Reforma da Previdência: dois textos

Um, no UOL, cheio de falácias:

A Reforma da Previdência, tal como está proposta, escancara a existência de dois Brasis.

Um que pode arcar com a imposição de 65 anos como idade mínima para aposentadoria e 25 anos como tempo mínimo de contribuição, pois começa a trabalhar mais tarde e consegue viver mais.

E outro que pula de serviço informal em serviço informal, destrói a saúde em trabalhos braçais e jornadas extenuantes e vive em regiões com expectativa de vida pouco maior que esses 65 anos.

Outro, no blog Brasil, Economia e Governo, muito mais honesto:

É um grave equívoco usar neste debate a expectativa de vida ao nascer. Este indicador é, grosso modo, a idade média com que as pessoas falecem no Brasil. Ele é muito influenciado, para baixo, pela mortalidade infantil e pela morte de jovens por causas externas, como no trânsito e em homicídios. É por isso que em Estados pobres a expectativa de vida ao nascer é tão baixa.

Para a Previdência, o que importa é a expectativa de vida não no nascimento, mas na idade da aposentadoria. Este indicador também é muitas vezes no debate chamado de “expectativa de sobrevida”. Aos 65 anos, a expectativa de sobrevida do brasileiro é, hoje, de mais 18 anos, totalizando 83 anos e meio. A boa notícia: esta expectativa vem aumentando e varia pouco pelo país (é de cerca de 84 anos no Sul, 82 e meio no Nordeste). Se de fato os aposentados morressem em média com 66 anos, seria um absurdo a reforma da Previdência.

Por que articulistas tão fracos têm tanto espaço em grandes veículos? Duas hipóteses não mutuamente exclusivas:

  • Eles atraem audiência (essa explicação serve para muitos defeitos do jornalismo online);

  • Quem os escolhe é incapaz de distinguir os legitimamente bons dos picaretas.

Certamente há diversas outras razões, mas essas devem estar entre as principais.

Republicans, Democrats and ‘the true underlying political economy of deficits’

Kenneth Rogoff:

It is a post-financial-crisis myth that austerity-minded conservative governments always favor fiscal prudence, while redistribution-oriented progressives view large deficits as the world’s biggest free lunch. This simplistic perspective, while perhaps containing a grain of truth, badly misses the true underlying political economy of deficits.

The fact is that whenever one party has firm control of government, it has a powerful incentive to borrow to finance its priorities, knowing that it won’t necessarily be the one to foot the bill. So expect US President-elect Donald Trump’s administration, conservative or not, to make aggressive use of budget deficits to fund its priorities for taxes and spending.

The most accurate framework for thinking about government budget deficits in democracies was proposed in the late 1980s by the Italian scholars Alberto Alesina and Guido Tabellini, more or less simultaneously with two Swedes, Torsten Persson and Lars Svensson. While their approaches differ slightly in detail, the basic idea is the same: You give money to your friends while you can. If there is less money to go around later, when the opposition party gets its turn in power, well, that’s just too bad.

One only has to recall recent US economic history to confirm the insight of the Italian/Swedish model — and to see the absurdity of claims that Republicans always aim to balance the budget while Democrats always try to spend beyond the country’s means.

Prison massacres in Brazil

Great analysis by Benjamin Lessing on the Monkey Cage:

Brazil’s prison gangs wield immense power on the streets, and driving the violence is a dynamic of competitive expansion. After dominating and transforming the criminal underworlds of their respective home states in the 1990s, the PCC and the CV are now colonizing prisons, urban peripheries and trafficking corridors throughout the country. The scramble for Brazil’s criminal markets is on.

[…]

Street criminals can have many reasons to obey prison-gang rules. The most important is probably the one a Rio trafficker gave me: “Whatever you do on the outside, you have to answer for on the inside.” Moreover, the likelier you are to go to prison, the stronger your incentives to stay friendly with the gang that runs the place. This means that higher incarceration rates and anti-gang crackdowns can actually increase prison gangs’ influence over street-level actors (as I argue in this Monkey Cage post and a forthcoming paper).

This influence, David Skarbek shows, allows prison gangs in Southern California to govern otherwise unruly and violent urban drug markets, increasing overall profits and taxing the surplus. Indeed, from Los Angeles to Rio, prison gangs’ projection of power has transformed retail drug markets. These are usually fragmented, because it is difficult for one organization to control much turf. Mass incarceration solves this elegantly, arresting street criminals and physically confining them where prison gangs can easily reward obedience and punish defection.

