Novo aplicativo da ‘Folha’: não dá para ler

O novo site da Folha, apesar de tantos problemas, é melhor do que a sua versão anterior. O mesmo não se pode dizer do aplicativo da edição impressa.

O jornal trocou de desenvolvedora, e a responsável pelo novo app é uma empresa chamada Maven. Por enquanto, as consequências dessa mudança são desastrosas. Basta ler os comentários no site da Folha e na App Store. É praticamente uma unanimidade – algo que, neste ambiente tão polarizado de hoje, é difícil de conseguir. Parabéns, Folha.

O pior problema chega a ser absurdo de tão ridículo: a baixa definição das páginas do jornal. Como é possível um app dedicado à leitura oferecer uma legibilidade tão baixa?

Para ter uma noção melhor do problema, veja estas capturas feitas com o iPad: Folha, Estadão.

Não, você não está com a vista ruim – a página da Folha realmente está toda embaçada! Note como o app do Estadão exibe caracteres nítidos, bem definidos. (É possível ver também que o aplicativo da Folha não oculta a barra de status do iOS na visualização em tela cheia, mas esse é um problema menor.)

No app da Folha, o texto é exibido em formato de imagem, e isso não deveria ocorrer, pois afeta diretamente a sua legibilidade. O texto deveria ser exibido como texto de fato, ou seja, como se os caracteres fossem vetores, o que permitiria que fossem ampliados ou reduzidos sem perda de nitidez.

É impressionante que um erro tão básico tenha passado batido pelo controle de qualidade da Maven e da Folha. Bem, talvez elas não o considerem um erro. Talvez até achem que não se trata de um problema! Afinal, o novo app foi lançado há semanas e recebeu uma atualização anteontem (13/3). E o problema continua lá.

Não é apenas o texto. As fotos também são exibidas com uma definição sofrível. Novamente, o app do Estadão vence de goleada.

É irônico a Folha se gabar da tipografia e das fotos do novo site e se descuidar tanto desses itens no aplicativo do jornal impresso.

As reclamações ocorrem desde o dia em que a nova versão foi lançada, e até agora nada parece ter sido feito. É revoltante porque já se passaram semanas – e cada dia que passa sem melhoras é um dia a mais de edição impressa com legibilidade horrível e outros problemas; ou, em outras palavras, um dia a mais sem edição impressa.

Isso no app de uma marca que é tradicionalmente um jornal impresso. Isso num app que é destinado exclusivamente a assinantes. São exatamente os leitores que pagam para ler a Folha os maiores prejudicados com esse descaso absurdo do jornal.

Um aplicativo tão porcamente produzido como o da Folha diminui muito o incentivo a pagar por uma assinatura do jornal, até porque é fácil demais burlar o paywall do site.

Parece-me óbvio que contratar a Maven para desenvolver o novo app da Folha foi um tremendo erro. Se o problema não tiver solução, o melhor que o jornal poderia fazer seria reconhecer esse erro e trocar de desenvolvedora.

A Folha precisa adotar em suas plataformas digitais o mesmo rigor técnico aplicado na versão impressa. Ela dificilmente colocaria nas bancas um jornal com tantos defeitos como os presentes no aplicativo (e no site).

Se há algo que a Folha faz bem, quando comparada aos concorrentes, é um jornal impresso. Por que não ter a ambição de alcançar no digital a mesma excelência que ela conseguiu no papel? Do jeito que as coisas andam, o jornal continuará a ser apenas mais uma entre tantas alternativas de jornalismo online – e longe de ser a melhor (nos aspectos técnicos da mídia digital). Quanto mais ela demora para melhorar, mais longe ela fica do topo.

Novo site da ‘Folha’

Na semana passada a Folha estreou um novo site. Eis minhas primeiras impressões.

Prós

  • Melhora geral. Isso é o mais importante – o site, no geral, melhorou em relação à versão anterior.

  • Espaço em branco. O site “respira” melhor com o novo design, principalmente quando visualizado em desktop.

  • Acessibilidade. Louvável a preocupação do jornal com acessibilidade.

