Pedro Fernando Nery: promessas de Guilherme Boulos são ‘incumpríveis’

No Estadão:

Suas promessas são simpáticas, mas por enquanto são promessas incumpríveis.

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Boulos promete que seu primeiro ato será instituir uma renda básica imediata – talvez de R$ 350. Mas nenhum prefeito pode fazer isso por simples decreto: esse aumento de gastos precisa ser autorizado por lei e passar pelo Legislativo.

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A campanha admite não saber quanto custa a promessa do passe livre, que é importante para os desempregados. Os opositores de Boulos afirmam que o passe livre e a renda básica custarão cerca de R$ 25 bilhões por ano. Significaria achar orçamento na cidade para um valor próximo ao custo do Bolsa Família em todo o Brasil.

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Soluções mais efetivas seriam uma reforma tributária e uma reforma previdenciária municipal. É possível aumentar o IPTU e o ITBI de forma progressiva, tributando mais os imóveis de maior de valor, e rever a tributação fixa do ISS (imposto sobre serviços) sobre autônomos. Não é justo que profissionais que ganhem milhões paguem o mesmo ISS do que os que ganham pouco.

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A despesa na seguridade social dos servidores é de cerca de R$ 10 bilhões e crescente, em benefício de uma minoria. Uma transferência de renda que custa o equivalente a quase 2 milhões de rendas básicas. Boa parte desse dinheiro deve se concentrar em bairros mais ricos, não na periferia.

Não é justo que uma cidade em que 3 milhões dependeram do auxílio continue permitindo que servidores se aposentem em média ao redor dos 50 anos com os maiores salários de suas carreiras (que foram estáveis, aliás).

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Boulos precisará escolher entre sua base de servidores e profissionais liberais ou a periferia da renda básica para realmente fazer diferença.

Redução da taxa de homicídio em São Paulo alimenta jornalismo chapa-branca

Caiu a taxa de homicídio em São Paulo. Prato cheio para o jornalismo chapa-branca de Reinaldo Azevedo.

É impressionante (na verdade, não) como Reinaldo aplica o velho “dois pesos, duas medidas” quando se trata de PT e PSDB.

Em novembro do ano passado, por exemplo, quando foi divulgada a redução do número de mortes no trânsito de São Paulo, ele fez alguns questionamentos válidos, tratando com ceticismo as falas de Fernando Haddad. Lógico, como de praxe, avançou o sinal e partiu para conclusões precipitadas e preconceituosas. Mas o fato é que os questionamentos eram válidos.

Agora, praticamente age como assessor de imprensa do estado e publica um post com tom de press release. Reinaldo não apenas deixa de fazer questionamentos como compra com a maior facilidade o argumento do governo de que a redução dos números se deve à eficiência da polícia. Ceticismo zero.

As únicas objeções que faz em seu post são, como não poderia deixar de ser, à “esquerda” e a “petistazinhos escondidos”. Diz ainda que a agropecuária “serviu de âncora” à “distribuição de renda” no Brasil – afirmação para lá de duvidosa, como qualquer coisa que ele diz sobre economia. (Por que insiste tanto em dar pitaco nessa área? Deve ser culpa do Serra. Aliás, o post não deixa de incluir uma defesa básica de Serra. Quando pode falar bem do amigo, Reinaldo o faz. Quando é impossível, fica calado.)

É difícil afirmar, sem estudos e dados, o que realmente motivou a redução de mortes no trânsito e a queda da taxa de homicídios em São Paulo. Precisamos deixar fé, paixão e preconceito de lado ao abordar tais fenômenos. Isso inclui evitar fazer julgamentos rasteiros baseados apenas em preferências político-partidárias.