duas drogas contra a Covid-19” – uma afirmação um tanto duvidosa, que parece ser mais suposição do que fato. Quem fez essa pesquisa envolvendo toda a “comunidade científica”? E como se chegou a tão estranha conclusão (“tende a duvidar”)?

No esforço de desacreditar qualquer discurso possivelmente a favor das drogas, o jornal usa e abusa de afirmações vagas e imprecisas.

A coisa piora neste trecho: “A briga se aqueceu mais quando um trabalho que apontava riscos da cloroquina, publicado na revista The Lancet, foi questionado. Houve acusações, sem provas, de que os autores teriam motivações políticas e financeiras.”

Essa é uma péssima síntese do caso, pois subestima a sua gravidade e passa a ideia de que o estudo tem alguma credibilidade – afinal, saiu na Lancet –, com o único porém de ter sido alvo de acusações “sem provas” sobre as motivações dos autores.

Na verdade, o caso foi extremamente grave, tratado por muitos como um “escândalo”.[2] O estudo usou dados aparentemente falsos fabricados por uma empresa e acabou sendo retratado (ou seja, teve a sua publicação cancelada) pela Lancet. Richard Horton, editor-chefe da revista, chamou o trabalho de uma “fraude monumental”. O mesmo destino teve outro artigo, publicado no NEJM, que tinha alguns dos mesmos autores e usava dados suspeitos da mesma empresa.

A reportagem da Folha aborda com imenso ceticismo argumentos a favor da hidroxicloroquina, mas cita como se fosse legítimo um estudo retratado que tinha resultados contra a droga. Um completo absurdo.

O exemplo do estudo da Lancet é extremo, mas ilustra bem como a imprensa trata de maneira muito diferente estudos com resultados contra e a favor do medicamento.

Alguém pode alegar que as pesquisas que não encontraram benefícios foram publicadas em periódicos mais importantes, mas isso no máximo poderia justificar um ceticismo menor em relação a elas, nunca um ceticismo inexistente. É indefensável a cobertura acrítica de trabalhos científicos, independentemente do que digam, de onde tenham sido publicados ou de quem sejam os seus autores.

Esse problema também aparece em “É urgente que a cloroquina seja abandonada para qualquer fase da Covid-19, diz Sociedade de Infectologia” (17 de julho), em que dois estudos que dizem não ter encontrado eficácia no uso da hidroxicloroquina são apresentados de maneira extremamente positiva, apenas com uma rápida menção a uma limitação de um deles (publicado na Annals of Internal Medicine).

A reportagem passa a ideia de que, por serem ensaios randomizados controlados (“padrão-ouro”), eles teriam boa qualidade, embora haja inúmeras ocorrências de falhas graves em trabalhos desse tipo – e mesmo os dois citados no texto foram bastante criticados. Ela ainda erra ao descrever o estudo publicado na Clinical Infectious Diseases como duplo-cego (uma característica positiva), o que ele não é.

O texto não é demasiadamente complacente apenas com os estudos mencionados, mas também com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), cuja posição não é questionada em momento algum. Tivemos mais uma matéria com tom de press release.

O informe da entidade diz, entre outras coisas, que “a SBI acompanha a orientação que está sendo dada por todas [as] sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da COVID-19” – uma afirmação, parece-me, digna de questionamento.

Quem fez o levantamento da orientação de “todas” (!) as “sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos”? Ele foi publicado em algum lugar? Seria bom saber mais detalhes.

Para piorar, a reportagem inclui apenas uma posição contrária à da SBI: a do governo brasileiro. Ora, ter Bolsonaro e seus asseclas como antagonistas em um debate científico é algo para se comemorar (pelo menos para quem prefere adversários fracos), de maneira que a única oposição à SBI no texto acaba fortalecendo o discurso da entidade.

Muita certeza e pouca nuance

Esse tem sido outro defeito da cobertura: há um enorme destaque para figuras intelectualmente toscas que defendem irresponsavelmente o uso da hidroxicloroquina e quase nenhum para pesquisadores que fazem críticas sérias aos estudos sobre a droga.

É um ponto em que o jornal tem se aproximado das redes sociais, nas quais declarações polêmicas e sem fundamento geram muito mais repercussão do que comentários técnicos e ponderados.

Isso acaba por gerar a impressão de que apenas pessoas do nível de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Osmar Terra, Marco Feliciano, Carla Zambelli e Arthur Weintraub desconfiam dos trabalhos que não veem eficácia na hidroxicloroquina. “De um lado, a ciência; de outro, ignorantes que politizaram a discussão.”

