‘Quatro Cinco Um’

No mês passado chegou às livrarias a Quatro Cinco Um, uma revista literária inspirada em veículos como a New York Review of Books e a London Review of Books. Um lançamento muito bem-vindo, até pela carência de publicações desse tipo no Brasil.

Porém fiquei preocupado ao folhear a segunda edição. Aparentemente, houve um aumento no número de artigos escritos por jornalistas — ou, pelo menos, por jornalistas que não acrescentam muito. Não fiz as contas, mas essa foi a minha impressão. E é uma péssima impressão.

A grande imprensa já está cheia de artigos rasos e cheios de achismos escritos por jornalistas. Muitos destes são ou foram bons profissionais — redatores, repórteres, editores —, mas no geral escrevem artigos fracos de análise ou opinião. Claro, há exceções, mas o que me incomodou na Quatro Cinco Um foi justamente o aumento no número de nomes que não estão entre essas exceções. Não é isso que procuro em uma revista literária.

Talvez isso tenha ocorrido (e continuará a ocorrer) não exatamente por falha dos editores, mas por uma falta de autores dispostos a escrever artigos para uma publicação desse tipo no Brasil. Talvez haja uma carência de intelectuais, especialistas, críticos, estudiosos, acadêmicos, pesquisadores, escritores, professores etc. que tenham, além de conhecimento, capacidade e disposição para se comunicar bem com o público. Assim, o espaço dedicado a esse tipo de autor acaba sendo preenchido por jornalistas que têm capacidade e disposição para se comunicar, mas não muito conhecimento.

Isso poderia explicar a própria carência de revistas literárias no Brasil.

Espero, contudo, que eu esteja errado e que, futuramente, vejamos uma seleção de autores mais qualificados na Quatro Cinco Um e em outras publicações.

Reforma da Previdência: dois textos

Um, no UOL, cheio de falácias:

A Reforma da Previdência, tal como está proposta, escancara a existência de dois Brasis.

Um que pode arcar com a imposição de 65 anos como idade mínima para aposentadoria e 25 anos como tempo mínimo de contribuição, pois começa a trabalhar mais tarde e consegue viver mais.

E outro que pula de serviço informal em serviço informal, destrói a saúde em trabalhos braçais e jornadas extenuantes e vive em regiões com expectativa de vida pouco maior que esses 65 anos.

Outro, no blog Brasil, Economia e Governo, muito mais honesto:

É um grave equívoco usar neste debate a expectativa de vida ao nascer. Este indicador é, grosso modo, a idade média com que as pessoas falecem no Brasil. Ele é muito influenciado, para baixo, pela mortalidade infantil e pela morte de jovens por causas externas, como no trânsito e em homicídios. É por isso que em Estados pobres a expectativa de vida ao nascer é tão baixa.

Para a Previdência, o que importa é a expectativa de vida não no nascimento, mas na idade da aposentadoria. Este indicador também é muitas vezes no debate chamado de “expectativa de sobrevida”. Aos 65 anos, a expectativa de sobrevida do brasileiro é, hoje, de mais 18 anos, totalizando 83 anos e meio. A boa notícia: esta expectativa vem aumentando e varia pouco pelo país (é de cerca de 84 anos no Sul, 82 e meio no Nordeste). Se de fato os aposentados morressem em média com 66 anos, seria um absurdo a reforma da Previdência.

Por que articulistas tão fracos têm tanto espaço em grandes veículos? Duas hipóteses não mutuamente exclusivas:

  • Eles atraem audiência (essa explicação serve para muitos defeitos do jornalismo online);

  • Quem os escolhe é incapaz de distinguir os legitimamente bons dos picaretas.

Certamente há diversas outras razões, mas essas devem estar entre as principais.

O preço da pluralidade

Paula Cesarino Costa, nova ombudsman da Folha, em texto sobre a “cultura do estupro”:

O colunista Reinaldo Azevedo preferiu contornar o fato objetivo para apontar o “estupro como estandarte” ideológico. A pluralidade do jornal, por vezes, cobra seu preço.

