Guia metodologicamente incorreto

Apenas recentemente tomei conhecimento da polêmica envolvendo a série Guia Politicamente Incorreto, do canal History.

RIO – Historiadores e escritores acusaram o canal History de incluir, sem o seu consentimento, trechos de entrevistas feitas com eles para o programa “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, cujo primeiro episódio foi ao ar neste sábado.

Lira Neto, Lilia Schwarcz e Laurentino Gomes afirmam ter sido entrevistados por uma produtora contratada pelo canal sem serem informados de que as declarações seriam utilizadas no programa em questão.

Lira Neto foi um dos que mais reclamaram publicamente sobre o ocorrido e chegou a abordar o assunto em sua coluna na Folha:

Estupefato, na semana passada, fiquei sabendo que minha fala seria incluída, de modo ardiloso, em uma série intitulada “Guia Politicamente Incorreto”, baseada nos livros do jornalista Leandro Narloch. Se tivesse sido informado disso previamente, não teria concedido a entrevista.

Considero tais livros um desserviço ao público jovem, alvo prioritário deles. São simplórios na argumentação, falaciosos na utilização das fontes, pródigos em promover estereótipos e sedimentar preconceitos contra minorias historicamente marginalizadas.

Imediatamente, tratei de exigir explicações dos responsáveis. Após apelar para o cinismo e tentar dizer que tudo não passara de um “mal-entendido”, o diretor foi desmascarado pelos fatos. Outros entrevistados, como as historiadoras Lilia Schwarcz, Isabel Lustosa e Mary Del Priore, assim como o jornalista Laurentino Gomes, revelaram que tinham sido vítimas da mesma armadilha. […]

O próprio Narloch sentiu-se compelido a vir a público, pelas redes sociais, para dizer que estava “frustrado” com a história. Afirmou não saber que havíamos sido enganados. Concordava com o pedido dos atingidos para que fossem retiradas as respectivas entrevistas do programa. Contudo, alegou, tudo havia sido feito em nome de promover “um debate elegante sobre temas delicados”.

Quem assistiu aos primeiros episódios constatou que não há elegância ou debate naquilo. A presença e o nome de pesquisadores sérios estão sendo utilizados, na edição, apenas para legitimar e corroborar uma narrativa tendenciosa, “politicamente incorreta”. Por si só, a palavra “guia”, do título, não deixa margem para dúvidas: sugere condução, viés, predefinição de rumo.

Reinaldo José Lopes, que já trabalhou com Leandro Narloch (autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil) e foi entrevistado para a série, falou sobre a polêmica em seu blog e em sua coluna (o trecho abaixo é retirado desta):

O problema central da série é que, embora a proposta declarada seja desmontar clichês e visões ideologicamente motivadas de figuras da nossa história, o que de fato ocorre é substituir um clichê por outro. […]

Como talvez o leitor saiba, dá para contar uma mentira imensa contando apenas verdades –ou pedacinhos dessas verdades.

Gostei especialmente dos textos de Lira Neto e José Lopes porque eles incluem boas críticas ao livro de Narloch e à série nele baseada.

O grande problema desse tipo de obra não são suas conclusões em si, mas a metodologia adotada para chegar a elas. O fato de a tese ser “politicamente incorreta” ou “politicamente correta” é o de menos. O importante é a qualidade da pesquisa – que, nesse tipo de trabalho, costuma ser muito baixa.

Não me refiro a livros de história escritos por não historiadores – afinal, não é necessário ser historiador para escrever bons livros de história. Minha crítica é direcionada a certas obras de não ficção simplistas e sensacionalistas, com título provocativo (e geralmente meio bobo). Uma estratégia comum de seus autores é defender teses polêmicas usando argumentação fraca, baseada em evidências ou interpretações de pouca relevância.

E Narloch “adora uma evidência anedótica – ou seja, ‘causos’, histórias individuais sobre uma situação específica”, diz José Lopes, antes de completar: “Causos são legais, mas quando a gente está falando de história, é preciso deixar muito claro se eles são representativos ou não.”

Para piorar, quando autores dessas obras são alvo de críticas, eles frequentemente tentam desqualificá-las sem rebater seus argumentos, como mostra texto de Juliana Sayuri:

A respeito das críticas de Lira Neto, Narloch afirmou à Folha que as considera personalistas e motivadas mais por divergência política do que pelas informações da série ou do livro.

Respostas assim deveriam deixar claro que o criticado se considera incapaz de responder devidamente aos argumentos da crítica. Infelizmente, não é isso o que ocorre.

Como já nos mostrou Paulo Maluf (entre tantos outros políticos), responder a uma crítica sem rebater seus argumentos é uma tática de retórica que funciona bem. E os fãs de autores como Narloch são mais uma amostra disso.


Para finalizar, um comentário sobre a cobertura da mídia. Uma leitura rápida das matérias sobre o caso pode dar a impressão de que se tratou de mais uma batalha em uma eterna guerra entre historiadores e jornalistas ou algo assim. Títulos usados pelos veículos contribuem para isso.

Mas, como é evidente, as reclamações não vieram apenas de historiadores. Lira Neto, Laurentino Gomes e Reinaldo José Lopes, entre outros, não são historiadores – e nem dizem ser; quem comete esse erro é a mídia.


Ricardo Coimbra:

"Startup Wars V", Ricardo Coimbra

FHC: Eu queria fazer socialismo, não sociologia

Um dos vídeos que subi no YouTube é a entrevista de Fernando Henrique Cardoso para o projeto “Memória das Ciências Sociais no Brasil”. Abaixo, destaco alguns trechos.