É uma simplificação errônea, que reforça estereótipos e dá pouco ou nenhum espaço para vozes importantes, com conhecimento e experiência.

Uma delas é a de Nicholas White, cientista com currículo primoroso que trabalha no Mahidol Oxford Tropical Medicine Research Unit e atualmente conduz o Copcov, um grande estudo randomizado controlado sobre a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina na prevenção de Covid-19 em profissionais de saúde.

Para ele, o quadro ainda não é claro e há afirmações exageradas sobre o risco. Talvez as drogas possam ajudar na prevenção ou no tratamento precoce – faltam estudos para confirmar ou descartar isso –, e elas são seguras quando administradas com o devido cuidado.

Essas posições foram expostas com mais detalhes em uma análise publicada no PLOS Medicine, na qual White e os coautores afirmam que a ausência de benefício da droga em pacientes hospitalizados, cuja evidência é forte, foi extrapolada para a ausência de benefício em outros casos, cuja evidência é fraca – uma extrapolação “injustificável”.

Esse é um ponto que merece mais destaque. Frequentemente vemos resultados de ensaios com pacientes hospitalizados usados como argumentos contra um possível benefício da droga no tratamento precoce. É uma retórica enganosa, e a imprensa, ao misturar tudo e não fazer a devida distinção dos casos, confunde o debate. Muitas vezes o tratamento precoce é mencionado apenas en passant, como se a discriminação entre ele e o tratamento de pacientes hospitalizados fosse pouco importante.

Mas ela é importante. Primeiro, é comum uma droga apresentar diferentes efeitos dependendo da fase do tratamento. Segundo, a parte mais interessante do debate, em que residem as maiores incertezas, é justamente a que envolve a prevenção e o tratamento precoce.

São essas incertezas, por sinal, que levam White e seus colegas a não recomendar o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina em tratamentos fora de ensaios clínicos.

Essa posição deve ser ressaltada porque muitos enxergam uma quase necessária correlação entre 1) criticar a ideia de que as drogas são comprovadamente ineficazes e 2) defender o seu uso em tratamentos médicos. White e seus colegas mostram que é perfeitamente possível fazer o primeiro e não fazer o segundo.

Da mesma maneira, dizer “talvez a hidroxicloroquina funcione” não necessariamente significa dizer “ela já deve ser utilizada”.

Tal nuance tem se perdido no debate divulgado pela imprensa, que prefere repercutir os dois extremos – gente que defende a droga fervorosamente, como se ela fosse uma bala de prata, e gente que a ataca sem pensar, como se a sua ineficácia fosse inquestionável. Isso reforça uma polarização que em nada ajuda o debate – na verdade, pode até estar atrapalhando a sua resolução.

Como?

Ao propagar um discurso sem nuance e polarizado, a mídia colaborou para chegarmos a este estado em que poucos têm dúvidas e muitos têm certezas. Isso dificulta a realização de ensaios clínicos maiores e melhores do que os já feitos.

Um público que tem certeza de que as drogas são ineficazes não aceitará participar de ensaios clínicos randomizados – se não funcionam (e ainda são perigosas), por que se arriscar? No outro extremo, quem tem certeza de que elas são eficazes também não tem motivos para entrar em estudos.

Ficamos mais longe de uma resposta a cada vez que a cloroquina e a hidroxicloroquina saem nas manchetes, disse-me White, em conversa por e-mail.

A imprensa precisa dar mais espaço para a incerteza.

“Geralmente, e particularmente no contexto da Covid-19, a certeza é o reverso do conhecimento”, dizem George Davey Smith, Marcus Munafò (ambos da University of Bristol) e Michael Blastland (escritor) em artigo no BMJ no qual criticam pessoas que aparentam saber “exatamente o que está acontecendo e o que fazer a respeito”.

Seu principal alvo não são “aqueles que insistem que a hidroxicloroquina salvará todos nós”, mas “as muitas pessoas racionais com credenciais científicas fazendo pronunciamentos públicos assertivos sobre a Covid-19 que parecem sugerir que não pode haver motivos legítimos para discordar delas”. O recado serve também para muitos jornalistas.

Quanto mais certeza alguém tem sobre a Covid-19, menos você deve confiar nela, dizem os autores. Eles sugerem ouvir “aqueles que respeitam a incerteza” e que reconhecem evidências contrárias mesmo às suas convicções mais fortes.