Ah, essa maldita pluralidade

Mount Stupid

This beautiful SMBC’s chart helps to explain at least three things:

  1. Why I say so much stupid stuff;

  2. Why I write way less than I would like to;

  3. Why opinion journalism in Brazil is so weak.

Mount Stupid, Saturday Morning Breakfast Cereal (SMBC)

Mount Stupid

Este belo gráfico do SMBC ajuda a explicar pelo menos três coisas:

  1. Por que eu falo tanta besteira;

  2. Por que eu escrevo bem menos do que gostaria;

  3. Por que o jornalismo de opinião no Brasil é tão fraco.

Mount Stupid, Saturday Morning Breakfast Cereal (SMBC)

Idiotas que saem da ‘Veja’ para atacar a ‘Veja’

Reinaldo Azevedo, sobre as mudanças na “Veja”:

Caso as coisas terminem aqui, não integrarei a enorme fila dos idiotas que saem da VEJA para atacar a VEJA.

Diogo Mainardi, sobre o mesmo assunto:

Eu, Diogo, considero irônico que o PT tenha assumido o controle da Veja num momento em que tanto o PT quanto a Veja caminham para a extinção.

Lula e o punho cerrado

Igor Gielow, na Folha:

Após o previsível “sacode”, Lula fez o que sabe melhor: envergou a armadura do oprimido por elites e partiu para o ataque, dobrando uma aposta cantada. Com direito a punho cerrado, imagem imortalizada pelos tresloucados comunistas alemães da década de 1920, aqueles cujo radicalismo ajudou a colocar os nazistas ao poder. Ah, e também dos mensaleiros condenados à prisão e afins.

O punho cerrado tem uma longa história e múltiplas interpretações possíveis. O gesto de Lula, portanto, pode ser relacionado a diversos momentos da história, mas Gielow listou apenas um — o qual, segundo ele, teria imortalizado a imagem.

Algumas questões:

1) Por que Gielow citou justamente esse momento da história? Parece até que ele o escolheu a dedo, unicamente a fim de estabelecer uma conexão negativa entre Lula e os “tresloucados comunistas alemães”.

2) Por que Gielow diz que a imagem foi “imortalizada” pelos comunistas alemães? Há algum tipo de consenso entre historiadores a respeito disso, ou é apenas uma conclusão rasa — em outras palavras, chute? O uso do punho cerrado pelo Partido Comunista da Alemanha foi indubitavelmente importante, mas afirmar que foi isso que imortalizou o gesto me parece no mínimo questionável.

As escolhas de Gielow ficam ainda mais estranhas quando consideramos que, em fevereiro de 2014, ele escreveu um texto contando um pouco da história do punho cerrado. Nele, o jornalista reconhecia não ser “fácil precisar historicamente a criação do gesto” e relatava diversos momentos em que a imagem foi utilizada.

Será que Gielow explicitaria essa relação do punho com os comunistas (que não eram apenas comunistas, mas “tresloucados”) — e só com eles — se o tema da coluna fosse Nelson Mandela ou o futebolista Sócrates? Ou seria mais um caso de dois pesos, duas medidas? Não quero comparar Lula a esses dois personagens, apenas lembrar que eles também usavam o gesto.

O bom jornalismo é, em geral, crítico ao poder. Mas é necessário tomar cuidado para que, no afã de ser crítico, não seja injusto ou desnecessariamente maldoso.

Sérgio Dávila sobre a cobertura de mídia e a pluralidade da ‘Folha’

Como parte das comemorações de seu 95º aniversário, a Folha armou uma entrevista do editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila, a duas de suas principais colunistas, Mônica Bergamo e Natuza Nery.

A cobertura de mídia foi um dos assuntos abordados.

Você considera que a mídia seja um poder e que, portanto, deve ser objeto da cobertura jornalística? É possível cobri-la de maneira crítica?

A mídia é um poder e, como tal, deve ser coberta criticamente. O modelo que eu gosto é o americano, em que empresas de comunicação têm uma editoria que cobre a mídia em um sentido amplo. A gente ainda está longe disso, mas, no Brasil, quem mais se aproxima é a Folha, que tem uma cobertura de mídia constante.

