Redução da taxa de homicídio em São Paulo alimenta jornalismo chapa-branca

Caiu a taxa de homicídio em São Paulo. Prato cheio para o jornalismo chapa-branca de Reinaldo Azevedo.

É impressionante (na verdade, não) como Reinaldo aplica o velho “dois pesos, duas medidas” quando se trata de PT e PSDB.

Em novembro do ano passado, por exemplo, quando foi divulgada a redução do número de mortes no trânsito de São Paulo, ele fez alguns questionamentos válidos, tratando com ceticismo as falas de Fernando Haddad. Lógico, como de praxe, avançou o sinal e partiu para conclusões precipitadas e preconceituosas. Mas o fato é que os questionamentos eram válidos.

Agora, praticamente age como assessor de imprensa do estado e publica um post com tom de press release. Reinaldo não apenas deixa de fazer questionamentos como compra com a maior facilidade o argumento do governo de que a redução dos números se deve à eficiência da polícia. Ceticismo zero.

As únicas objeções que faz em seu post são, como não poderia deixar de ser, à “esquerda” e a “petistazinhos escondidos”. Diz ainda que a agropecuária “serviu de âncora” à “distribuição de renda” no Brasil – afirmação para lá de duvidosa, como qualquer coisa que ele diz sobre economia. (Por que insiste tanto em dar pitaco nessa área? Deve ser culpa do Serra. Aliás, o post não deixa de incluir uma defesa básica de Serra. Quando pode falar bem do amigo, Reinaldo o faz. Quando é impossível, fica calado.)

É difícil afirmar, sem estudos e dados, o que realmente motivou a redução de mortes no trânsito e a queda da taxa de homicídios em São Paulo. Precisamos deixar fé, paixão e preconceito de lado ao abordar tais fenômenos. Isso inclui evitar fazer julgamentos rasteiros baseados apenas em preferências político-partidárias.

‘Folha’ tem novo colunista

Depois de ler esta notícia, fica mais fácil entender por que a Folha publicou as ofensas de Alexandre Schwartsman.

Nessa incessante busca por audiência, em 2013 o jornal contratou Reinaldo Azevedo – e pôs Ricardo Melo para contrabalancear. E agora, quem vai baixar o nível do outro lado? Alguém do Movimento Passe Livre?

Não há editores?

Em agosto de 2009, o Financial Times publicou um artigo de Niall Ferguson sobre o primeiro semestre de Barack Obama na presidência dos EUA. Ele começava assim:

President Barack Obama reminds me of Felix the Cat. One of the best-loved cartoon characters of the 1920s, Felix was not only black. He was also very, very lucky. And that pretty much sums up the 44th president of the US as he takes a well-earned summer break after just over six months in the world’s biggest and toughest job.

Paul Krugman reagiu com uma pergunta: não há editores?

But what I really can’t fathom is how any editor could think this was a good thing to appear in the FT’s pages. I occasionally use an unfortunate turn of phrase; when I do, my copy editor politely suggests that I find another. And if it’s borderline, Andy Rosenthal will weigh in. I don’t think anything like this could show up in the Times – certainly not as the lede.

O questionamento de Krugman tem algo de semelhante com a nota de repúdio endereçada à Folha de S.Paulo pela publicação do artigo “O Porco e o Cordeiro”, de Alexandre Schwartsman:

Repudiamos também a conivência da Folha de S.Paulo e do respectivo editor na prática de tamanha torpeza, transgredindo o código de ética que o próprio jornal afirma seguir.

Como eu disse antes, não se trata de uma afronta à liberdade de expressão ou algo do tipo. É um questionamento válido a favor de um jornalismo de qualidade.

Claro, nos dois casos há um componente pessoal ou ideológico. Krugman despreza Ferguson, e os signatários da nota de repúdio simpatizam com Belluzzo. Isso, porém, não invalida o teor de ambos os protestos.


P.S. Há algo de irônico em escrever isso após repreender Mansueto Almeida por ter comparado Schwartsman a Krugman.

Alexandre Schwartsman versus Luiz Gonzaga Belluzzo

No final do ano passado, eu inocentemente imaginava que veria em 2015 um abrandamento, ainda que leve, dos ânimos que tanto se exaltaram durante a campanha eleitoral. Pelo visto, a coisa só piorou.

Exemplo cabal disso é o ponto a que chegou o debate entre economistas brasileiros sobre a situação atual do país. A discussão, útil e necessária, descambou para uma baixaria deplorável, que praticamente joga no lixo qualquer contribuição que ela poderia gerar.

Alexandre Schwartsman é, hoje, um dos mais proeminentes nesse debate – seja por seu conhecimento, que deve ser respeitado, seja por sua arrogância, que deveria ser ignorada. Deveria. Mas, às vezes, é impossível. Como foi há algumas semanas, quando, em sua coluna na Folha, ele escreveu um artigo recheado de ofensas a Luiz Gonzaga Belluzzo e outros.

Abaixo, faço um resumo comentado do que aconteceu, usando como fio condutor os principais textos que surgiram na discussão.
Continue lendo “Alexandre Schwartsman versus Luiz Gonzaga Belluzzo”

O otimismo de Bernardo Guimarães com Nelson Barbosa

Bernardo Guimarães foi uma das melhores novidades do ano no jornalismo brasileiro. Tem conhecimento, escreve bem e parece ser intelectualmente honesto. É muito difícil encontrar pessoas que unam essas três qualidades. A Folha acertou em cheio.