Como em tantos assuntos, é entre os extremos que podemos encontrar informação mais rica, mas ela é ignorada em um ambiente que se limita a discutir “funciona” versus “não funciona”, desprezando o “talvez (não) funcione”.

Diversidade de visões

James Watson, que trabalha com White e compartilha de suas opiniões sobre a hidroxicloroquina, foi um dos primeiros cientistas a chamar a atenção para os problemas no estudo retratado da Lancet.

Suas preocupações levaram à elaboração de uma carta aberta que teve grande repercussão entre a comunidade científica e certamente contribuiu para a retratação do estudo. Sua lista de signatários – são mais de 100 – é uma bela amostra da diversidade de pontos de vista sobre a eficácia e o uso da hidroxicloroquina.

Um deles é Peter Horby (University of Oxford), que conduz o Recovery, um ensaio randomizado controlado que busca comparar diferentes tratamentos para casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 em pacientes hospitalizados. Até o momento, ele teve resultados positivos para o uso de dexametasona e negativos para os usos de lopinavir-ritonavir e de hidroxicloroquina. Horby, porém, não descarta a possibilidade de que uma dose mais baixa desta última ou o tratamento em fases mais iniciais da doença possam “ter um efeito diferente daqueles observados no Recovery”. Assim como White, ele é contra o uso da hidroxicloroquina fora de ensaios clínicos.

Outro signatário, David Boulware (University of Minnesota), trabalhou em alguns dos estudos mais citados sobre a eficácia da hidroxicloroquina em casos de Covid-19. Todos têm a mesma conclusão: não há benefício. Ainda assim, ele não descarta a possibilidade de a droga ter algum efeito e declarou diversas vezes que apoia a realização de outros ensaios. Essas posições também estão expostas nos próprios textos dos estudos,[3] mas em nenhum momento foram mencionadas pela Folha, que o entrevistou duas vezes. Quem conhece Boulware apenas pelo jornal pode ter uma impressão errada sobre a sua opinião.

François Balloux (University College London) acredita que o medicamento possa ter algum benefício para profilaxia e tratamento precoce.

A carta de Watson incluiu também pesquisadores com posições mais fortes a favor da hidroxicloroquina, como William O’Neill e Marcus Zervos (Henry Ford Hospital), que publicaram um polêmico e criticado estudo com resultados favoráveis ao uso da droga.

Eles são coautores de um artigo publicado no American Journal of Medicine que propõe um protocolo de tratamento precoce com hidroxicloroquina e azitromicina, além de zinco. Assinado por vários nomes de destaque – como Peter McCullough (Baylor University Medical Center; autor principal), Harvey Risch (Yale University), James Tumlin (Emory University School of Medicine), Nevin Katz (Johns Hopkins School of Medicine) e Gaetano de Ferrari (Università di Torino) –, o texto traz diferentes recomendações para pacientes de baixo e de alto risco.

Logo nos primeiros dias dos sintomas, diz o artigo, pacientes com alto risco devem tomar zinco e hidroxicloroquina com azitromicina. Os de baixo risco, por sua vez, devem tomar apenas zinco – hidroxicloroquina e azitromicina entram no tratamento apenas se a situação não melhorar. Isso porque, segundo os autores, pessoas saudáveis costumam se recuperar por conta própria – entre elas, a mortalidade é baixa, e os sintomas costumam ser mínimos. Para alguns, talvez seja surpreendente: mesmo um texto que defende fortemente o uso de hidroxicloroquina tem as suas nuances.

O mesmo pode ser visto na posição oposta. As diretrizes da Organização Mundial de Saúde para tratamento contra Covid-19, que incluem “forte recomendação” contra o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina, dizem o seguinte (grifos meus):

A hidroxicloroquina e a cloroquina provavelmente não reduzem a mortalidade ou a ventilação mecânica e podem não reduzir a duração da hospitalização. A evidência não exclui o potencial de um pequeno aumento no risco de morte e ventilação mecânica com hidroxicloroquina. O efeito sobre outros resultados menos importantes – incluindo tempo para resolução dos sintomas, admissão no hospital e duração da ventilação mecânica – permanece incerto.

Essas diretrizes são baseadas em uma grande revisão e meta-análise de ensaios randomizados controlados feita por uma equipe com vários especialistas em metodologia. A última versão do trabalho (17 de dezembro) inclui este trecho (grifos meus):

A hidroxicloroquina, o lopinavir-ritonavir e a interferona beta podem não reduzir a mortalidade ou a ventilação mecânica, e parece improvável que tenham quaisquer outros benefícios. Os efeitos da maioria das intervenções com drogas são, atualmente, muito incertos, e nenhuma evidência definitiva existe de que outras intervenções resultem em benefícios e danos importantes para quaisquer resultados.

