A letter on Emmanuel Farhi’s death

This was written by a childhood friend of Emmanuel Farhi. As Twitter user @BiasedStats notes, the third paragraph makes it worth sharing.

(Below the line, with no indentation.)


As most of you may have now heard, Emmanuel Farhi died by his own hand last week. He was a childhood friend of mine and even if we had been estranged for a long time, I feel this sad news compels or at least allows me to write this message. By all possible measures, Emmanuel was the gold standard of the profession: full professor at Harvard Economics Department, recipient of countless awards, esteemed colleague, coauthor and advisor.

I am not aware of the specifics of his personal situation. Of course, life can be difficult on many aspects other than work. However, in our profession arguably more than in others, professional and personal levels are quite often intertwined. According to the numerous reactions to his passing, Emmanuel counted many friends in the profession, who now refer to his brilliance (“true scholar”, “shooting star”, “super-human”, “best economist of his generation”, etc.). I believe this kind of tributes, however well intentioned, may also be problematic.

In Emmanuel’s case, such awe might have isolated him. In my case, I know that I forbade myself to get in touch with him as much as I could/should have because I did not feel entitled to do so. This kind of feeling is nurtured by the very hierarchical aspect of economic research, which, true enough, is not specific to economics, but is compounded by the reflective nature of our field, where we have a tendency to analyze our daily actions with economic metaphors and, among other examples, take a special interest in the determinants and the measure of individual and group productivity, as well as the structure of careers, using the example of academics.

The challenge we face is to create and maintain an ambitious and stimulating environment without losing sight of what makes academic life so great: collaborative work and a sense of collective, inclusive endeavor. This is all the more important for the newcomers, especially PhD students, who may struggle to adjust to new – and questionable – professional norms and are quite susceptible to mental distress, as discussed in this recent paper. This is also a crucial issue for the months (hopefully, not years) to come, when sanitary restrictions will limit actual human interactions and the generalization of online operations may increase exposure to global competition in possibly detrimental ways. Let us discuss about all this.

Ha-Joon Chang sobre o Brasil

Ha-Joon Chang, economista da Universidade de Cambridge, deu entrevista a El País. Alguns comentários:

Hoje, quando olhamos para os países ricos, em sua maioria, eles praticam o livre comércio. Por isso, é comum pensarmos que foi com esta receita que eles se desenvolveram. Mas, na realidade, eles se tornaram ricos usando o protecionismo e as empresas estatais. Foi só quando eles enriqueceram é que adotaram o livre comércio para si e também como uma imposição a outros Estados. […]

O que é incrível é que essa política [de austeridade] vem sendo usada várias vezes, como no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e nunca funcionou. Albert Einstein falava que a definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes.

O discurso de Chang dá a entender que o Brasil tenta enriquecer com políticas de livre comércio e austeridade – e esse seria o caminho errado. Mas o que o Brasil tenta fazer há décadas é justamente crescer “usando o protecionismo e as empresas estatais”. Sem austeridade. E não deu certo.

A citação a Einstein é muito irônica. O que o Brasil fez várias vezes, esperando resultados diferentes? Protecionismo. (E não há confirmação de que Einstein tenha dito tal frase.)

Ao contrário de outros países em desenvolvido [sic], o Brasil tem a habilidade de fazer as coisas acontecerem por meio da intervenção governamental. A Embraer, por exemplo, é uma empresa de economia mista. […]

A Embraer não é uma empresa de economia mista. (Talvez isso tenha sido um erro de tradução. Ou não.) E cresceu de fato apenas após ser privatizada.

O Governo de Dilma canalizou vários subsídios em alguns setores em particular. Mas isso só foi necessário por conta da política de alta taxa de juros, uma vez que as companhias brasileiras não conseguem competir no mercado global de outra forma. Não sei todos os detalhes. Mas sei que houve erros, corrupção. As metas governamentais também foram determinadas de forma equivocada… sempre privilegiando a estabilidade macroeconômica. Já o declínio da indústria não foi considerado um problema. Focou em ações como Bolsa Família, mas sem prestar atenção em dar um upgrade na economia. […]

Avaliação pra lá de estranha e confusa sobre o governo Dilma. De qualquer maneira, vale lembrar o que disse Chang em 2013:

O rumo da política econômica brasileira está no caminho certo e é normal que a combinação de juros mais baixos e câmbio mais desvalorizado leve algum tempo para produzir um ritmo de crescimento mais forte, disseram ontem o professor sul-coreano Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. Para os dois economistas desenvolvimentistas, os juros e o câmbio estão hoje num nível mais favorável à indústria manufatureira, um segmento que os dois veem como fundamental para o desenvolvimento do país. […]

O professor de Cambridge também vê com bons olhos as medidas adotadas pelo governo Dilma Rousseff para estimular a indústria.

