Estátuas de racistas: dois textos sobre a polêmica

Meses atrás tivemos a polêmica da derrubada de estátuas que homenageiam racistas. Estes são dois dos melhores textos brasileiros que li sobre o assunto.

Demétrio Magnoli, na Folha de S.Paulo:

Uma estátua erguida no passado não representa uma celebração presente de um personagem ou de uma ideologia, mas apenas a prova material de que, um dia, em outra época, isso foi celebrado.

[…]

A transferência das estátuas malditas para museus ou parques temáticos, retirando-as de seus contextos, tem efeito similar. Num caso, como no outro, trata-se de higienizar os lugares de circulação cotidiana, reservando o exercício da memória a uma elite de especialistas da memória.

Rhodes, o pecador, não está só. De Pedro, o Grande, a Thomas Jefferson, de Marx a Churchill, de Machado de Assis a Monteiro Lobato, ninguém passa no teste contemporâneo dos valores.

A lógica férrea do vandalismo do bem conduz a um programa de terra arrasada. O rastilho de fogueiras purificadoras nada poupará, a não ser as novas estátuas esculpidas pelos próprios vândalos do bem, que virão a ser derrubadas por seus futuros seguidores. O presente perpétuo —eis a perigosa ambição dessa seita de iconoclastas.

[…]

Quem tem o direito moral de suprimir os lugares da memória? Se concedermos esse direito aos vândalos do bem, como negá-lo a governos eleitos democraticamente?

Paulo Pachá e Thiago Krause, na Época:

As respostas encontradas nos jornais frequentemente têm sido negativas, argumentando que a derrubada de estátuas significaria a vitória do revisionismo por meio da tentativa de apagar a história e reescrever o passado, projeto supostamente autoritário e anacrônico, pois fundado em uma visão que julga o passado com os olhos de hoje.

O que esses argumentos ignoram são os fundamentos da própria historiografia, aqui entendida como a escrita da história baseada em metodologias e evidências aceitas pelos profissionais da área. Assim, a prática historiográfica é essencialmente revisionista: nós estamos sempre revisando nossos conhecimentos e interpretações sobre o passado. Essa revisão é determinada pelas relações sociais do presente, pois a sucessiva reescrita da história a partir do desenvolvimento de novas questões e interpretações está no cerne do trabalho dos historiadores.

[…]

Assim, a remoção dos monumentos também expressa uma transformação das relações e dos valores sociais. Erigir uma estátua é fazer história, derrubá-la também. Esses momentos são exatamente o contrário do apagamento, pois suscitam debates que geralmente permanecem adormecidos quando se discute o que a sociedade quer valorizar e comemorar.

Já a ideia de que seria anacrônico condenar personagens históricos erra em outra frente, pois ignora que havia outras moralidades possíveis na própria época em que essas figuras viviam. […] O espantalho do anacronismo frequentemente não passa de uma adoção irrefletida da perspectiva dominante que perpetua a negação da alteridade.

[…]

A constante reavaliação do passado nacional e a progressiva crítica de seus mitos é uma das marcas de uma democracia madura. O reconhecimento da inadequação de homenagens públicas realizadas no passado não significa apagamento, mas reparação de alguns dos muitos equívocos cometidos por nossos antepassados. […] O verdadeiro projeto de apagar a história é aquele que a vê como estática e pretende nos manter presos às visões superadas de uma historiografia laudatória dos heróis e mitos nacionais, que excluem e violentam a memória de diversos grupos sociais — em especial negros, indígenas e mulheres — reproduzindo no presente as desigualdades herdadas do passado.

Media criticism in Brazil

There is a lack of non-partisan media criticism in Brazil. What we usually see are opinions from people dissatisfied with the treatment that publications give to certain parties or persons, not with the quality of their journalism.

This gap also exists in the mainstream media, as Alberto Dines, co-founder of Observatório da Imprensa (“press observatory”), a media criticism website, likes to remind. It is a pity. The most prestigious publications would be, in theory, the ideal places for non-partisan criticism and coverage.

On January 28th, we had a surprise. Folha de S.Paulo, the most important newspaper in Brazil, published an article questioning the quality of journalism in the country. The hook was a cover story of Época, a weekly magazine.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians – and of Rousseff’s government especially – now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

I did not translate that, the article was actually written in English. Because, sadly, it was not exactly a work from Folha, but from one of its blogs, From Brazil, edited by journalist Vincent Bevins. And the text’s author, Alex Cuadros, is not a member of Folha’s staff – he is a former Bloomberg Businesweek reporter and now works as a freelancer.