Os trechos em grifo mostram uma nuance que tem sido ignorada pela imprensa. As palavras “uncertain”, “uncertainty” e “uncertainties” aparecem 17 vezes nas diretrizes da OMS e sete vezes na revisão e meta-análise.

Cientistas que veem alguma chance de benefício no uso da hidroxicloroquina (independentemente de serem contra ou a favor do uso fora de ensaios clínicos) parecem concordar pelo menos em um ponto: se ela tiver algum efeito, será para prevenção ou tratamento precoce.

Aliás, se temos algo próximo de um “consenso científico” nesse debate todo, é justamente este: a droga aparentemente não funciona em pacientes hospitalizados, com sintomas mais graves ou em fase mais avançada de Covid-19.

Não quero defender aqui nenhuma das posições apresentadas – obviamente, todas também estão sujeitas a críticas; minha intenção é apenas mostrar como elas são variadas.

A ciência tem incertezas. O debate tem nuances. E a imprensa não tem mostrado isso.

A cobertura acrítica e sem ceticismo favorecendo um discurso único, a caracterização estereotipada de quem ousa questionar esse discurso, a atenção exagerada aos extremos do debate e a falta de nuance ao tratar o assunto evidenciam a baixa qualidade do trabalho da imprensa – justamente em um momento em que ela é tão necessária.


  1.  No momento, a base de dados ClinicalTrials.gov exibe quase 150 estudos com a hidroxicloroquina previstos ou em andamento.

  2.  Dois exemplos de matérias que usaram a palavra “escândalo” para o caso dos estudos retratados da Lancet e do NEJM:

  3.  Trechos de estudos com participação de David Boulware nos quais os próprios autores deixam em aberto a possibilidade de a hidroxicloroquina mostrar algum benefício em casos de Covid-19. Essa postura cautelosa e as limitações dos trabalhos costumam ser ignoradas pela imprensa.

    • David R. Boulware et al., “A Randomized Trial of Hydroxychloroquine as Postexposure Prophylaxis for Covid-19”, The New England Journal of Medicine:

      However, the predictive power of this case definition is unknown, particularly in the younger populations that we studied; given the small number of PCR tests, it remains theoretically possible that hydroxychloroquine therapy limits proven infection.

      […]

      Whether preexposure prophylaxis would be effective in high-risk populations is a separate question, with trials ongoing.

    • Caleb P. Skipper et al., “Hydroxychloroquine in Nonhospitalized Adults With Early COVID-19”, Annals of Internal Medicine:

      Our population was relatively young with 77% of participants being aged 50 years or less, with few comorbid conditions; thus, our trial findings are most generalizable to such populations. It is possible that hydroxychloroquine is more effective in populations at higher risk for complications, such as older persons in long-term care facilities.

      […]

      This trial may not inform whether an effect would be observed in populations at higher risk for severe COVID-19. Further randomized controlled clinical trials are needed in early COVID-19.

    • Radha Rajasingham et al., “Hydroxychloroquine as pre-exposure prophylaxis for COVID-19 in healthcare workers: a randomized trial”, Clinical Infectious Diseases:

      There was no statistically significant reduction in the incidence of Covid-19 in our trial. However, investigation into more frequent dosing may be warranted.


The Economist’s country of the year: Malawi

It’s all about democracy:

But this year’s prize goes to a country in southern Africa. Democracy and respect for human rights regressed in 80 countries between the start of the pandemic and September, reckons Freedom House, a think-tank. The only place where they improved was Malawi.

To appreciate its progress, consider what came before. In 2012 a president died, his death was covered up and his corpse flown to South Africa for “medical treatment”, to buy time so that his brother could take over. That brother, Peter Mutharika, failed to grab power then but was elected two years later and ran for re-election. The vote-count was rigged with correction fluid on the tally sheets. Foreign observers cynically approved it anyway. Malawians launched mass protests against the “Tipp-Ex election”. Malawian judges turned down suitcases of bribes and annulled it. A fair re-run in June booted out Mr Mutharika and installed the people’s choice, Lazarus Chakwera. Malawi is still poor, but its people are citizens, not subjects. For reviving democracy in an authoritarian region, it is our country of the year.

I keep a list of all the countries that won The Economist’s “country of the year” award.


