Quando a amizade prejudica o jornalismo

Parece que Reinaldo Azevedo, jornalista que gosta de palpitar sobre tudo e todos, não escreveu nem uma linha sobre a brincadeira machista de José Serra em Kátia Abreu em jantar de fim de ano na casa de Eunício Oliveira, líder do PMDB.

O ocorrido mereceu chamada de capa na Folha e no Globo. Mas não apareceu no blog de Reinaldo, amigo de Serra. Imaginem se fosse Lula o autor de tal brincadeira. Comportamento exemplar para alguém que adora criticar o jornalismo alheio.

Reinaldo poderia aprender um pouco, quem sabe, com seu Frias. Em seu Diários da Presidência, Fernando Henrique Cardoso relata um encontro que teve com o todo-poderoso da Folha em 11 de maio de 1995:

O curioso é que ontem o Frias pai [Octavio Frias de Oliveira] e os dois filhos vieram jantar aqui em casa. Conversa difícil, Frias está muito surdo, o Otavinho [Otavio Frias Filho] fica encabulado diante dele, da Ruth e de mim, o outro irmão [Luiz Frias], um pouco mais saído. O velho todo o tempo protestando um grande entusiasmo por mim, que fui o presidente dos seus sonhos, que agora é realidade, que ele está numa torcida danada, que o Brasil depende do meu êxito, enfim… Mencionei a reportagem do jornal, eles fingiram que não era nada, aquela conversa estranha da Folha. Pessoalmente o Frias é sempre muito gentil e muito entusiasmado, na prática, a Folha sempre fazendo as suas jogadas.

FHC achava que a Folha agira “de forma maldosa” na reportagem mencionada.

O importante aqui é que a Folha não pegou leve com FHC, o presidente dos sonhos de Frias.

Diferentemente do que faz Reinaldo com Serra, o presidente dos seus sonhos.

Reunião com governadores: ‘Folha’, ‘Estado’ e ‘Globo’

Os jornais de ontem (31/7) fornecem bom material para um rápido exercício de jornalismo comparado.

Na capa, a Folha de S.Paulo deu como notícia principal o deficit primário do governo federal no primeiro semestre e usou uma chamada menor para a reunião da presidente Dilma Rousseff com os governadores, além de outra para uma análise sobre o encontro. O Estado de S. Paulo e O Globo preferiram o inverso e colocaram a reunião como o maior destaque da primeira página.

Mais interessante do que isso é o modo como cada jornal tratou a reunião. Eis os títulos usados na primeira página:

Folha: “Presidente pede aos governadores ajuda para superar crise”

Estado: “Governadores vão combater pauta que ameaça ajuste”

Globo: “Governadores apoiam Dilma contra aumento de gastos”

A Folha colocou Dilma como personagem principal, enquanto os outros dois deram mais destaque à reação dos governadores.

O Estado e o Globo, que têm fama de serem mais duros com o PT, deram um ar mais positivo à reunião, com matérias que passam a ideia de que algo de bom saiu dali — os governadores se comprometeram a ajudar a presidente no ajuste fiscal.

A matéria da Folha pouco fala sobre a reação dos governadores — uma falha grave, pois eles também eram protagonistas do evento. Fica a impressão de uma reunião completamente infrutífera, com a presidente indefesa pedindo socorro.

Nesse caso, os leitores dos outros dois diários tiveram uma cobertura mais bem apurada, que relata não apenas o que Dilma disse, mas também o que ouviu.