  • Fim do azul-bebê. A cor utilizada pelo jornal nos últimos anos não passava um ar de seriedade, e eu nunca vi uma justificativa razoável para a sua escolha. Cheguei a ouvir algo como “é a cor da moda, a cor do Twitter”. (Bom, se o objetivo é “estar na moda”, o novo azul da Folha está mais próximo do usado pelo Facebook – e também dos tons adotados por veículos como o Estadão, O Globo e El País. Não sei se isso é algo positivo, porém.)

  • Fim dos créditos excessivamente detalhados. Na edição impressa (que deve mudar em breve), a Folha ainda coloca, sob o nome do autor da matéria, descrições como “De Brasília”, “Enviado especial a Madri”, “Colaboração para a Folha”, “Especial para a Folha” etc. Acho que esses detalhes pouco interessam ao leitor comum – e, se fossem realmente importantes, deveriam ser explicados a ele. Qual é a diferença entre “Enviado especial a Paris”, “De Paris” e “Em Paris”? (Acredite, há diferença entre os dois últimos e, posso apostar, boa parte dos jornalistas da própria Folha não sabe explicá-la.) Como a Folha diferencia a “colaboração” do “especial”? Para piorar, há falta de paralelismo entre os termos. Por exemplo, “Enviado especial a Londres” indica que o repórter foi enviado a Londres; “Colaboração para a Folha” indica que a matéria foi feita em regime de colaboração (freelance, para ser mais específico). Na primeira, o termo refere-se ao repórter; na segunda, ao trabalho dele.

Contras

  • Erros. O site estreou cheio de falhas, com links quebrados, caracteres errados e outras falhas e imperfeições. Pareceu um lançamento precipitado e despreparado, com um deadline que chegou antes de o trabalho estar finalizado. “Vamos lançar o novo site no dia 1º de fevereiro, esteja pronto ou não!” Alguns erros ainda persistem.

  • Publicidade. Alguns anúncios são bizarros. A home exibe um banner gigantesco no desktop e um pop-up horrível no celular. Mas o maior absurdo são os anúncios da Outbrain, que aparecem colados às notícias recomendadas – e com um visual muito semelhante ao delas. Além de enganar o leitor mais desatento, eles têm chamadas sensacionalistas, com títulos caça-cliques pra lá de sacanas (“iPhone vendido por R$ 280”, “Bancos no Brasil estão preocupados que a Bitcoin oferece uma melhor forma de investimento”). E o destino dos links, claro, são páginas sem credibilidade alguma. É um contrassenso a Folha usar esse tipo de anúncio numa era em que tanto se fala sobre fake news. De alguma maneira, ela está ajudando sites que desinformam e merecem sumir do mapa.

  • Acessibilidade. Falta cuidado com detalhes. Se eu seleciono a versão escura (fundo cinza) na home e, depois, clico em uma notícia, a pagina desta é carregada na versão clara. E na versão escura, é impossível ler os títulos das notícias recomendadas.

  • Tipografia (fonte). A “tipografia […] tratada para usos em diferentes telas” funciona bem em celulares e tablets, que geralmente têm telas com alta densidade de pixels, mas deixa um pouco a desejar em monitores comuns, que têm baixa densidade e são os mais usados em computadores desktop. Vejam nesta imagem a comparação de duas capturas de tela realizadas em um monitor de 24 polegadas com resolução de 1920 × 1200 pixels 1. À esquerda, o texto com a fonte FolhaTexto; à direita, com Georgia 2. Ao menos para mim, a legibilidade do texto com Georgia é superior, principalmente devido ao contraste. O til na versão com FolhaTexto fica distorcido a ponto de parecer um macro.

  • Tipografia (outros). A Folha poderia aproveitar a reforma no site e aplicar nele o mesmo cuidado tipográfico da edição impressa em elementos como travessão e aspas. O primeiro deve ser exibido como travessão de fato, não como um, dois ou três hifens (ou qualquer outro sinal). As aspas devem ser curvas (“como estas”), não retas ("como estas") 3.