[…]

The CV originally spread when officials unwisely dispersed its leaders among Rio’s prisons. PCC leaders have also been transferred to or arrested in other states, where they invariably founded local chapters. Conversely, some local copycat prison gangs were founded by inmates who spent time in PCC-controlled prisons in São Paulo.

It is probably better than most articles published about the massacres in Brazilian media. (I say “probably” because I admit I have not been following the coverage thoroughly.)

‘Burke was right’

Larry Summers, about Davos:

Edmund Burke famously cautioned that “the only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing.” I have been reminded of Burke’s words as I have observed the behavior of US business leaders in Davos over the last few days. They know better but in their public rhetoric they have embraced and enabled our new President and his policies.

FHC, 1999; Lula, 2016

Jean Galvão, na Folha, no último 13 de março:

Jean Galvão, Folha de S.Paulo, 13/3/2016

Angeli, no mesmo jornal, em 27 de agosto de 1999:

Angeli, Folha de S.Paulo, 27/8/1999

Lula e o punho cerrado

Igor Gielow, na Folha:

Após o previsível “sacode”, Lula fez o que sabe melhor: envergou a armadura do oprimido por elites e partiu para o ataque, dobrando uma aposta cantada. Com direito a punho cerrado, imagem imortalizada pelos tresloucados comunistas alemães da década de 1920, aqueles cujo radicalismo ajudou a colocar os nazistas ao poder. Ah, e também dos mensaleiros condenados à prisão e afins.

O punho cerrado tem uma longa história e múltiplas interpretações possíveis. O gesto de Lula, portanto, pode ser relacionado a diversos momentos da história, mas Gielow listou apenas um — o qual, segundo ele, teria imortalizado a imagem.

Algumas questões:

1) Por que Gielow citou justamente esse momento da história? Parece até que ele o escolheu a dedo, unicamente a fim de estabelecer uma conexão negativa entre Lula e os “tresloucados comunistas alemães”.

2) Por que Gielow diz que a imagem foi “imortalizada” pelos comunistas alemães? Há algum tipo de consenso entre historiadores a respeito disso, ou é apenas uma conclusão rasa — em outras palavras, chute? O uso do punho cerrado pelo Partido Comunista da Alemanha foi indubitavelmente importante, mas afirmar que foi isso que imortalizou o gesto me parece no mínimo questionável.

As escolhas de Gielow ficam ainda mais estranhas quando consideramos que, em fevereiro de 2014, ele escreveu um texto contando um pouco da história do punho cerrado. Nele, o jornalista reconhecia não ser “fácil precisar historicamente a criação do gesto” e relatava diversos momentos em que a imagem foi utilizada.

Será que Gielow explicitaria essa relação do punho com os comunistas (que não eram apenas comunistas, mas “tresloucados”) — e só com eles — se o tema da coluna fosse Nelson Mandela ou o futebolista Sócrates? Ou seria mais um caso de dois pesos, duas medidas? Não quero comparar Lula a esses dois personagens, apenas lembrar que eles também usavam o gesto.

O bom jornalismo é, em geral, crítico ao poder. Mas é necessário tomar cuidado para que, no afã de ser crítico, não seja injusto ou desnecessariamente maldoso.

Fernando Haddad e o senso comum

A última edição da revista Novos Estudos traz uma longa entrevista com Fernando Haddad, prefeito de São Paulo. Destaco este trecho:

Os temas urbanos começaram a ser objeto de estudos acadêmicos robustos, e a academia hoje é um suporte muito importante para prefeitos progressistas, como respaldo para decisões. Respaldo que você não encontra muitas vezes nos meios de comunicação, que acabam refletindo o senso comum. E o senso comum, no capítulo mobilidade, está invariavelmente errado. Não é intuitivo que você, diminuindo a velocidade, vai melhorar o trânsito; nem que, segregando faixa de ônibus, vai melhorar a mobilidade e não prejudicar o carro. Essas coisas são contraintuitivas, então, quando você tem os estudos disponíveis comprovando que esse é o caminho, isso dá um alento. De onde viria o respaldo para tomar esse tipo de decisão?