Em seu último texto, intitulado “Nelson Barbosa será melhor do que se espera”, diz:

No momento, me parece que Nelson Barbosa tem até mais chance que Joaquim Levy de promover algum ajuste e colocar o país em um rumo um pouco melhor. […]

Porque Joaquim Levy era o estranho no ninho, a parte que não cabia no todo, por mais que ele se esforçasse para parecer o contrário. Isso gerava dois problemas: (1) era muito difícil conseguir apoio para as medidas; e (2) os eleitores não aprendiam.

Agora, com Nelson Barbosa na Fazenda, o PT não pode botar a culpa no “neoliberal infiltrado”. Economistas heterodoxos que antes se opunham às propostas de ajuste fiscal agora serão menos críticos a propostas muito parecidas.

Os eleitores, por sua vez, têm mais uma chance de aprender. Afinal, se o Nelson Barbosa quer o ajuste fiscal, é porque isso deve ser mesmo bom para o país (o efeito Nixon-vai-a-China, que eu expliquei aqui).

E me parece claro que Nelson Barbosa vai fazer o possível para ajustar as contas.

Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’, parte 2

Como disse em 14 de dezembro, entrei em contato com Ruy Castro perguntando-lhe sobre a coluna em que ele disse que “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, não tem parágrafos. Alguns dias depois, recebi uma resposta muito gentil, na qual ele reconhece o equívoco e explica a confusão.

Finalmente, em 20 de dezembro, a Folha publicou a seguinte nota na seção “Erramos”:

Diferentemente do informado na coluna “Chulices e populismos”, de Ruy Castro, o romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, é sim dividido em parágrafos. O livro não tem a divisão de capítulos.

Mas a correção, aparentemente, saiu apenas na versão impressa do jornal. E a versão online da coluna por enquanto não tem nenhuma observação sobre o erro.

É nisso que dá tomar decisões desastradas como a de acabar com a publicação dos textos da edição impressa no site do jornal.

Marcelo Figueiredo comenta em tempo real julgamento do STF sobre impeachment

O UOL tem feito uma boa cobertura do julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o rito do processo de impeachment de Dilma Rousseff. O destaque é a participação do advogado constitucionalista Marcelo Figueiredo.

Na maioria dos outros portais de notícia, falta um especialista no assunto para explicar e contextualizar o que ocorre no STF. Nos blogs de jornalistas, falta conhecimento e sobra opinião.

Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’

Em sua coluna na Folha, Ruy Castro escreveu o seguinte:

Há pouco, caiu-me às mãos uma edição recente do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Abri-a e gelei. Rosa concebeu seu romance num bloco maciço, de 600 páginas, sem parágrafos, como se a fala do narrador Riobaldo fosse um novelo sem fim, e assim o publicou. As pausas do original estavam na música do texto.

Pois esta edição da Nova Fronteira esquartejou-o em 1.800 parágrafos. A exemplo do que vão fazer com Shakespeare, por que também não o “traduzem” para o português?

Achei estranho ele dizer isso, pois não conheço edição de “Grande Sertão: Veredas” sem parágrafos (ou com apenas um). Entrei em contato com Ruy e com a Nova Fronteira, mas não obtive resposta.

Em um artigo na Granta, Daniel Galera também diz que o livro de Guimarães Rosa não tem parágrafos.

É curioso. Aparentemente, a primeira edição de “Grande Sertão”, da editora José Olympio, já tinha o texto dividido em parágrafos. Eles também aparecem em reproduções de rascunhos do livro datilografados por Rosa, como as exibidas em uma exposição de 2006 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

[Atualização – 22/12] Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’, parte 2

‘Estadão’: Os melhores de 2015 no esporte

Dois comentários sobre a pesquisa do Estadão na qual jornalistas elegem os maiores destaques do ano:

  1. A “seleção brasileira ideal” evidencia como também os jornalistas sobrevalorizam as atuações dos jogadores em clubes brasileiros.

  2. Divulgar os resultados nesse formato de galeria é uma grande sacanagem. Um desserviço e um desrespeito ao leitor.

Quando a amizade prejudica o jornalismo

Parece que Reinaldo Azevedo, jornalista que gosta de palpitar sobre tudo e todos, não escreveu nem uma linha sobre a brincadeira machista de José Serra em Kátia Abreu em jantar de fim de ano na casa de Eunício Oliveira, líder do PMDB.

O ocorrido mereceu chamada de capa na Folha e no Globo. Mas não apareceu no blog de Reinaldo, amigo de Serra. Imaginem se fosse Lula o autor de tal brincadeira. Comportamento exemplar para alguém que adora criticar o jornalismo alheio.

Reinaldo poderia aprender um pouco, quem sabe, com seu Frias. Em seu Diários da Presidência, Fernando Henrique Cardoso relata um encontro que teve com o todo-poderoso da Folha em 11 de maio de 1995:

O curioso é que ontem o Frias pai [Octavio Frias de Oliveira] e os dois filhos vieram jantar aqui em casa. Conversa difícil, Frias está muito surdo, o Otavinho [Otavio Frias Filho] fica encabulado diante dele, da Ruth e de mim, o outro irmão [Luiz Frias], um pouco mais saído. O velho todo o tempo protestando um grande entusiasmo por mim, que fui o presidente dos seus sonhos, que agora é realidade, que ele está numa torcida danada, que o Brasil depende do meu êxito, enfim… Mencionei a reportagem do jornal, eles fingiram que não era nada, aquela conversa estranha da Folha. Pessoalmente o Frias é sempre muito gentil e muito entusiasmado, na prática, a Folha sempre fazendo as suas jogadas.

FHC achava que a Folha agira “de forma maldosa” na reportagem mencionada.

O importante aqui é que a Folha não pegou leve com FHC, o presidente dos sonhos de Frias.

Diferentemente do que faz Reinaldo com Serra, o presidente dos seus sonhos.