  • Padrão. Parece faltar consistência visual na exibição de algumas páginas. Vejam este exemplo. São oito cabeçalhos de colunas no site. Todas são colunas de análise e opinião, ou seja, em tese deveriam apresentar um padrão semelhante. Mas não é o que ocorre. Os três primeiros têm título com fonte FolhaII; os outros aparecem com fonte FolhaTexto. Há colunas com linha fina e chapéu, com linha fina e sem chapéu, sem linha fina e com chapéu e sem linha fina nem chapéu. O chapéu pode ter uma só palavra ou mais. E as palavras podem ou não incluir links para tags. Combinações para todos os gostos! É uma zona tão grande que há diferenças entre textos do mesmo autor (Clóvis Rossi) e até na cor do nome do colunista (Reinaldo Azevedo é o único em cinza). Também seria bom atenção na edição para evitar viúvas como esta.

  • Fotos. Parece ter faltado às fotos a atenção que o jornal deu à tipografia. Muitas imagens são exibidas com baixa resolução ou muitos artefatos de compressão – uma falta de consideração não apenas com o leitor, mas com o trabalho dos fotógrafos. O problema ocorre inclusive em galerias (que obviamente deveriam exibir as fotos da melhor maneira possível) e é mais grave em telas com alta densidade de pixels.

  • Tablets. O layout das páginas no iPad parece ter sido meio negligenciado, principalmente quando o tablet é usado na posição retrato (vertical). Como a tela do tablet é maior que a do celular e menor que a do computador, a solução da Folha foi, aparentemente, misturar características dos layouts destinados a estes dois. O resultado é inconsistente. O problema, pelo que vejo, ocorre basicamente na visualização de elementos que foram desenhados para celular. O logotipo do jornal e os banners de publicidade, por exemplo, aparecem espremidos, com tamanho ideal para celular (bem, no caso dos anúncios, isso pode até ser considerado um ponto positivo para o leitor, mas o layout fica estranho). Algumas chamadas para notícias são esticadas de maneira a ocupar toda a largura da tela, como ocorre no celular – mas, no tablet, elas ficam grandes demais e com fotos horríveis (com resolução muito baixa para o tamanho em que são exibidas).

  • Comentários. O nível dos comentários era e continuará a ser baixo, isso não tem jeito. Mas o design pode melhorar. Ao clicar no botão “Todos os comentários”, somos levados a uma página não responsiva, com legibilidade terrível no celular (bem, mesmo no desktop ela nunca foi boa, com linhas muito compridas). Outro problema que ocorre no celular é aquele botãozinho cinza com ícone de balão, abaixo do título da matéria e ao lado do botão de WhatsApp. Ele deveria levar o leitor à seção de comentários. Ao clicar nele, porém, os comentários não aparecem porque estão escondidos sob o “Continue lendo”.

  • Busca. O sistema de pesquisa do site apresenta pelo menos dois problemas. O primeiro é a busca de palavras com acento. Ao acessar a home, clicar na lupa e digitar “previdência”, o resultado é este (link). Nessa página de resultados, substituir “previdência” por “previdência” dá certo – o resultado é este (link). O segundo problema é que, ao fazer a busca no celular, a página de resultados é exibida na antiga versão para desktop, não na mobile.

  • Antigo site para dispositivos móveis. As páginas de comentários e resultados de busca têm um problema em comum: ambas são exibidas na antiga versão para desktop, mesmo quando acessadas pelo celular. É necessário melhorar a integração entre o site novo (responsivo) e o antigo (com versões separadas para desktop e mobile). Ao navegar pelo site novo e clicar em um link com destino ao site antigo, somos levados à versão desktop da página, mesmo quando o acesso é feito pelo celular. Em outras palavras, o velho site mobile foi jogado para escanteio. Posso dar outros exemplos além dos acima (comentários e busca). Ao acessar a página da edição impressa e selecionar uma data anterior a 1/2/2018, somos sempre levados à versão desktop, nunca à mobile. O mesmo ocorre quando acessamos a página de um colunista e selecionamos um artigo.

  • Página de opinião. Nela, a maioria das chamadas tem apenas o chapéu “Opinião” e o título do texto. O ideal seria ver também o nome do autor do artigo (talvez no próprio chapéu).

  • HTTPS. O acesso ao site ainda não é feito com HTTPS. Demorou, Folha.

Apesar de o volume de texto dos contras ser maior que o dos prós, ressalto que, de uma maneira geral, gostei da atualização do site. Boa parte dos problemas que menciono nos contras já existia desde antes da reforma – ou seja, não apareceram com a nova versão (mas não foram corrigidos nela).