Essa valorização do conhecimento acadêmico em relação ao senso comum é uma marca de Haddad. Não é algo necessariamente positivo (muito menos negativo), até porque não raro a academia erra, mas é uma postura elogiável. E que, como tantas outras posturas elogiáveis (de diferentes atores, não apenas políticos), enfrenta resistências dentro do PT.

O Cebrap publicou um vídeo com a entrevista no YouTube. O trecho acima começa em 22:58.

Mais recentemente, Haddad participou do seminário “Economia Compartilhada no Setor de Transportes”, organizado pelo Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV-SP. O evento, que também está disponível no YouTube (parte 1, parte2), teve a participação de diversos economistas. Destaco as falas de Marcos Lisboa e Bernardo Guimarães, na primeira parte do seminário.

Não sei se há um “senso comum” sobre o assunto, mas a proposta da prefeitura para a regulação de serviços de transporte como o Uber foi bastante elogiada.

Media criticism in Brazil

There is a lack of non-partisan media criticism in Brazil. What we usually see are opinions from people dissatisfied with the treatment that publications give to certain parties or persons, not with the quality of their journalism.

This gap also exists in the mainstream media, as Alberto Dines, co-founder of Observatório da Imprensa (“press observatory”), a media criticism website, likes to remind. It is a pity. The most prestigious publications would be, in theory, the ideal places for non-partisan criticism and coverage.

On January 28th, we had a surprise. Folha de S.Paulo, the most important newspaper in Brazil, published an article questioning the quality of journalism in the country. The hook was a cover story of Época, a weekly magazine.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians — and of Rousseff’s government especially — now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

I did not translate that, the article was actually written in English. Because, sadly, it was not exactly a work from Folha, but from one of its blogs, From Brazil, edited by journalist Vincent Bevins. And the text’s author, Alex Cuadros, is not a member of Folha’s staff — he is a former Bloomberg Businesweek reporter and now works as a freelancer.

That is what it took for a text so hard on journalism — and which actually name names — to be published on the website of Brazil’s most influential newspaper. In other words, there is nothing new in the world of Brazilian press.

As for the piece itself, I have only one note for now. Cuadros writes:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media — Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo — are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. — long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

I do not know if he noticed, but the two positive examples he gives are from daily papers, and the two big targets of his attacks are weeklies. Although we can find many errors from the former and big scoops from the latter, I think that makes for a good illustration of the work of the main news publications in Brazil in the last years. Newspapers in general have done a better and more balanced job, while magazines have been using their more analytical and interpretive approach (if not opinionated) to distort the facts at will.

Finally, an anecdote. After the article appeared, Diego Escosteguy, Época’s editor-in-chief, unfollowed Cuadros on Twitter. Ouch. That hurt.

Crítica de mídia na grande imprensa

Falta crítica apartidária de mídia no Brasil. As opiniões que vemos por aí são, geralmente, de gente insatisfeita com o tratamento que os veículos dão a determinados partidos ou pessoas, não com a qualidade do jornalismo por eles praticado.

Essa lacuna existe também na grande imprensa, como não se cansa de lembrar Alberto Dines, do Observatório da Imprensa. É uma pena. Os títulos de maior prestígio seriam, em tese, o espaço ideal para coberturas e críticas apartidárias.

Ontem (28/1), uma surpresa. A Folha publicou um artigo questionando a qualidade do jornalismo no país, tomando como gancho uma reportagem de capa da revista Época.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians — and of Rousseff’s government especially — now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

Ué, em inglês? Sim. O texto não foi bem uma obra da Folha, mas sim de um de seus blogs, o From Brazil, do jornalista Vincent Bevins. E seu autor, Alex Cuadros, não pertence aos quadros do jornal — ex-Bloomberg Businessweek, hoje ele trabalha como freelancer.

Em outras palavras, nada de novo no universo da grande imprensa brasileira. Só assim mesmo para um artigo tão crítico ao jornalismo — e que dá nome aos bois — sair no site do mais influente jornal do país.

Quanto ao texto em si, tenho apenas uma observação, por enquanto. Cuadros escreve o seguinte:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media — Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo — are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. — long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

Não sei se ele reparou, mas os dois exemplos positivos que dá são de jornais diários, e os dois grandes alvos de suas críticas são revistas semanais. Embora também sejam vários os tropeços dos primeiros e os acertos das segundas, acho que isso é uma boa ilustração da atuação dos principais veículos jornalísticos do país nos últimos anos. Os jornais, em geral, têm feito um trabalho melhor e mais equilibrado. As revistas usam a sua abordagem mais analítica e interpretativa (quando não opinativa) para distorcer os fatos ao seu bel-prazer.