Achei bom Dávila elogiar o modelo americano e reconhecer que a Folha está longe dele, mas Mônica (ou Natuza) deveriam ter aproveitado para questioná-lo especificamente sobre a quase inexistente cobertura de mídia impressa. A Folha cobre praticamente apenas a mídia televisiva — Mônica inclusive chega a citar a TV Globo em sua pergunta (no vídeo). Seria bom ver o jornal abordar o impresso de maneira mais frequente, pouco burocrática e sem corporativismo.

Outro trecho que me incomodou foi este:

Há equilíbrio no time de colunistas do jornal? Peço que comente três contratações recentes que geraram polêmica: Reinaldo Azevedo, Kim Kataguiri e Guilherme Boulos.

A Folha tem hoje 126 colunistas. Se o jornal se propõe a ser plural, tem que levar esse pluralismo às últimas consequências: fazer contratações que parte do seu leitorado seja veementemente contrária. Foi o que aconteceu nesses casos que você citou.

Pelo visto, o “pluralismo” é a resposta-padrão da Folha quando questionada sobre essas e outras contratações — a ombudsman tratou do assunto de maneira semelhante. É uma resposta esperada e aceitável aos que protestam simplesmente porque discordam das opiniões dos colunistas, mas insatisfatória para quem reclama da qualidade dos mesmos. E o problema maior é, de fato, a falta de qualidade. Pluralismo não deveria ser desculpa para contratar colunistas que se destacam, antes de mais nada, pela capacidade de provocar polêmica e atrair audiência.

Media criticism in Brazil

There is a lack of non-partisan media criticism in Brazil. What we usually see are opinions from people dissatisfied with the treatment that publications give to certain parties or persons, not with the quality of their journalism.

This gap also exists in the mainstream media, as Alberto Dines, co-founder of Observatório da Imprensa (“press observatory”), a media criticism website, likes to remind. It is a pity. The most prestigious publications would be, in theory, the ideal places for non-partisan criticism and coverage.

On January 28th, we had a surprise. Folha de S.Paulo, the most important newspaper in Brazil, published an article questioning the quality of journalism in the country. The hook was a cover story of Época, a weekly magazine.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians — and of Rousseff’s government especially — now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

I did not translate that, the article was actually written in English. Because, sadly, it was not exactly a work from Folha, but from one of its blogs, From Brazil, edited by journalist Vincent Bevins. And the text’s author, Alex Cuadros, is not a member of Folha’s staff — he is a former Bloomberg Businesweek reporter and now works as a freelancer.

That is what it took for a text so hard on journalism — and which actually name names — to be published on the website of Brazil’s most influential newspaper. In other words, there is nothing new in the world of Brazilian press.

As for the piece itself, I have only one note for now. Cuadros writes:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media — Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo — are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. — long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

I do not know if he noticed, but the two positive examples he gives are from daily papers, and the two big targets of his attacks are weeklies. Although we can find many errors from the former and big scoops from the latter, I think that makes for a good illustration of the work of the main news publications in Brazil in the last years. Newspapers in general have done a better and more balanced job, while magazines have been using their more analytical and interpretive approach (if not opinionated) to distort the facts at will.

Finally, an anecdote. After the article appeared, Diego Escosteguy, Época’s editor-in-chief, unfollowed Cuadros on Twitter. Ouch. That hurt.

Crítica de mídia na grande imprensa

Falta crítica apartidária de mídia no Brasil. As opiniões que vemos por aí são, geralmente, de gente insatisfeita com o tratamento que os veículos dão a determinados partidos ou pessoas, não com a qualidade do jornalismo por eles praticado.

Essa lacuna existe também na grande imprensa, como não se cansa de lembrar Alberto Dines, do Observatório da Imprensa. É uma pena. Os títulos de maior prestígio seriam, em tese, o espaço ideal para coberturas e críticas apartidárias.