Celulares pequenos: o retorno do rei

Em 2018, desapontado com a falta de celulares pequenos no mercado, escrevi:

Mas vejo pelo menos dois possíveis cenários para uma volta do iPhone SE: como um celular pequeno e caro ou como um celular grande e barato.

No primeiro caso, o iPhone SE seria basicamente uma versão reduzida do iPhone XS ou do iPhone XR. Ele teria uma tela ocupando quase toda a superfície do aparelho e tecnologias avançadas como o Face ID. Inevitavelmente, seu preço seria alto. Esse é o meu cenário favorito, mas parece ser também o mais improvável. De qualquer maneira, se a ideia da Apple é investir em aparelhos mais caros, então essa é a nossa esperança de um iPhone pequeno.

O segundo cenário não é tão impossível. Nele, o iPhone SE ocuparia o lugar do iPhone 7 e do iPhone 8 como o celular “barato” da Apple, assim como ocorreu em 2016, quando ele substituiu o iPhone 5S. O problema é que, nesse caso, o iPhone SE certamente usaria o mesmo corpo do iPhone 7 – ou seja, seria grande o suficiente para desagradar os entusiastas de celulares pequenos.

Em 2020, os dois cenários se concretizaram. O primeiro, com o iPhone 12 Mini, revelado em outubro; o segundo, com a nova geração do iPhone SE, lançada em abril.

A coisa ficará melhor quando o iPhone Mini virar o novo iPhone SE. Se isso ocorrer, novamente teremos no mercado um bom celular pequeno e “barato” – como a primeira geração do iPhone SE. (Só em 2024? Espero que não.)

Quem sabe isso finalmente estimule o lançamento de bons modelos compactos com Android – o último parece ter sido o Sharp Aquos R2 Compact, lançado em 2018. Mas não tenho muitas esperanças.

Por enquanto, o iPhone volta a reinar sozinho entre os compactos. A falta de concorrência é triste, mas, se não fosse pela Apple, esse reino nem existiria mais.


The most important statistical ideas of the past 50 years

By Andrew Gelman and Aki Vehtari:

The eight ideas below represent a categorization based on our experiences and reading of the literature and are not listed in chronological order or in order of importance. They are separate concepts capturing different useful and general developments in statistics.

Each of these ideas has pre-1970 antecedents, both in the theoretical statistics literature and in the practice of various applied fields. But each has developed enough in the past fifty years to havebecome something new.

The ideas are:

  • counterfactual causal inference
  • bootstrapping and simulation-based inference
  • overparameterised models and regularisation
  • multilevel models
  • generic computation algorithms
  • adaptive decision analysis
  • robust inference
  • exploratory data analysis

We consider the ideas listed above to be particularly important in that each of them was not so much a method for solving an existing problem, as an opening to new ways of thinking about statistics and new ways of data analysis.

To put it another way, each of these ideas was a codification, bringing inside the tent an approach that had been considered more a matter of taste or philosophy than statistics[.]

There is also a section on the most important ideas of the next few decades.

Article here. Gelman’s post here.


You can’t have the best of all possible worlds using virtual machines

It would be great to have these:

  1. A computer with Apple silicon and virtual machines (preferably on VMware Fusion)

  2. A computer with Windows, Hyper-V (for Windows Subsystem for Linux 2 and Windows Sandbox) and virtual machines (preferably on VMware Workstation)

Number 1 is impossible for now. Number 2 seems to be a little hit-or-miss. Both VMware Workstation and VirtualBox can run when Hyper-V is enabled, but the performance is subpar (especially for the latter).

Apple silicon and Hyper-V are great, except when they’re not.


Alex Ross on the greatest pop album ever made and his guilty pleasure

From Conversations with Tyler, episode 105:

COWEN: What’s the best Dylan album? Is it Bringing it All Back Home, Blood on the Tracks? The much later work?

ROSS: Blood on the Tracks. No question, Blood on the Tracks, yeah. But the original version, not the Minnesota remix. The original New York sessions without the big band — that’s the greatest pop album ever made, in my opinion.

COWEN: What is it in music that you are embarrassed by liking?

ROSS: People ask me that, and I don’t have guilty pleasures. I feel that it buys into this idea that there’s some exalted level of genius and then this embarrassing realm down below. But to honestly answer your question, I do like certain Oasis songs — that’s slightly embarrassing. [laughs] “Champagne Supernova” I like.

Nice discussion, with many interesting bits, as usual. Tyler Cowen is an excellent interviewer.