Por fim, uma anedota. Após a publicação do artigo, Diego Escosteguy, editor-chefe da Época, deixou de seguir Cuadros no Twitter. Essa doeu.

Brasil é coerente ao vetar indicação de Benjamin Netanyahu

Hussein Kalout, na Folha, fala sobre a polêmica indicação de Dani Dayan para o posto de embaixador israelense no Brasil:

A nomeação de Dayan desafia, principalmente, duas lógicas fundamentais, uma inerente ao arcabouço das relações diplomáticas entre Brasil e Israel e a outra concernente ao histórico posicionamento brasileiro sobre o conflito israelo-palestino. […]

No que diz respeito à primeira lógica, o governo Netanyahu cometeu um erro protocolar grave ao anunciar o seu indicado pelo Twitter, sem submeter inicialmente a indicação ao governo brasileiro, como dita a praxe diplomática. Em diplomacia, procedimentos, regras e condutas importam, sobremaneira, e traduzem as intenções de quaisquer governos.

Nesse sentido, a indicação, que deveria servir para prestigiar as relações diplomáticas entre os dois países, representa uma afronta ao Brasil e lhe impõe o ônus de ter que desatar um nó desnecessário.

Mas, partindo do ingênuo princípio de que a indicação –ainda que atabalhoada– foi tomada com a melhor das intenções e considerando que o procedimento adotado foi meramente um ato falho, a concessão do “agrément” (aceitação oficial) implicaria à política externa brasileira, no mínimo, uma profunda contradição histórica.

Tradicionalmente, o Brasil sempre condenou, nos diversos foros internacionais, a política de ocupação ilegal dos territórios palestinos. Aceitar Dayan como embaixador plenipotenciário em Brasília contradiria o padrão de votação do Itamaraty no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral da ONU. […]

A postura do Brasil é coerente com os princípios da política externa. Trata-se de uma decisão estudada cuidadosamente pelo Itamaraty. O manifesto suprapartidário assinado por 40 ex-embaixadores e diplomatas do quadro do serviço exterior brasileiro exprime essa coerência e reflete a tese de que a decisão emanou de uma política de Estado e não de uma objeção partidária como se tenta afirmar.

Demonização da divergência

Marcos Lisboa e Carlos Eduardo Gonçalves, no Nexo:

A heterodoxia prefere a propaganda ao debate embasado pela evidência. Diagnósticos e propostas de política econômica são denunciados por, supostamente, refletirem interesses indevidos.

O próprio Lisboa chamou a atenção para esse problema em outro texto no Nexo. Mas agora dá nomes aos bois (ou, como diz o título de seu texto, aos “porcos” — referência à recente polêmica protagonizada por Alexandre Schwarsman e Luiz Gonzaga Belluzzo).

Os argumentos contra e a favor da independência do Banco Central (há ambos!) foram substituídos por uma propaganda com banqueiros roubando a comida de uma família de trabalhadores.

Embora a campanha do PT mereça ser execrada por ter usado essa imagem, acho que há algum exagero nessa frase. Ela sugere que, se o PT não tivesse sido tão apelativo, seria possível ter uma boa discussão sobre a independência do Banco Central durante as eleições. Acho muito improvável, dado o ambiente belicoso de então — tanto que a campanha foi suja de todos os lados. Talvez o PT tenha pegado mais pesado (“méritos” de João Santana), mas a verdade é que os principais partidos pouco contribuíram para uma campanha limpa.

O grande problema é que as discussões continuam a ser desqualificadas mesmo em época não eleitoral, quando deveria ou poderia haver um ambiente propício para isso.