That is what it took for a text so hard on journalism – and which actually name names – to be published on the website of Brazil’s most influential newspaper. In other words, there is nothing new in the world of Brazilian press.

As for the piece itself, I have only one note for now. Cuadros writes:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media – Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo – are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. – long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

I do not know if he noticed, but the two positive examples he gives are from daily papers, and the two big targets of his attacks are weeklies. Although we can find many errors from the former and big scoops from the latter, I think that makes for a good illustration of the work of the main news publications in Brazil in the last years. Newspapers in general have done a better and more balanced job, while magazines have been using their more analytical and interpretive approach (if not opinionated) to distort the facts at will.

Finally, an anecdote. After the article appeared, Diego Escosteguy, Época’s editor-in-chief, unfollowed Cuadros on Twitter. Ouch. That hurt.

Crítica de mídia na grande imprensa

Falta crítica apartidária de mídia no Brasil. As opiniões que vemos por aí são, geralmente, de gente insatisfeita com o tratamento que os veículos dão a determinados partidos ou pessoas, não com a qualidade do jornalismo por eles praticado.

Essa lacuna existe também na grande imprensa, como não se cansa de lembrar Alberto Dines, do Observatório da Imprensa. É uma pena. Os títulos de maior prestígio seriam, em tese, o espaço ideal para coberturas e críticas apartidárias.

Ontem (28/1), uma surpresa. A Folha publicou um artigo questionando a qualidade do jornalismo no país, tomando como gancho uma reportagem de capa da revista Época.

As I’ll argue below, there’s not much meat to Época’s cover story. It appears that its reporters tried very hard to uncover something incriminating, but found only vague implications. Under normal conditions, most magazines might refrain from printing such an inflammatory cover without any proof of wrongdoing. But conditions are far from normal in Brazil at the moment. Suspicion of politicians – and of Rousseff’s government especially – now runs so deep that almost any implication can stick.

Seen this way, the cover may tell us more about the polarization of Brazil’s media and political landscape than it does about Rousseff’s ex-husband.

Ué, em inglês? Sim. O texto não foi bem uma obra da Folha, mas sim de um de seus blogs, o From Brazil, do jornalista Vincent Bevins. E seu autor, Alex Cuadros, não pertence aos quadros do jornal – ex-Bloomberg Businessweek, hoje ele trabalha como freelancer.

Em outras palavras, nada de novo no universo da grande imprensa brasileira. Só assim mesmo para um artigo tão crítico ao jornalismo – e que dá nome aos bois – sair no site do mais influente jornal do país.

Quanto ao texto em si, tenho apenas uma observação, por enquanto. Cuadros escreve o seguinte:

It has long been an article of faith on Brazil’s left that the establishment media – Veja, Época, the Globo media group, and newspapers such as Folha de S.Paulo – are in league to undermine Lula, Rousseff, and their Workers Party. This is an exaggeration. While it’s true that these outlets generally lean to the right of Brazil’s political spectrum (if we define the center according to electoral outcomes since 2000), for the most part their reporting is responsible. Sometimes, it is crucial. In 2012, for example, O Estado de S. Paulo reported on the massively inflated price of a Petrobras refinery in the U.S. – long before Car Wash would uncover signs of embezzlement in the project.

Also, scoops from the establishment media have often exposed scandals involving the current opposition. Perhaps most famously, in a 1997 front-page story, Folha exposed the congressional vote-buying that paved the way for a constitutional amendment to allow President Fernando Henrique Cardoso, Lula’s longtime rival, to run for reelection. (The scandal was never officially investigated.)

But stories like the one I’ve mentioned from Veja, by making spurious leaps based on trumped-up evidence, undermine the credibility of the entire media. Rather than illuminating, they obfuscate, and serve to deepen the already extreme polarization of politics here.

Não sei se ele reparou, mas os dois exemplos positivos que dá são de jornais diários, e os dois grandes alvos de suas críticas são revistas semanais. Embora também sejam vários os tropeços dos primeiros e os acertos das segundas, acho que isso é uma boa ilustração da atuação dos principais veículos jornalísticos do país nos últimos anos. Os jornais, em geral, têm feito um trabalho melhor e mais equilibrado. As revistas usam a sua abordagem mais analítica e interpretativa (quando não opinativa) para distorcer os fatos ao seu bel-prazer.

Por fim, uma anedota. Após a publicação do artigo, Diego Escosteguy, editor-chefe da Época, deixou de seguir Cuadros no Twitter. Essa doeu.