Melhores colunas: suspensão

A seleção Nota Bene de melhores colunas de análise e opinião do Brasil está suspensa por tempo indeterminado.

Ela começou como uma lista privada, para uso próprio – achava conveniente ter uma página com links para as minhas colunas favoritas, até por não ser muito fã de agregadores de feeds. Esse continuou a ser o seu principal propósito mesmo após se tornar pública. Com o tempo, porém, passei a ler cada vez menos colunas – e a seleção perdeu a sua razão de ser.

(Por motivo semelhante, têm sido raras as atualizações no YouTube.)


Racists’ statues: five articles on the controversy

Months ago there was a big controversy about the felling of statues that honour racists. These are five of the best articles I have read on the subject.

Ross Douthat, in The New York Times:

Our civil religion, back when it had more true believers, sometimes treated departed presidents like saints. But our monuments and honorifics exist primarily to honor deeds, not to issue canonizations — to express gratitude for some specific act, to acknowledge some specific debt, to trace a line back to some worthwhile inheritance.

Thus when you enter their Washington, D.C., memorials, you’ll see Thomas Jefferson honored as the man who expressed the founding’s highest ideals and Abraham Lincoln as the president who made good on their promise. That the first was a hypocrite slave owner and the second a pragmatist who had to be pushed into liberating the slaves is certainly relevant to our assessment of their characters. But they remain the author of the Declaration of Independence and the savior of the union, and you can’t embrace either legacy, the union or “we hold these truths …” without acknowledging that these gifts came down through them.

To repudiate an honor or dismantle a memorial, then, makes moral sense only if you intend to repudiate the specific deeds that it memorializes.

[…]

But just as Jefferson’s memorial wasn’t built to celebrate his slaveholding, the Woodrow Wilson School of Public and International Affairs wasn’t named for Wilson to honor him for being a segregationist. It was named for him because he helped create precisely the institutions that the school exists to staff — our domestic administrative state and our global foreign policy apparatus — and because he was the presidential progenitor of the idealistic, interventionist worldview that has animated that foreign policy community ever since.

[…]

Or consider a different example, one raised by puckish conservatives in the last few weeks: The case of Yale University, named for a 17th-century merchant, official and dealer in slaves named Elihu Yale. What is honored and memorialized in the school’s name (and this is true of many schools) is exactly one deed from Yale’s often wicked and dishonest life — the donation of his money to the young college. The name “Yale” doesn’t honor old Elihu’s slaving; it simply pays the school’s debt to him, acknowledging that Yale owes part of its very existence to a rich man’s desire to see ill-gotten money put to better use.

[…]

But unless the endgame of New Haven’s removal of Columbus is the expropriation of white property (Yale’s property, I suppose, especially) and its redistribution to the Pequots and Mohegans, then a consistent rejection of Columbus’s legacy isn’t what my city is embracing. Instead, it’s just doing the same thing as Princeton: keeping the inheritance, but repudiating the benefactor. Keeping the gains, but making a big show of pronouncing them ill gotten.

[…]

Meanwhile, for now the ingratitude is being presented as a clear moral advance, and it is not. To enjoy an inheritance that comes from flawed men by pretending that it comes from nowhere, through nobody, is a betrayal of memory, not its rectification — an act of self-righteousness that may not bring the revolution, but does make our ruling class that much less fit to rule.

Mary Beard, in the Times Literary Supplement:

There is no one (or almost no one) who thinks that there are no exclusions at all for statues that belong in the public realm. There would, I imagine, be very little public debate about the taking down of a statue of Goebbels or Jimmy Savile. It is, however, rather like Free Speech. No one wants it to be completely free, but we disagree on where we draw the line.

[…]

The truth is that there is no such simple version of history, or for that matter of the present: people who do good also do bad (and vice versa) and our own heroes and heroines will in due course be found wanting (or worse) too. Maybe it is the act of heroizing that is the problem, not the inevitably flawed individuals themselves.

[…]

In the longue durée, statues offer different challenges to our view of history: they ask us to think about what separates us from the heroes of the past, how we can face them down (actually these guys are just lumps of stone), and how they remind us of our own fragility in the judgement of the future.

[…]

My view of course is that museums are a source of debate and discussion about the past and the present. But I strongly suspect that those who suggest that these statues should be moved there really think that museums are a useful dumping ground for old things you don’t want, but don’t feel you can actually throw away.