Existem economistas que defendem teses heterodoxas com base em evidências. Dani Rodrik aponta para a eficácia de políticas industriais e intervenções públicas em certos setores. Richard Thaler e outros argumentam que a hipótese de racionalidade não parece adequada em algumas circunstâncias, como no caso da poupança ou da aquisição de imóveis. Paul Krugman aponta que em um mundo de comércio intra-indústria e com concorrência monopolística, o laissez-faire pode não ser a melhor escolha. Barry Eichengreen tem evidência de que as liberalizações dos fluxos de capital causam mais danos que benefícios. Joseph Stiglitz, na sequência de muitos economistas, alerta para diversas falhas de mercado. Thomas Piketty e Emmanuel Saez argumentam em favor de impostos mais elevados, usando dados e a boa estatística para sugerir que a oferta de trabalho dos mais ricos é menos sensível à tributação na margem do que pensávamos. E così via.

No mundo acadêmico internacional, economistas debatem com base na análise dos dados disponíveis. A demonização da divergência pode agradar à retórica, ainda que não à política econômica. No Brasil, prefere-se a escolástica ligeira e o estratagema 34 de Schopenhauer ao debate sobre a evidência e o telescópio do herege.

Muito bom. Mas cabe ressaltar que essa demonização não é exclusiva dos heterodoxos. O discurso agressivo de alguns economistas ortodoxos também pode ser visto como demonização, mesmo quando fortemente baseado em evidências. Apresentar argumentos melhores não significa ter passe livre para demonizar o outro.

Lisboa, em especial, parece comportar-se de maneira exemplar em meio a essas discussões. Mas falta um pouco de autocrítica — de todos os lados — nesse tipo de debate.

‘Brazil’s fall’

Com o título acima, Dilma Rousseff estampa a capa da primeira edição da Economist em 2016. A publicação traz dois textos sobre o Brasil — um editorial e uma reportagem.

O editorial faz um resumo dos problemas do país e sugere medidas para amenizá-los. A revista acredita que Nelson Barbosa pode ter mais sucesso que Joaquim Levy em sua empreitada (por motivos semelhantes aos mencionados por Bernardo Guimarães), mas não demonstra otimismo em relação à realização das reformas necessárias.

It is therefore hard, despite Mr Barbosa’s advantages, to feel optimistic about the prospects for deep reform. Voters hold politicians in contempt. The opposition is bent on impeaching Ms Rousseff, a misguided battle that could dominate the political agenda for months. The PT has no appetite for austerity. Achieving the three-fifths support in both houses of Congress needed for constitutional reforms will be a tall order.

A reportagem basicamente aprofunda os pontos do editorial. Entre outras coisas, cita crises passadas, o papel da Constituição de 1988 nos problemas estruturais, a possibilidade de dominância fiscal e as dificuldades políticas.

They [prominent economists] forecast a “muddling-through” in which Ms Rousseff holds on to her job, Congress passes a few modest spending cuts and tax rises, including a financial-transactions levy, the Central Bank continues to fight inflation, the cheap real boosts exports and investors don’t panic. After three years of this, the theory goes, an electorate fed up with stagnation and sleaze will give the PSDB a clear mandate for change. […]

But the fact that muddling through may be possible does not mean it is assured. It hinges on the hope that politicians come to their senses more quickly than they have done in the past (witness the lost decade begun in the 1980s). It also assumes that Brazil’s penchant for consensus will hold its people back from social unrest on the sort of scale that topples regimes in other countries. The anti-government protests of 2015 were large, drawing up to a million people in a single day. But they were middle-class affairs which took place on sporadic Sundays, causing Ms Rousseff more annoyance than grief. As wages sag and unemployment rises, though, tempers could flare. If they do there will be every chance of a facile populist response that does even deeper economic damage.

Assim como o ensaio de Kenneth Maxwell publicado em agosto na New York Review of Books, a matéria da Economist oferece uma boa síntese dos recentes acontecimentos e da atual situação do Brasil. São ótimos textos para, por exemplo, enviar a amigos ou conhecidos estrangeiros que queiram se informar um pouco sobre o país.

[Atualização] O Estadão traduziu a reportagem da Economist.