Socialismo, não sociologia

Na verdade, quando eu fui para a sociologia, o que eu queria fazer era socialismo, não era sociologia, não é?! E a ideia era mudar o Brasil. […]

O primeiro trabalho que eu escrevi foi sobre Parmênides. Você imagina, [risos] para quem está querendo mudar o mundo, escrever sobre Parmênides não é propriamente gratificante, não é?! [risos] Bom… E até quem dava essa aula sobre os pré-socráticos era um professor que era comunista, ou próximo, ele era muito interessante. Tentava dar uma coisa viva.

Aposentadoria precoce

Eu fui aposentado em abril de 1969. Eu ganhei a cátedra em outubro, fiquei seis meses. Comecei a dar um curso, e acabou. Fui receber a minha aposentadoria lá, e depois a moça do guichê disse: “Esse já morreu.” Eu disse: “Como, morreu? Eu estou aqui.” Tinha morrido um outro Fernando Henrique, Mendes de Almeida, da faculdade de direito. Aí ela me deu o meu salário lá, correspondente ao tempo de serviço, não sei o quê… Olhou para mim: “Tão moço, já aposentado” – não é “já catedrático”, não – “já aposentado”… Que é a glória de todo mundo, não é?! “Como é que conseguiu?” [Risos] Eu digo: “Ah, não é tão fácil assim, não [risos].”

Volta no tempo

C.C. –Se o senhor tivesse dezessete anos de novo, o senhor faria ciências sociais ou faria outra opção? […]

F.C. –Provavelmente sim [faria ciências sociais], com ênfase em história e em economia. Eu acho que a história ensina mais. E entendida história não como événement, mas uma história para valer. [Isso] por causa do meu sentido histórico-estrutural. […] Ainda mais agora no mundo de hoje… Sim.

Mais intelectual do que político

No limite eu sou mais intelectual do que político. Se não fosse, eu teria continuado a exercer a liderança efetiva, e eu não quis, quando deixei a presidência, não é? Não quis por razões pessoais e também por razões que… Bom, precisa ter outros que, enfim, assumam. Infelizmente não fui tão feliz assim na minha expectativa de que pudesse haver outro que se impusesse naturalmente como líder. Porque o líder natural, sucessor natural meu, morreu – era o Mário Covas, não é? Então houve um buraco aí, de geração. Depois o outro seria o Serra, mas o Serra não assumiu.

O depoimento foi gravado em 2011, e os entrevistadores foram Helena Bomeny e Celso Castro (o “C.C.” na citação acima). A transcrição pode ser lida no site do projeto.

A entrevista toda é bem legal, apesar da jactância de FHC – que, na verdade, é até engraçada.

Angeli que o diga.

"Esta É a Sua Vida", Angeli, Folha de S.Paulo, 1995

"Histórias de Amor", Angeli, Folha de S.Paulo, 1996

"Fernando Vai a Roma", Angeli, Folha de S.Paulo, 1997

"Discurso à Nação", Angeli, Folha de S.Paulo, 1997

"O Príncipe e os Miseráveis", Angeli, Folha de S.Paulo, 1998

Lula e o punho cerrado

Igor Gielow, na Folha:

Após o previsível “sacode”, Lula fez o que sabe melhor: envergou a armadura do oprimido por elites e partiu para o ataque, dobrando uma aposta cantada. Com direito a punho cerrado, imagem imortalizada pelos tresloucados comunistas alemães da década de 1920, aqueles cujo radicalismo ajudou a colocar os nazistas ao poder. Ah, e também dos mensaleiros condenados à prisão e afins.

O punho cerrado tem uma longa história e múltiplas interpretações possíveis. O gesto de Lula, portanto, pode ser relacionado a diversos momentos da história, mas Gielow listou apenas um – o qual, segundo ele, teria imortalizado a imagem.

Algumas questões:

1) Por que Gielow citou justamente esse momento da história? Parece até que ele o escolheu a dedo, unicamente a fim de estabelecer uma conexão negativa entre Lula e os “tresloucados comunistas alemães”.

2) Por que Gielow diz que a imagem foi “imortalizada” pelos comunistas alemães? Há algum tipo de consenso entre historiadores a respeito disso, ou é apenas uma conclusão rasa – em outras palavras, chute? O uso do punho cerrado pelo Partido Comunista da Alemanha foi indubitavelmente importante, mas afirmar que foi isso que imortalizou o gesto me parece no mínimo questionável.

As escolhas de Gielow ficam ainda mais estranhas quando consideramos que, em fevereiro de 2014, ele escreveu um texto contando um pouco da história do punho cerrado. Nele, o jornalista reconhecia não ser “fácil precisar historicamente a criação do gesto” e relatava diversos momentos em que a imagem foi utilizada.

Será que Gielow explicitaria essa relação do punho com os comunistas (que não eram apenas comunistas, mas “tresloucados”) – e só com eles – se o tema da coluna fosse Nelson Mandela ou o futebolista Sócrates? Ou seria mais um caso de dois pesos, duas medidas? Não quero comparar Lula a esses dois personagens, apenas lembrar que eles também usavam o gesto.

O bom jornalismo é, em geral, crítico ao poder. Mas é necessário tomar cuidado para que, no afã de ser crítico, não seja injusto ou desnecessariamente maldoso.