Julian Baggini, in the Times Literary Supplement:

But slippery slope arguments are themselves slippery and need to be treated with caution. They force us to take one of two extreme, polarized positions and do not allow anything more nuanced. When the slope is slippery, the only place to be is safely at the top or right down at the bottom. There is no in-between. In the case of statues it would mean leaving everything as it is or tearing down more than most people would think reasonable.

But that does not exhaust the options. The slope is not slippery, merely craggy. With care, statues can be placed at any number of places between the exalted heights and the ignominious bottom. To do this requires going beyond neat lines, with the pure on one side and the tainted on the other. Instead, we have to make judgements on a case-by-case basis, by asking ourselves some key questions.

[…]

Is the achievement for which they are being celebrated intimately or causally tied to their sins? Were they significantly worse than others of their time? How recent was the offence? These questions do not add up to a complete and rigorous set of tests. Issues are too complicated to be settled by any moral algorithm.

[…]

By any reasonable test, David Hume should be safe. (He’s not yet listed on toppletheracists.org.) Hume’s racism was no more than was sadly normal at the time and it had nothing to do with what made his philosophy great. Colston, however, should go. There are countless other cases where it is not so clear cut and there is a need for considered judgements. There is a kind of slope, in that there are gradations of guilt in the heroes of the past, and very few are entirely blameless. But it is not a slippery one unless we make it so by insisting there is nothing between the moral high ground and the abyss of iniquity.

Simon Schama, in the Financial Times:

Statues are not history; rather, its opposite. History is argument; statues brook none. The whole honour of history lies in its contrarian irrepressibility; its brief to puncture the pieties of power, should they belie the truth. Those horrified by the de-pedestalisations of recent days — the Black Lives Matter protests have led to the felling of statues from the slave trader Edward Colston in Bristol to the brutal colonialist Leopold II in Belgian cities — claim that such acts “erase” history. But the contrary is true. It is more usually statues, lording it over civic space, which shut off debate through their invitation to reverence.

[…]

Let them disappear, then, but not into canals, ponds or rubbish dumps, since arbitrary acts of destruction shut down debate quite as much as uncritical reverence. Better, surely, to relocate them to museums where, properly curated, they can trigger genuine debate and historical education. One thing that the pandemic caesura has wrought is a confrontation with big historical matters: who are we as a nation, what we have been, and where we are going? If the Men in Stone (and they are overwhelmingly men) can deepen that understanding they will have served their purpose better than ever they did up on their pigeon-stained plinths.

Tyler Cowen, in Bloomberg (2007):

I can think of at least three practical reasons for erecting public statues. First, we may wish to create an incentive for future behavior, as we do with Nobel Prizes and Halls of Fame.

[…]

Statues and monuments also create focal points to help groups organize.

[…]

Third, statues and public monuments help drive tourism and establish the identities of regions.

[…]

The striking feature of these motivations is how much they are about the present and the future, not the past. So instead of obsessing over the worthies and unworthies of history, we would do better to consider which future causes statues are likely to support.

[…]

So if you’re considering the worthiness of a particular statue, here are three pointers: Pretend you’re from some very distant foreign country and view the dispute through that more objective lens. Second, focus on the future, and third, don’t be afraid to make some changes.


Estátuas de racistas: dois textos sobre a polêmica

Meses atrás tivemos a polêmica da derrubada de estátuas que homenageiam racistas. Estes são dois dos melhores textos brasileiros que li sobre o assunto.

Demétrio Magnoli, na Folha de S.Paulo:

Uma estátua erguida no passado não representa uma celebração presente de um personagem ou de uma ideologia, mas apenas a prova material de que, um dia, em outra época, isso foi celebrado.

[…]

A transferência das estátuas malditas para museus ou parques temáticos, retirando-as de seus contextos, tem efeito similar. Num caso, como no outro, trata-se de higienizar os lugares de circulação cotidiana, reservando o exercício da memória a uma elite de especialistas da memória.

Rhodes, o pecador, não está só. De Pedro, o Grande, a Thomas Jefferson, de Marx a Churchill, de Machado de Assis a Monteiro Lobato, ninguém passa no teste contemporâneo dos valores.

A lógica férrea do vandalismo do bem conduz a um programa de terra arrasada. O rastilho de fogueiras purificadoras nada poupará, a não ser as novas estátuas esculpidas pelos próprios vândalos do bem, que virão a ser derrubadas por seus futuros seguidores. O presente perpétuo —eis a perigosa ambição dessa seita de iconoclastas.

[…]

Quem tem o direito moral de suprimir os lugares da memória? Se concedermos esse direito aos vândalos do bem, como negá-lo a governos eleitos democraticamente?