  1. Densidade de 94 PPI (pixels por polegada). O MacBook Pro de 13 polegadas tem 227 PPI. O iPhone X tem 463 PPI; o iPhone 8, 326 PPI; o Galaxy S8, 568 PPI. (Fonte: DPI Calculator / PPI Calculator.) 
  2. A fonte Georgia foi desenhada em 1993 por Matthew Carter especialmente para o uso em telas de baixa resolução. 
  3. Robert Bringhurst, em The Elements of Typographic Style, sobre as “dumb quotes” (“aspas falsas”, na edição brasileira): “These are refugees from the typewriter keyboard. […] They have no typographic function.” 

Guia metodologicamente incorreto

Apenas recentemente tomei conhecimento da polêmica envolvendo a série Guia Politicamente Incorreto, do canal History.

RIO – Historiadores e escritores acusaram o canal History de incluir, sem o seu consentimento, trechos de entrevistas feitas com eles para o programa “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, cujo primeiro episódio foi ao ar neste sábado.

Lira Neto, Lilia Schwarcz e Laurentino Gomes afirmam ter sido entrevistados por uma produtora contratada pelo canal sem serem informados de que as declarações seriam utilizadas no programa em questão.

Lira Neto foi um dos que mais reclamaram publicamente sobre o ocorrido e chegou a abordar o assunto em sua coluna na Folha:

Estupefato, na semana passada, fiquei sabendo que minha fala seria incluída, de modo ardiloso, em uma série intitulada “Guia Politicamente Incorreto”, baseada nos livros do jornalista Leandro Narloch. Se tivesse sido informado disso previamente, não teria concedido a entrevista.

Considero tais livros um desserviço ao público jovem, alvo prioritário deles. São simplórios na argumentação, falaciosos na utilização das fontes, pródigos em promover estereótipos e sedimentar preconceitos contra minorias historicamente marginalizadas.

Imediatamente, tratei de exigir explicações dos responsáveis. Após apelar para o cinismo e tentar dizer que tudo não passara de um “mal-entendido”, o diretor foi desmascarado pelos fatos. Outros entrevistados, como as historiadoras Lilia Schwarcz, Isabel Lustosa e Mary Del Priore, assim como o jornalista Laurentino Gomes, revelaram que tinham sido vítimas da mesma armadilha. […]

O próprio Narloch sentiu-se compelido a vir a público, pelas redes sociais, para dizer que estava “frustrado” com a história. Afirmou não saber que havíamos sido enganados. Concordava com o pedido dos atingidos para que fossem retiradas as respectivas entrevistas do programa. Contudo, alegou, tudo havia sido feito em nome de promover “um debate elegante sobre temas delicados”.

Quem assistiu aos primeiros episódios constatou que não há elegância ou debate naquilo. A presença e o nome de pesquisadores sérios estão sendo utilizados, na edição, apenas para legitimar e corroborar uma narrativa tendenciosa, “politicamente incorreta”. Por si só, a palavra “guia”, do título, não deixa margem para dúvidas: sugere condução, viés, predefinição de rumo.

Reinaldo José Lopes, que já trabalhou com Leandro Narloch (autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil) e foi entrevistado para a série, falou sobre a polêmica em seu blog e em sua coluna (o trecho abaixo é retirado desta):

O problema central da série é que, embora a proposta declarada seja desmontar clichês e visões ideologicamente motivadas de figuras da nossa história, o que de fato ocorre é substituir um clichê por outro. […]

Como talvez o leitor saiba, dá para contar uma mentira imensa contando apenas verdades –ou pedacinhos dessas verdades.

Gostei especialmente dos textos de Lira Neto e José Lopes porque eles incluem boas críticas ao livro de Narloch e à série nele baseada.

O grande problema desse tipo de obra não são suas conclusões em si, mas a metodologia adotada para chegar a elas. O fato de a tese ser “politicamente incorreta” ou “politicamente correta” é o de menos. O importante é a qualidade da pesquisa – que, nesse tipo de trabalho, costuma ser muito baixa.

