Sérgio Dávila sobre a cobertura de mídia e a pluralidade da ‘Folha’

Como parte das comemorações de seu 95º aniversário, a Folha armou uma entrevista do editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila, a duas de suas principais colunistas, Mônica Bergamo e Natuza Nery.

A cobertura de mídia foi um dos assuntos abordados.

Você considera que a mídia seja um poder e que, portanto, deve ser objeto da cobertura jornalística? É possível cobri-la de maneira crítica?

A mídia é um poder e, como tal, deve ser coberta criticamente. O modelo que eu gosto é o americano, em que empresas de comunicação têm uma editoria que cobre a mídia em um sentido amplo. A gente ainda está longe disso, mas, no Brasil, quem mais se aproxima é a Folha, que tem uma cobertura de mídia constante.

Achei bom Dávila elogiar o modelo americano e reconhecer que a Folha está longe dele, mas Mônica (ou Natuza) deveriam ter aproveitado para questioná-lo especificamente sobre a quase inexistente cobertura de mídia impressa. A Folha cobre praticamente apenas a mídia televisiva — Mônica inclusive chega a citar a TV Globo em sua pergunta (no vídeo). Seria bom ver o jornal abordar o impresso de maneira mais frequente, pouco burocrática e sem corporativismo.

Outro trecho que me incomodou foi este:

Há equilíbrio no time de colunistas do jornal? Peço que comente três contratações recentes que geraram polêmica: Reinaldo Azevedo, Kim Kataguiri e Guilherme Boulos.

A Folha tem hoje 126 colunistas. Se o jornal se propõe a ser plural, tem que levar esse pluralismo às últimas consequências: fazer contratações que parte do seu leitorado seja veementemente contrária. Foi o que aconteceu nesses casos que você citou.

Pelo visto, o “pluralismo” é a resposta-padrão da Folha quando questionada sobre essas e outras contratações — a ombudsman tratou do assunto de maneira semelhante. É uma resposta esperada e aceitável aos que protestam simplesmente porque discordam das opiniões dos colunistas, mas insatisfatória para quem reclama da qualidade dos mesmos. E o problema maior é, de fato, a falta de qualidade. Pluralismo não deveria ser desculpa para contratar colunistas que se destacam, antes de mais nada, pela capacidade de provocar polêmica e atrair audiência.