Demonização da divergência

Marcos Lisboa e Carlos Eduardo Gonçalves, no Nexo:

A heterodoxia prefere a propaganda ao debate embasado pela evidência. Diagnósticos e propostas de política econômica são denunciados por, supostamente, refletirem interesses indevidos.

O próprio Lisboa chamou a atenção para esse problema em outro texto no Nexo. Mas agora dá nomes aos bois (ou, como diz o título de seu texto, aos “porcos” — referência à recente polêmica protagonizada por Alexandre Schwarsman e Luiz Gonzaga Belluzzo).

Os argumentos contra e a favor da independência do Banco Central (há ambos!) foram substituídos por uma propaganda com banqueiros roubando a comida de uma família de trabalhadores.

Embora a campanha do PT mereça ser execrada por ter usado essa imagem, acho que há algum exagero nessa frase. Ela sugere que, se o PT não tivesse sido tão apelativo, seria possível ter uma boa discussão sobre a independência do Banco Central durante as eleições. Acho muito improvável, dado o ambiente belicoso de então — tanto que a campanha foi suja de todos os lados. Talvez o PT tenha pegado mais pesado (“méritos” de João Santana), mas a verdade é que os principais partidos pouco contribuíram para uma campanha limpa.

O grande problema é que as discussões continuam a ser desqualificadas mesmo em época não eleitoral, quando deveria ou poderia haver um ambiente propício para isso.

Existem economistas que defendem teses heterodoxas com base em evidências. Dani Rodrik aponta para a eficácia de políticas industriais e intervenções públicas em certos setores. Richard Thaler e outros argumentam que a hipótese de racionalidade não parece adequada em algumas circunstâncias, como no caso da poupança ou da aquisição de imóveis. Paul Krugman aponta que em um mundo de comércio intra-indústria e com concorrência monopolística, o laissez-faire pode não ser a melhor escolha. Barry Eichengreen tem evidência de que as liberalizações dos fluxos de capital causam mais danos que benefícios. Joseph Stiglitz, na sequência de muitos economistas, alerta para diversas falhas de mercado. Thomas Piketty e Emmanuel Saez argumentam em favor de impostos mais elevados, usando dados e a boa estatística para sugerir que a oferta de trabalho dos mais ricos é menos sensível à tributação na margem do que pensávamos. E così via.

No mundo acadêmico internacional, economistas debatem com base na análise dos dados disponíveis. A demonização da divergência pode agradar à retórica, ainda que não à política econômica. No Brasil, prefere-se a escolástica ligeira e o estratagema 34 de Schopenhauer ao debate sobre a evidência e o telescópio do herege.

Muito bom. Mas cabe ressaltar que essa demonização não é exclusiva dos heterodoxos. O discurso agressivo de alguns economistas ortodoxos também pode ser visto como demonização, mesmo quando fortemente baseado em evidências. Apresentar argumentos melhores não significa ter passe livre para demonizar o outro.

Lisboa, em especial, parece comportar-se de maneira exemplar em meio a essas discussões. Mas falta um pouco de autocrítica — de todos os lados — nesse tipo de debate.

O PT e a década perdida

Vinicius Carrasco e João Manoel Pinho de Mello, no Nexo:

Anos depois escrevemos o artigo “A Década Perdida: 2003 – 2012”. Nele, respondemos uma questão distinta mas parecida: o Brasil foi bem sob o comando do PT no governo federal? Quase todos dirão: claro! Crescemos mais do que na década anterior, e com inflação controlada. A pobreza e a desigualdade caíram e milhões foram incorporados ao mercado de consumo. Resposta simples para uma pergunta tola. Por que então dizemos que a década foi perdida? Porque a resposta simples é, na verdade, simplista. […]

O desempenho de um país pode ser avaliado em várias dimensões. Comecemos com o PIB per capita. Encontramos um país “gêmeo” cuja renda antes de 2003 era parecida com o Brasil, tanto no nível quanto na trajetória, mostrando o êxito do método. O “gêmeo”, talvez contra-intuitivamente, tem pouco de América Latina. A Turquia aparece com grande peso. Por quê? Porque é um dos poucos países grandes e industrializados que tinha renda parecida com a brasileira antes de 2003.

Depois de 2002 o Brasil cresceu mais do que no período imediatamente anterior. Mas o país “gêmeo” também cresceu ainda mais. Tendo enfrentado condições externas menos favoráveis, cresceu 21% mais do que o Brasil entre 2003 e 2015. No “gêmeo”, a produtividade, medida pelo PIB por pessoa empregada, dobrou (até 2012); no Brasil, ficou parada.