Não me refiro a livros de história escritos por não historiadores – afinal, não é necessário ser historiador para escrever bons livros de história. Minha crítica é direcionada a certas obras de não ficção simplistas e sensacionalistas, com título provocativo (e geralmente meio bobo). Uma estratégia comum de seus autores é defender teses polêmicas usando argumentação fraca, baseada em evidências ou interpretações de pouca relevância.

E Narloch “adora uma evidência anedótica – ou seja, ‘causos’, histórias individuais sobre uma situação específica”, diz José Lopes, antes de completar: “Causos são legais, mas quando a gente está falando de história, é preciso deixar muito claro se eles são representativos ou não.”

Para piorar, quando autores dessas obras são alvo de críticas, eles frequentemente tentam desqualificá-las sem rebater seus argumentos, como mostra texto de Juliana Sayuri:

A respeito das críticas de Lira Neto, Narloch afirmou à Folha que as considera personalistas e motivadas mais por divergência política do que pelas informações da série ou do livro.

Respostas assim deveriam deixar claro que o criticado se considera incapaz de responder devidamente aos argumentos da crítica. Infelizmente, não é isso o que ocorre.

Como já nos mostrou Paulo Maluf (entre tantos outros políticos), responder a uma crítica sem rebater seus argumentos é uma tática de retórica que funciona bem. E os fãs de autores como Narloch são mais uma amostra disso.


Para finalizar, um comentário sobre a cobertura da mídia. Uma leitura rápida das matérias sobre o caso pode dar a impressão de que se tratou de mais uma batalha em uma eterna guerra entre historiadores e jornalistas ou algo assim. Títulos usados pelos veículos contribuem para isso.

Mas, como é evidente, as reclamações não vieram apenas de historiadores. Lira Neto, Laurentino Gomes e Reinaldo José Lopes, entre outros, não são historiadores – e nem dizem ser; quem comete esse erro é a mídia.


Ricardo Coimbra:

"Startup Wars V", Ricardo Coimbra

O custo das meias-entradas no Brasil

Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, na Folha:

A crise decorre da impressionante sensibilidade do setor público no Brasil aos grupos de interesse e da distribuição de privilégios e incentivos a setores selecionados. O custo desses benefícios é disseminado por toda a sociedade, prejudicando a produtividade e o crescimento econômico. Sobretudo, esse custo é pago pela maioria invisível, a que não escreve nos jornais, não frequenta as universidades públicas, não recebe crédito subsidiado, não se beneficia de medidas de proteção setorial e não se aposenta como funcionário público.

[…]

A lista [de meias-entradas] é longa. A maioria dos indivíduos de nossa sociedade se beneficia de alguma meia-entrada. Todos, porém, pagam a conta dos privilégios e benefícios concedidos aos grupos selecionados. O resultado é a imensa complexidade institucional, resultado das múltiplas regras para garantir o tratamento diferenciado aos grupos selecionados.

Essa complexidade e suas diversas distorções geram custos difusos para toda a sociedade, o custo Brasil, nome genérico para a dificuldade adicional de produzir e trabalhar no país. O custo que torna todos nós mais pobres. Infelizmente, as famílias sem representação organizada, em geral as mais pobres, sofrem ainda mais os custos de um país excessivamente sensível aos grupos de interesse.

É um bom complemento ao artigo sobre problemas estruturais que os dois mais Mansueto Almeida escreveram no ano passado.

As “meias-entradas” também foram bem abordadas por Marcos Mendes em dois textos no Estadão. O primeiro, publicado em setembro, termina assim:

Nenhum dos personagens acima citados tem comportamento ilegal. Eles jogam o jogo de acordo com as regras que estão postas. O erro está nas regras. Mudá-las requer superar as dificuldades das decisões coletivas. Não mudá-las implica continuar com talentos profissionais e dinheiro público mal alocados, empregos improdutivos, potenciais inexplorados, gasto público excessivo, oportunidades perdidas, incentivos errados. Uma fábula de improdutividade.