Ontem (28/1), uma surpresa. A Folha publicou um artigo questionando a qualidade do jornalismo no país, tomando como gancho uma reportagem de capa da revista Época.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians — and of Rousseff’s government especially — now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

Ué, em inglês? Sim. O texto não foi bem uma obra da Folha, mas sim de um de seus blogs, o From Brazil, do jornalista Vincent Bevins. E seu autor, Alex Cuadros, não pertence aos quadros do jornal — ex-Bloomberg Businessweek, hoje ele trabalha como freelancer.

Em outras palavras, nada de novo no universo da grande imprensa brasileira. Só assim mesmo para um artigo tão crítico ao jornalismo — e que dá nome aos bois — sair no site do mais influente jornal do país.

Quanto ao texto em si, tenho apenas uma observação, por enquanto. Cuadros escreve o seguinte:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media — Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo — are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. — long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

Não sei se ele reparou, mas os dois exemplos positivos que dá são de jornais diários, e os dois grandes alvos de suas críticas são revistas semanais. Embora também sejam vários os tropeços dos primeiros e os acertos das segundas, acho que isso é uma boa ilustração da atuação dos principais veículos jornalísticos do país nos últimos anos. Os jornais, em geral, têm feito um trabalho melhor e mais equilibrado. As revistas usam a sua abordagem mais analítica e interpretativa (quando não opinativa) para distorcer os fatos ao seu bel-prazer.

Por fim, uma anedota. Após a publicação do artigo, Diego Escosteguy, editor-chefe da Época, deixou de seguir Cuadros no Twitter. Essa doeu.

Ombudsman da ‘Folha’ decepciona ao falar sobre novo colunista

Geralmente, os textos mais fracos do ou da ombudsman da Folha são os que defendem o jornal. A última coluna de Vera Guimarães Martins não foge à regra.

Os leitores, pelo visto, também não ajudaram. A julgar pelo teor dos trechos publicados por Vera, grande parte das mensagens dos leitores questionou a idade e as posições políticas de Kim Kataguiri, novo colunista do jornal. São críticas fracas.

O problema de Kataguiri não é ser jovem, liberal ou de direita, mas a sua incapacidade de fazer um discurso qualificado. A quem interessa um articulista com ideias medíocres e mal argumentadas? Não ao leitorado mais exigente.

Talvez leitores menos qualificados, que se “informam” loucamente pelo Facebook (onde também vociferam suas opiniões), tenham gostado da decisão da Folha. Faz sentido. A contratação de Kataguiri como colunista é um claro exemplo da contaminação do jornalismo pelas redes sociais. O “textão de Facebook” ganhou espaço como coluna de jornal.

Infelizmente Vera não abordou essas questões em seu artigo.

Outra mancada foi citar Guilherme Boulos como uma espécie de contrapeso. Isso é mais ou menos como aquele juiz que erra ao marcar pênalti para um time e depois procura compensar fazendo o mesmo para o adversário. Ora, um erro não justifica o outro. Teria sido melhor simplesmente encerrar a coluna de Boulos.

Não sei bem quem ganha com essa baixaria toda. Mas certamente o jornalismo perde.

Redução da taxa de homicídio em São Paulo alimenta jornalismo chapa-branca

Caiu a taxa de homicídio em São Paulo. Prato cheio para o jornalismo chapa-branca de Reinaldo Azevedo.

É impressionante (na verdade, não) como Reinaldo aplica o velho “dois pesos, duas medidas” quando se trata de PT e PSDB.

Em novembro do ano passado, por exemplo, quando foi divulgada a redução do número de mortes no trânsito de São Paulo, ele fez alguns questionamentos válidos, tratando com ceticismo as falas de Fernando Haddad. Lógico, como de praxe, avançou o sinal e partiu para conclusões precipitadas e preconceituosas. Mas o fato é que os questionamentos eram válidos.

Agora, praticamente age como assessor de imprensa do estado e publica um post com tom de press release. Reinaldo não apenas deixa de fazer questionamentos como compra com a maior facilidade o argumento do governo de que a redução dos números se deve à eficiência da polícia. Ceticismo zero.