O Brasil, em relação ao gêmeo, investiu menos, adicionou menos valor na indústria e teve inflação um pouco mais alta; perdeu competitividade, avançou menos em pesquisa e desenvolvimento, piorou sensivelmente a qualidade regulatória, e foi mal em quase todos os setores importantes. No social, a desigualdade de renda, a subnutrição e a pobreza caíram, mas em linha com o “gêmeo”. Educação e saúde andaram em linha, apesar de termos gasto mais; a segurança pública foi mal. No mercado de trabalho, o desempenho foi misto: o salário mínimo real aumentou tanto quanto; o salário médio real aumentou menos. A principal conquista foi no emprego: aumentou a massa salarial no PIB através da incorporação de mais pessoas na força de trabalho e da queda no desemprego. Ou seja, o crescimento veio de mais gente trabalhando, e não de maior produtividade.

Terminamos onde começamos, sem conseguir responder a pergunta do Nicolini [quanto do crescimento brasileiro durante os anos Lula é explicado pelo boom de commodities e pela facilidade de financiamento externo?]. Mas aprendemos que, à luz dos nossos pares, crescemos pouco e assentamos bases frágeis para o futuro. Nesse sentido, desperdiçamos a década.

Os dois economistas costumam escrever bons posts no blog Leis da Oferta.

Retórica improdutiva

Marcos Lisboa, no Nexo:

Essa divergência sobre os meios mais eficazes para retomar o crescimento, no entanto, é frequentemente relatada como refletindo discordância sobre os objetivos da política econômica: alguns a favor da inclusão social; outros defendendo os interesses da elite em detrimento dos grupos mais vulneráveis. Esses relatos optam por não discutir a evidência e os argumentos, propondo apenas desqualificar aqueles de quem divergem.

Essa distorção do debate pode agradar à política, porém não colabora com o diagnóstico sobre a grave crise da nossa economia e a discussão sobre as melhores formas de superá-la.

A principal divergência entre os economistas não ocorre sobre os fins da política econômica, a retomada do crescimento e a ampliação dos ganhos sociais da última década, mas sim sobre os meios, os instrumentos de política econômica, mais eficazes para atingi-los. […]

O debate cuidadoso sobre a evidência disponível, que incorpore o resultado da pesquisa acadêmica internacional, embasada pela definição precisa dos temas em discussão e pela melhor estatística disponível, contribuiria para o enfrentamento dos difíceis desafios da nossa economia.

A retórica que desqualifica diagnósticos e propostas de política econômica, atribuindo-os a supostos interesses indevidos, apenas procura obstruir a discussão sobre os argumentos e a evidência. Nunca é demais lembrar que muitos dos que desqualificam o debate sobre o ajuste fiscal, associando-o a uma falta de preocupação com os problemas sociais, foram contrários à focalização das políticas sociais que resultou na criação do bolsa família. Na época, como agora, a opção pela retórica de ocasião.

Grifos meus.

Fantasmas do racismo

Lilia Moritz Schwarcz, no Nexo:

Em 2009, o Brasil registrou mais de 191 milhões de habitantes, um aumento de 26% se comparado à população em 1995. Dentre as novidades do censo, uma delas chamava particular atenção: o aumento proporcional da população negra (preta e parda) no país. Em 1995, 44,9% dos brasileiros declaravam-se negros; em 2009 este percentual subiu para 51,1%, enquanto a população de brancos caiu de 54,5% para 48,2%.

Esta elevação não decorre, porém, do aumento da taxa de fecundidade da população negra, mas antes de mudanças comportamentais e na forma como essas pessoas têm se autodeclarado. Ou seja, desde que no final dos anos 1970 assistimos à emergência de uma agenda de direitos civis – pautada no direito à diferença na igualdade – brasileiros têm mudado seus critérios de autodefinição.

Se tal fato permite prever uma maior flexibilidade nos padrões de classificação, já outros resultados sinalizam para uma persistente e incômoda exclusão racial.

Os fantasmas:

De um lado, essa mescla gerou uma sociedade definida por uniões, ritmos, artes, esportes, aromas, culinárias e literaturas realmente misturados. De outro, produziu um país que delega para a polícia o papel de performar a discriminação, como nos atos de intimidação – as famosas batidas policiais –, os quais selecionam sempre mais negros do que brancos.

Continuamos combinando inclusão cultural com exclusão social – mistura com separação – e carregando grandes doses de silêncios e não ditos. Por isso mesmo, não basta culpar o passado e fazer as pazes com o presente; o qual, aliás, anda repleto de passado. Toni Morrison, no romance Amada, conta a história da Casa 124 que era habitada por duas mulheres e seus fantasmas vindos do passado: violências, estupros e mortes dos dias de escravidão.

Paradoxalmente, os fantasmas, que insistiam em retornar, eram o que mais se pareciam com a danada da realidade. Nós brasileiros andamos mesmo perseguidos pelo nosso passado, e nos dedicando, ainda, à tarefa de expulsar fantasmas que, teimosos, continuam a assombrar.