E o segundo, escrito com Bernard Appy e publicado em janeiro, assim:

Há muito que reformar nos programas públicos para torná-los mais justos, eficientes e baratos. É um erro deixar de fazê-lo por temer prejudicar os mais pobres. Os beneficiários de cada um dos programas tortos aproveitam-se dessa falácia para bloquear o desmonte de seus privilégios. A função primordial do Estado brasileiro não tem sido prestar serviços públicos ou socorrer os mais pobres, mas garantir benefícios obtidos por alguns grupos a expensas do resto da sociedade e das gerações futuras. Ganha quem tem o lobby mais organizado. Isso trava o crescimento da economia e prejudica a todos. Apenas umas gotas desse oceano de benefícios respingam para os mais pobres. E estes ainda pagam parte da conta sob a forma de inflação e impostos altos, baixa criação de empregos e juros elevados.

A alternativa às reformas é a estagnação econômica e a consolidação da desigualdade extrema que sempre caracterizou o Brasil.

Destaco esses trechos porque eles resumem os argumentos, mas talvez o melhor seja os exemplos usados para ilustrar os problemas – eles deixam os textos bastante didáticos.

O preço da pluralidade

Paula Cesarino Costa, nova ombudsman da Folha, em texto sobre a “cultura do estupro”:

O colunista Reinaldo Azevedo preferiu contornar o fato objetivo para apontar o “estupro como estandarte” ideológico. A pluralidade do jornal, por vezes, cobra seu preço.

Ah, essa maldita pluralidade

Leão Serva: ‘Méritos das ciclovias superam defeitos’

Em texto curto na revista Sãopaulo, da Folha, Leão Serva faz um bom resumo das principais críticas às ciclovias que viraram marca da gestão de Fernando Haddad.


P.S. Nome próprio sem letras maiúsculas não existe no manual deste blog (apesar do seu logotipo).

Samuel Pessôa: ‘As ruas estão erradas’

Na Folha:

As ruas pensam que nossos problemas estruturais se resumem à corrupção, que teria atingido valores extraordinários com o petismo. A troca no Planalto faria aparecer recursos vultosos no caixa do Tesouro, tornando possível uma solução para nossa crise fiscal. Os fatos vindos a público pela Operação Lava Jato somente reforçam esse diagnóstico.

As ruas estão erradas. Nossos problemas estruturais se devem a uma série de benefícios, regimes especiais, isenções e privilégios, com variados graus de legitimidade, que foram adicionados à legislação. O resultado é que o gasto público cresce além do crescimento da economia nos últimos 25 anos.

Pessôa gosta de chamar a atenção para os problemas estruturais do Brasil, e a insistência é elogiável, pois esse discurso merece mesmo receber mais destaque.

Não sei, porém, se ele foi correto ao descrever o pensamento das ruas. Tenho a impressão de que fez uma generalização exagerada – o que não é difícil, dado que milhões foram às manifestações.

Admiro as análises de Pessôa, mas não raro ele cai na tentação de descrever de maneira imprecisa ideias ou pessoas das quais discorda. Lembro-me, por exemplo, de um episódio do GloboNews Painel em que ele se arriscou a expor o que seria o pensamento de Luiz Gonzaga Belluzzo, e este, sentado ao lado, logo o interrompeu, dizendo algo como “não coloque palavras na minha boca”.

Precisamos tomar muito cuidado ao tentar descrever o pensamento alheio. É fácil cometermos injustiças, principalmente quando discordamos da ideia que tentamos apresentar. Até porque é muito comum sermos ignorantes sobre coisas que nos são estranhas ou distantes, e a ignorância inevitavelmente provoca erros.

De qualquer maneira, realmente há muita gritaria contra a corrupção e pouca discussão sobre problemas estruturais, mas isso me parece inevitável. A maneira como esses assuntos são tratados na mídia e o interesse do público por eles infelizmente não deverão mudar.

FHC, 1999; Lula, 2016

Jean Galvão, na Folha, no último 13 de março:

Jean Galvão, Folha de S.Paulo, 13/3/2016

Angeli, no mesmo jornal, em 27 de agosto de 1999:

Angeli, Folha de S.Paulo, 27/8/1999

Lula e o punho cerrado

Igor Gielow, na Folha:

Após o previsível “sacode”, Lula fez o que sabe melhor: envergou a armadura do oprimido por elites e partiu para o ataque, dobrando uma aposta cantada. Com direito a punho cerrado, imagem imortalizada pelos tresloucados comunistas alemães da década de 1920, aqueles cujo radicalismo ajudou a colocar os nazistas ao poder. Ah, e também dos mensaleiros condenados à prisão e afins.