As únicas objeções que faz em seu post são, como não poderia deixar de ser, à “esquerda” e a “petistazinhos escondidos”. Diz ainda que a agropecuária “serviu de âncora” à “distribuição de renda” no Brasil — afirmação para lá de duvidosa, como qualquer coisa que ele diz sobre economia. (Por que insiste tanto em dar pitaco nessa área? Deve ser culpa do Serra. Aliás, o post não deixa de incluir uma defesa básica de Serra. Quando pode falar bem do amigo, Reinaldo o faz. Quando é impossível, fica calado.)

É difícil afirmar, sem estudos e dados, o que realmente motivou a redução de mortes no trânsito e a queda da taxa de homicídios em São Paulo. Precisamos deixar fé, paixão e preconceito de lado ao abordar tais fenômenos. Isso inclui evitar fazer julgamentos rasteiros baseados apenas em preferências político-partidárias.

‘Folha’ tem novo colunista

Depois de ler esta notícia, fica mais fácil entender por que a Folha publicou as ofensas de Alexandre Schwartsman.

Nessa incessante busca por audiência, em 2013 o jornal contratou Reinaldo Azevedo — e pôs Ricardo Melo para contrabalancear. E agora, quem vai baixar o nível do outro lado? Alguém do Movimento Passe Livre?

Não há editores?

Em agosto de 2009, o Financial Times publicou um artigo de Niall Ferguson sobre o primeiro semestre de Barack Obama na presidência dos EUA. Ele começava assim:

President Barack Obama reminds me of Felix the Cat. One of the best-loved cartoon characters of the 1920s, Felix was not only black. He was also very, very lucky. And that pretty much sums up the 44th president of the US as he takes a well-earned summer break after just over six months in the world’s biggest and toughest job.

Paul Krugman reagiu com uma pergunta: não há editores?

But what I really can’t fathom is how any editor could think this was a good thing to appear in the FT’s pages. I occasionally use an unfortunate turn of phrase; when I do, my copy editor politely suggests that I find another. And if it’s borderline, Andy Rosenthal will weigh in. I don’t think anything like this could show up in the Times — certainly not as the lede.

O questionamento de Krugman tem algo de semelhante com a nota de repúdio endereçada à Folha de S.Paulo pela publicação do artigo “O Porco e o Cordeiro”, de Alexandre Schwartsman:

Repudiamos também a conivência da Folha de S.Paulo e do respectivo editor na prática de tamanha torpeza, transgredindo o código de ética que o próprio jornal afirma seguir.

Como eu disse antes, não se trata de uma afronta à liberdade de expressão ou algo do tipo. É um questionamento válido a favor de um jornalismo de qualidade.

Claro, nos dois casos há um componente pessoal ou ideológico. Krugman despreza Ferguson, e os signatários da nota de repúdio simpatizam com Belluzzo. Isso, porém, não invalida o teor de ambos os protestos.


P.S. Há algo de irônico em escrever isso após repreender Mansueto Almeida por ter comparado Schwartsman a Krugman.

Alexandre Schwartsman versus Luiz Gonzaga Belluzzo: Um Choque-Rei sem vitoriosos

Resumo comentado com os principais textos da polêmica discussão

No final do ano passado, eu inocentemente imaginava que veria em 2015 um abrandamento, ainda que leve, dos ânimos que tanto se exaltaram durante a campanha eleitoral. Pelo visto, a coisa só piorou.

Exemplo cabal disso é o ponto a que chegou o debate entre economistas brasileiros sobre a situação atual do país. A discussão, útil e necessária, descambou para uma baixaria deplorável, que praticamente joga no lixo qualquer contribuição que ela poderia gerar.

O são-paulino Alexandre Schwartsman é, hoje, um dos mais proeminentes nesse debate — seja por seu conhecimento, que deve ser respeitado, seja por sua arrogância, que deveria ser ignorada. Deveria. Mas, às vezes, é impossível. Como foi há algumas semanas, quando, em sua coluna na Folha, ele escreveu um artigo recheado de ofensas ao palmeirense Luiz Gonzaga Belluzzo e outros.

Abaixo, faço um resumo comentado do que aconteceu, usando como fio condutor os principais textos que surgiram na discussão.
Continue lendo “Alexandre Schwartsman versus Luiz Gonzaga Belluzzo: Um Choque-Rei sem vitoriosos”