O PT e a década perdida

Vinicius Carrasco e João Manoel Pinho de Mello, no Nexo:

Anos depois escrevemos o artigo “A Década Perdida: 2003 – 2012”. Nele, respondemos uma questão distinta mas parecida: o Brasil foi bem sob o comando do PT no governo federal? Quase todos dirão: claro! Crescemos mais do que na década anterior, e com inflação controlada. A pobreza e a desigualdade caíram e milhões foram incorporados ao mercado de consumo. Resposta simples para uma pergunta tola. Por que então dizemos que a década foi perdida? Porque a resposta simples é, na verdade, simplista. […]

O desempenho de um país pode ser avaliado em várias dimensões. Comecemos com o PIB per capita. Encontramos um país “gêmeo” cuja renda antes de 2003 era parecida com o Brasil, tanto no nível quanto na trajetória, mostrando o êxito do método. O “gêmeo”, talvez contra-intuitivamente, tem pouco de América Latina. A Turquia aparece com grande peso. Por quê? Porque é um dos poucos países grandes e industrializados que tinha renda parecida com a brasileira antes de 2003.

Depois de 2002 o Brasil cresceu mais do que no período imediatamente anterior. Mas o país “gêmeo” também cresceu ainda mais. Tendo enfrentado condições externas menos favoráveis, cresceu 21% mais do que o Brasil entre 2003 e 2015. No “gêmeo”, a produtividade, medida pelo PIB por pessoa empregada, dobrou (até 2012); no Brasil, ficou parada.

O Brasil, em relação ao gêmeo, investiu menos, adicionou menos valor na indústria e teve inflação um pouco mais alta; perdeu competitividade, avançou menos em pesquisa e desenvolvimento, piorou sensivelmente a qualidade regulatória, e foi mal em quase todos os setores importantes. No social, a desigualdade de renda, a subnutrição e a pobreza caíram, mas em linha com o “gêmeo”. Educação e saúde andaram em linha, apesar de termos gasto mais; a segurança pública foi mal. No mercado de trabalho, o desempenho foi misto: o salário mínimo real aumentou tanto quanto; o salário médio real aumentou menos. A principal conquista foi no emprego: aumentou a massa salarial no PIB através da incorporação de mais pessoas na força de trabalho e da queda no desemprego. Ou seja, o crescimento veio de mais gente trabalhando, e não de maior produtividade.

Terminamos onde começamos, sem conseguir responder a pergunta do Nicolini [quanto do crescimento brasileiro durante os anos Lula é explicado pelo boom de commodities e pela facilidade de financiamento externo?]. Mas aprendemos que, à luz dos nossos pares, crescemos pouco e assentamos bases frágeis para o futuro. Nesse sentido, desperdiçamos a década.

Os dois economistas costumam escrever bons posts no blog Leis da Oferta.

‘A madeleine de Dilma’

Thomas Traumann, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (governo Dilma), na Folha:

A presidente da República gosta do enfrentamento, a palavra usada por ela para definir as situações de conflito. Reside aí a sua principal diferença com construtores de consensos, como Lula e Fernando Henrique Cardoso.

É no antagonismo que Dilma acredita ter vivido seus momentos mais gloriosos no Palácio do Planalto –as respostas aos protestos de junho de 2013 e as eleições de 2014.

A estratégia presidencial para repetir no processo de impeachment as superações de crise do seu primeiro mandato foi escolher um campo de batalha (o exagero de se afastar, por conta de uma manobra contábil, um presidente eleito) e um adversário (o presidente da Câmara, Eduardo Cunha). Como uma madeleine, a operação é reconfortante, mas é só memória afetiva.

Na vida como ela é, o confronto em torno do impeachment não é jurídico. A denúncia das “pedaladas” só um pretexto. Também não é uma batalha de biografias, na qual Cunha perderia logo de início. A batalha do impeachment é sobre o Brasil de 2016, 2017 e 2018.

O destino de Dilma depende mais dela mesma do que da tabulação de votos no Congresso. É dela a responsabilidade de recuperar a confiança no país, abalada pelos rebaixamentos das notas das agências de classificação de risco.

Caso a presidente consiga convencer a sociedade de que é capaz de executar uma agenda de crescimento, controle da inflação e redução do desemprego, o impeachment se dissipa por si.

Caso não consiga, a ameaça de afastamento será uma tormenta hoje e por todo o mandato.

É justo? Não, mas, como a presidente Dilma gosta de repetir, a vida não é justa.

‘Before You Accuse Me’

Aécio Neves, na Folha:

Entre o Brasil e o PT, a presidente escolheu mais uma vez o PT.

Editorial da própria Folha:

Para usar uma expressão que no passado se assestava com frequência contra o PT, o grupo capitaneado por PSDB e DEM aposta na tese do quanto pior melhor.

Bo Diddley:

Before you accuse me, take a look at yourself