‘Journal of Political Economy’, 125

Founded in 1892, the prestigious Journal of Political Economy, published by the University of Chicago Press, turned 125 in 2017. The latest edition of the year includes a collection of commemorative essays entitled “The Past, Present and Future of Economics: A Celebration of the 125-Year Anniversary of the JPE and Chicago Economics”.

The introduction was written by John List, chairperson of the department of economics at the University of Chicago, and Harald Uhlig, head editor of the JPE.

We invited our senior colleagues at the department and several at Booth to contribute to this collection of essays. We asked them to contribute around 5 pages of final printed pages plus references, providing their own and possibly unique perspective on the various fields that we cover.

There was not much in terms of instructions. On purpose, this special section is intended as a kaleidoscope, as a colorful assembly of views and perspectives, with the authors each bringing their own perspective and personality to bear. Each was given a topic according to his or her specialty as a starting point, though quite a few chose to deviate from that, and that was welcome. […]

We asked that their contribution be about what the field has accomplished or about where the field might or should be going in the future. It is probably the nature of the beast that all chose a largely backward-looking perspective, providing an overview of how the field has developed over time and how the JPE helped this process along by publishing some of the key ideas and key contributions. But hop on board and start reading!

Lars Peter Hansen, Eugene Fama, Richard Thaler, Luigi Zingales, Robert Lucas, James Heckman, and Steven Levitt are some of the authors who chose to collaborate in the special edition. What a great team.

Access to the collection of essays is free.

‘Journal of Political Economy’, 125 anos

Criado em 1892, o prestigioso Journal of Political Economy, publicado pela University of Chicago Press, completou 125 anos em 2017. A última edição do ano inclui uma coleção de ensaios comemorativa, intitulada “The Past, Present, and Future of Economics: A Celebration of the 125-Year Anniversary of the JPE and of Chicago Economics”.

A introdução é de John List, chairperson do departamento de economia da Universidade de Chicago, e Harald Uhlig, head editor do JPE.

We invited our senior colleagues at the department and several at Booth to contribute to this collection of essays. We asked them to contribute around 5 pages of final printed pages plus references, providing their own and possibly unique perspective on the various fields that we cover.

There was not much in terms of instructions. On purpose, this special section is intended as a kaleidoscope, as a colorful assembly of views and perspectives, with the authors each bringing their own perspective and personality to bear. Each was given a topic according to his or her specialty as a starting point, though quite a few chose to deviate from that, and that was welcome. […]

We asked that their contribution be about what the field has accomplished or about where the field might or should be going in the future. It is probably the nature of the beast that all chose a largely backward-looking perspective, providing an overview of how the field has developed over time and how the JPE helped this process along by publishing some of the key ideas and key contributions. But hop on board and start reading!

Lars Peter Hansen, Eugene Fama, Richard Thaler, Luigi Zingales, Robert Lucas, James Heckman e Steven Levitt são alguns dos autores que toparam participar da edição especial. Um timaço.

O acesso à coleção de ensaios é gratuito.

Sebastián Piñera, economist

Sebastián Piñera, recently elected to the presidency of Chile (a position he held from 2010 to 2014), has a PhD in economics from Harvard. He has published articles in the Journal of Economic History, the Journal of Development Economics, and the Quarterly Journal of Economics, all of them top journals.

(Interesting: Google Scholar returns different results in searches for “Sebastian Pinera” and “ Sebastián Piñera”.)

Sebastián Piñera, economista

Sebastián Piñera, recém-eleito para a presidência do Chile (cargo que já ocupou de 2010 a 2014), é PhD em economia por Harvard. Publicou artigos no Journal of Economic History, no Journal of Development Economics e no Quarterly Journal of Economics, periódicos de primeira linha.

(Curiosidade: o Google Scholar gera resultados diferentes em pesquisas por “Sebastian Pinera” e “ Sebastián Piñera”.)

FHC: Eu queria fazer socialismo, não sociologia

Um dos vídeos que subi no YouTube é a entrevista de Fernando Henrique Cardoso para o projeto “Memória das Ciências Sociais no Brasil”. Abaixo, destaco alguns trechos.

Socialismo, não sociologia

Na verdade, quando eu fui para a sociologia, o que eu queria fazer era socialismo, não era sociologia, não é?! E a ideia era mudar o Brasil. […]

O primeiro trabalho que eu escrevi foi sobre Parmênides. Você imagina, [risos] para quem está querendo mudar o mundo, escrever sobre Parmênides não é propriamente gratificante, não é?! [risos] Bom… E até quem dava essa aula sobre os pré-socráticos era um professor que era comunista, ou próximo, ele era muito interessante. Tentava dar uma coisa viva.