Paulo Pachá e Thiago Krause, na Época:

As respostas encontradas nos jornais frequentemente têm sido negativas, argumentando que a derrubada de estátuas significaria a vitória do revisionismo por meio da tentativa de apagar a história e reescrever o passado, projeto supostamente autoritário e anacrônico, pois fundado em uma visão que julga o passado com os olhos de hoje.

O que esses argumentos ignoram são os fundamentos da própria historiografia, aqui entendida como a escrita da história baseada em metodologias e evidências aceitas pelos profissionais da área. Assim, a prática historiográfica é essencialmente revisionista: nós estamos sempre revisando nossos conhecimentos e interpretações sobre o passado. Essa revisão é determinada pelas relações sociais do presente, pois a sucessiva reescrita da história a partir do desenvolvimento de novas questões e interpretações está no cerne do trabalho dos historiadores.

[…]

Assim, a remoção dos monumentos também expressa uma transformação das relações e dos valores sociais. Erigir uma estátua é fazer história, derrubá-la também. Esses momentos são exatamente o contrário do apagamento, pois suscitam debates que geralmente permanecem adormecidos quando se discute o que a sociedade quer valorizar e comemorar.

Já a ideia de que seria anacrônico condenar personagens históricos erra em outra frente, pois ignora que havia outras moralidades possíveis na própria época em que essas figuras viviam. […] O espantalho do anacronismo frequentemente não passa de uma adoção irrefletida da perspectiva dominante que perpetua a negação da alteridade.

[…]

A constante reavaliação do passado nacional e a progressiva crítica de seus mitos é uma das marcas de uma democracia madura. O reconhecimento da inadequação de homenagens públicas realizadas no passado não significa apagamento, mas reparação de alguns dos muitos equívocos cometidos por nossos antepassados. […] O verdadeiro projeto de apagar a história é aquele que a vê como estática e pretende nos manter presos às visões superadas de uma historiografia laudatória dos heróis e mitos nacionais, que excluem e violentam a memória de diversos grupos sociais — em especial negros, indígenas e mulheres — reproduzindo no presente as desigualdades herdadas do passado.


Melhores colunas: atualização

A seleção Nota Bene de melhores colunas de análise e opinião do Brasil recebeu uma grande atualização.

Eis as novidades. Para ver a lista completa de alterações, clique aqui.

Inclusões:
– Conrado Hübner Mendes (Folha de S.Paulo)
– Drauzio Varella (Drauzio Varella)
– Filipe Campante (Nexo)
– Marta Arretche (Nexo)
– Maria Hermínia Tavares (Folha de S.Paulo)
– Pedro Fernando Nery (O Estado de S. Paulo)
– Sérgio Praça (Exame)
– Solange Srour (Folha de S.Paulo)

Exclusões de “Magna cum laude”:
– Fabio Giambiagi (Valor Econômico)
– Fernando Limongi (Valor Econômico)
– Paulo Vinicius Coelho (UOL)

Exclusões de “Cum laude”:
– Antônio Gois (O Globo)
– Antonio Nucifora (Folha de S.Paulo)
– Celso Rocha de Barros (Folha de S.Paulo)
– Cepesp (Jota)
– Cláudia Collucci (Folha de S.Paulo)
– Cláudia Costin (Folha de S.Paulo)
– Cláudio Gonçalves Couto (Valor Econômico)
– Conrado Hübner Mendes (Época)
– Dalmo de Abreu Dallari (Jota)
– Eliane Brum (El País)
– Fernando Dantas (O Estado de S. Paulo)
– Fernando Henrique Cardoso (El País, O Globo)
– João Pereira Coutinho (Folha de S.Paulo)
– Lúcio de Castro (Sportlight)
– Mathias Alencastro (Folha de S.Paulo)
– Míriam Leitão (O Globo)
– Monica de Bolle (O Estado de S. Paulo, Época)
– Pedro Fernando Nery (Brasil, Economia e Governo)
– Renato Rodrigues (ESPN)
– Roberto Rodrigues (O Estado de S. Paulo)
– Ricardo Perrone (UOL)
– Sérgio Lazzarini (Veja)
– Sérgio Praça (Veja)
– Supra (Jota)
– Vinicius Torres Freire (Folha de S.Paulo)

Exclusão de “Traduções”:
– Paul Krugman (Exame, Folha de S.Paulo)

Fim das divisões “Magna cum laude”, “Cum laude” e “Traduções”.

Atualização do texto sob “Informações”.

Atualização de links.