O punho cerrado tem uma longa história e múltiplas interpretações possíveis. O gesto de Lula, portanto, pode ser relacionado a diversos momentos da história, mas Gielow listou apenas um – o qual, segundo ele, teria imortalizado a imagem.

Algumas questões:

1) Por que Gielow citou justamente esse momento da história? Parece até que ele o escolheu a dedo, unicamente a fim de estabelecer uma conexão negativa entre Lula e os “tresloucados comunistas alemães”.

2) Por que Gielow diz que a imagem foi “imortalizada” pelos comunistas alemães? Há algum tipo de consenso entre historiadores a respeito disso, ou é apenas uma conclusão rasa – em outras palavras, chute? O uso do punho cerrado pelo Partido Comunista da Alemanha foi indubitavelmente importante, mas afirmar que foi isso que imortalizou o gesto me parece no mínimo questionável.

As escolhas de Gielow ficam ainda mais estranhas quando consideramos que, em fevereiro de 2014, ele escreveu um texto contando um pouco da história do punho cerrado. Nele, o jornalista reconhecia não ser “fácil precisar historicamente a criação do gesto” e relatava diversos momentos em que a imagem foi utilizada.

Será que Gielow explicitaria essa relação do punho com os comunistas (que não eram apenas comunistas, mas “tresloucados”) – e só com eles – se o tema da coluna fosse Nelson Mandela ou o futebolista Sócrates? Ou seria mais um caso de dois pesos, duas medidas? Não quero comparar Lula a esses dois personagens, apenas lembrar que eles também usavam o gesto.

O bom jornalismo é, em geral, crítico ao poder. Mas é necessário tomar cuidado para que, no afã de ser crítico, não seja injusto ou desnecessariamente maldoso.

Sérgio Dávila sobre a cobertura de mídia e a pluralidade da ‘Folha’

Como parte das comemorações de seu 95º aniversário, a Folha armou uma entrevista do editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila, a duas de suas principais colunistas, Mônica Bergamo e Natuza Nery.

A cobertura de mídia foi um dos assuntos abordados.

[Folha:] Você considera que a mídia seja um poder e que, portanto, deve ser objeto da cobertura jornalística? É possível cobri-la de maneira crítica?

[Dávila:] A mídia é um poder e, como tal, deve ser coberta criticamente. O modelo que eu gosto é o americano, em que empresas de comunicação têm uma editoria que cobre a mídia em um sentido amplo. A gente ainda está longe disso, mas, no Brasil, quem mais se aproxima é a Folha, que tem uma cobertura de mídia constante.

Achei bom Dávila elogiar o modelo americano e reconhecer que a Folha está longe dele, mas Mônica (ou Natuza) deveriam ter aproveitado para questioná-lo especificamente sobre a quase inexistente cobertura de mídia impressa. A Folha cobre praticamente apenas a mídia televisiva – Mônica inclusive chega a citar a TV Globo em sua pergunta (no vídeo). Seria bom ver o jornal abordar o impresso de maneira mais frequente, pouco burocrática e sem corporativismo.

Outro trecho que me incomodou foi este:

[Folha:] Há equilíbrio no time de colunistas do jornal? Peço que comente três contratações recentes que geraram polêmica: Reinaldo Azevedo, Kim Kataguiri e Guilherme Boulos.

[Dávila:] A Folha tem hoje 126 colunistas. Se o jornal se propõe a ser plural, tem que levar esse pluralismo às últimas consequências: fazer contratações que parte do seu leitorado seja veementemente contrária. Foi o que aconteceu nesses casos que você citou.

Pelo visto, o “pluralismo” é a resposta-padrão da Folha quando questionada sobre essas e outras contratações – a ombudsman tratou do assunto de maneira semelhante. É uma resposta esperada e aceitável aos que protestam simplesmente porque discordam das opiniões dos colunistas, mas insatisfatória para quem reclama da qualidade dos mesmos. E o problema maior é, de fato, a falta de qualidade. Pluralismo não deveria ser desculpa para contratar colunistas que se destacam, antes de mais nada, pela capacidade de provocar polêmica e atrair audiência.