Aposentadoria precoce

Eu fui aposentado em abril de 1969. Eu ganhei a cátedra em outubro, fiquei seis meses. Comecei a dar um curso, e acabou. Fui receber a minha aposentadoria lá, e depois a moça do guichê disse: “Esse já morreu.” Eu disse: “Como, morreu? Eu estou aqui.” Tinha morrido um outro Fernando Henrique, Mendes de Almeida, da faculdade de direito. Aí ela me deu o meu salário lá, correspondente ao tempo de serviço, não sei o quê… Olhou para mim: “Tão moço, já aposentado” – não é “já catedrático”, não – “já aposentado”… Que é a glória de todo mundo, não é?! “Como é que conseguiu?” [Risos] Eu digo: “Ah, não é tão fácil assim, não [risos].”

Volta no tempo

C.C. –Se o senhor tivesse dezessete anos de novo, o senhor faria ciências sociais ou faria outra opção? […]

F.C. –Provavelmente sim [faria ciências sociais], com ênfase em história e em economia. Eu acho que a história ensina mais. E entendida história não como événement, mas uma história para valer. [Isso] por causa do meu sentido histórico-estrutural. […] Ainda mais agora no mundo de hoje… Sim.

Mais intelectual do que político

No limite eu sou mais intelectual do que político. Se não fosse, eu teria continuado a exercer a liderança efetiva, e eu não quis, quando deixei a presidência, não é? Não quis por razões pessoais e também por razões que… Bom, precisa ter outros que, enfim, assumam. Infelizmente não fui tão feliz assim na minha expectativa de que pudesse haver outro que se impusesse naturalmente como líder. Porque o líder natural, sucessor natural meu, morreu – era o Mário Covas, não é? Então houve um buraco aí, de geração. Depois o outro seria o Serra, mas o Serra não assumiu.

O depoimento foi gravado em 2011, e os entrevistadores foram Helena Bomeny e Celso Castro (o “C.C.” na citação acima). A transcrição pode ser lida no site do projeto.

A entrevista toda é bem legal, apesar da jactância de FHC – que, na verdade, é até engraçada.

Angeli que o diga.

"Esta É a Sua Vida", Angeli, Folha de S.Paulo, 1995

"Histórias de Amor", Angeli, Folha de S.Paulo, 1996

"Fernando Vai a Roma", Angeli, Folha de S.Paulo, 1997

"Discurso à Nação", Angeli, Folha de S.Paulo, 1997

"O Príncipe e os Miseráveis", Angeli, Folha de S.Paulo, 1998

More Brazil

Besides the three articles in the American Economic Journal: Applied Economics, Brazilian data also appears in the latest issue of the American Economic Review.

“Trade Liberalization and Regional Dynamics”
Rafael Dix-Carneiro, Brian K. Kovak

We study the evolution of trade liberalization’s effects on Brazilian local labor markets. Regions facing larger tariff cuts experienced prolonged declines in formal sector employment and earnings relative to other regions. The impact of tariff changes on regional earnings 20 years after liberalization was three times the effect after 10 years. These increasing effects on regional earnings are inconsistent with conventional spatial equilibrium models, which predict declining effects due to spatial arbitrage. We investigate potential mechanisms, finding empirical support for a mechanism involving imperfect interregional labor mobility and dynamics in labor demand, driven by slow capital adjustment and agglomeration economies. This mechanism gradually amplifies the effects of liberalization, explaining the slow adjustment path of regional earnings and quantitatively accounting for the magnitude of the long-run effects.

Brazil in the ‘AEJ: Applied’

The October 2017 issue of the American Economic Journal: Applied Economics includes three articles with Brazilian data. Here are their abstracts.

“The Use of Violence in Illegal Markets: Evidence from Mahogany Trade in the Brazilian Amazon”
Ariaster B. Chimeli, Rodrigo R. Soares

We provide evidence on the effect of market illegality on violence. Brazil was historically the main exporter of mahogany. Starting in the 1990s, trade was restricted and eventually prohibited. We build on previous evidence that mahogany trade persisted after prohibition and document relative increases in violence in areas with natural occurrence of mahogany. We show that as illegal activity receded in the late 2000s so did the relative increase in violence. We describe an experience of increase in violence following the transition of a market from legal to illegal and contribute to the evaluation of prohibition policies under limited enforcement.

“Human Capital Persistence and Development”
Rudi Rocha, Claudio Ferraz, Rodrigo R. Soares

This paper documents the persistence of human capital over time and its association with long-term development. We exploit variation induced by a state-sponsored settlement policy that attracted immigrants with higher levels of schooling to particular regions of Brazil in the late nineteenth and early twentieth century. We show that one century after the policy, municipalities that received settlements had higher levels of schooling and higher income per capita. We provide evidence that long-run effects worked through higher supply of educational inputs and shifts in the structure of occupations toward skill-intensive sectors.

“Persuasion: A Case Study of Papal Influences on Fertility-Related Beliefs and Behavior”
Vittorio Bassi, Imran Rasul

We study the persuasive impacts of non-informative communication on the short-run beliefs and long-run behavior of individuals. We do so in the context of the Papal visit to Brazil in October 1991, in which persuasive messages related to fertility were salient in Papal speeches during the visit. We use individual’s exposure to such messages to measure how persuasion shifts short-run beliefs such as intentions to contracept and long-term fertility outcomes such as the timing and total number of births. To measure the short-run causal impact of persuasion, we exploit the fact the Brazil 1991 DHS was fielded in the weeks before, during, and after the Papal visit. We use this fortuitous timing to identify that persuasion significantly reduced individual intentions to contracept by more than 40 percent relative to pre-visit levels, and increased the frequency of unprotected sex by 30 percent. We measure the long-run causal impacts of persuasion on fertility outcomes using later DHS surveys to conduct an event study analysis on births in a five-year window on either side of the 1991 Papal visit. Estimating a hazard model of fertility, we find a significant change in births 9 months post-visit, corresponding to a 1.6 percent increase in the aggregate birth cohort. Our final set of results examine the very long-run impact of persuasion and document the impacts to be on the timing of births rather than on total fertility.

(Via Claudio Ferraz.)

Marcos Lisboa e Fernando Haddad

Marcos Lisboa e Fernando Haddad fizeram um interessante debate no Insper. Foi uma continuação da discussão iniciada na revista Piauí, que teve três textos (pelo menos até agora):

Uma das coisas interessantes do debate ao vivo é que os participantes muitas vezes dizem coisas que normalmente não escreveriam. Ou que escreveriam com muito cuidado, após pensar uma centena de vezes, principalmente no ambiente polarizado em que vivemos hoje.

Haddad, por exemplo, elogiou Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e, de maneira meio torta e indireta, até Eduardo Azeredo e a Folha de S.Paulo. Lisboa disse ter sido contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Há também toda aquela interação pessoal que só um encontro ao vivo pode proporcionar – expressões, risadas, piadas, cutucadas etc. –, além de anedotas e comentários que não têm muito lugar em textos escritos. Logo no começo, por exemplo, Haddad disse, em tom de brincadeira:

Apesar de eu dar uns pitacos em economia de vez em quando, eu [só] estudei dois meses de economia, que foi pra passar no exame da Anpec. Depois eu não estudei mais. Eu colava um pouco do Alexandre Schwartsman, do Naercio Menezes, pra passar [nas provas do mestrado]. Então eu tenho dois meses de estudo no meu escritório de advocacia. Passei na Anpec, e é o que eu mais ou menos domino [sobre economia]. Agora, eu sou um curioso. Gosto de economia. Leio [sobre] economia bastante – sem o compromisso profissional, mas é um tema que eu aprecio muito.

Haddad foi colega de Alex e Naercio na USP, no final dos anos 1980. Hoje, os três estão no Insper. O relato acima vale, claro, pela curiosidade (especialmente para quem cursou ou pretende cursar mestrado de economia no Brasil). O ambiente no Insper era de descontração.

A imprensa brasileira foi abordada em certo momento da conversa. Infelizmente, Haddad insistiu em reforçar uma visão algo conspirativa da grande mídia, enquanto Lisboa beirou a inocência ao elogiá-la. Acredito que a realidade esteja mais próxima da opinião de Lisboa, mas quem realmente poderia ter acrescentado algo a essa discussão estava sentado entre os dois – Fernando de Barros e Silva, diretor de redação da Piauí, que mediou o debate. Com sua credibilidade e experiência, ele poderia ter feito ótimas ponderações aos exageros cometidos pelos debatedores, mas, compreensivelmente, preferiu fazer apenas uma rápida observação.

De qualquer maneira, os comentários de Haddad e Lisboa são mais uma demonstração da incompreensão que existe, mesmo entre a elite intelectual brasileira, sobre o jornalismo – em especial, sobre o funcionamento dos grandes veículos de mídia no país.

Jornalistas como Barros e Silva poderiam pensar em alguma maneira de melhorar isso. Eles têm muito a contribuir.

[Atualização – 24/9] A fala de Haddad que destaquei acima gerou um debate um tanto exagerado no perfil de Carlos Eduardo Gonçalves no Facebook (e talvez em outros lugares também). Modifiquei o texto para frisar que Haddad estava brincando, como bem observou Paulo Furquim de Azevedo.