Fernando Haddad e o senso comum

A última edição da revista Novos Estudos traz uma longa entrevista com Fernando Haddad, prefeito de São Paulo. Destaco este trecho:

Os temas urbanos começaram a ser objeto de estudos acadêmicos robustos, e a academia hoje é um suporte muito importante para prefeitos progressistas, como respaldo para decisões. Respaldo que você não encontra muitas vezes nos meios de comunicação, que acabam refletindo o senso comum. E o senso comum, no capítulo mobilidade, está invariavelmente errado. Não é intuitivo que você, diminuindo a velocidade, vai melhorar o trânsito; nem que, segregando faixa de ônibus, vai melhorar a mobilidade e não prejudicar o carro. Essas coisas são contraintuitivas, então, quando você tem os estudos disponíveis comprovando que esse é o caminho, isso dá um alento. De onde viria o respaldo para tomar esse tipo de decisão?

Essa valorização do conhecimento acadêmico em relação ao senso comum é uma marca de Haddad. Não é algo necessariamente positivo (muito menos negativo), até porque não raro a academia erra, mas é uma postura elogiável. E que, como tantas outras posturas elogiáveis (de diferentes atores, não apenas políticos), enfrenta resistências dentro do PT.

O Cebrap publicou um vídeo com a entrevista no YouTube. O trecho acima começa em 22:58.

Mais recentemente, Haddad participou do seminário “Economia Compartilhada no Setor de Transportes”, organizado pelo Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV-SP. O evento, que também está disponível no YouTube (parte 1, parte2), teve a participação de diversos economistas. Destaco as falas de Marcos Lisboa e Bernardo Guimarães, na primeira parte do seminário.

Não sei se há um “senso comum” sobre o assunto, mas a proposta da prefeitura para a regulação de serviços de transporte como o Uber foi bastante elogiada.

Redução da taxa de homicídio em São Paulo alimenta jornalismo chapa-branca

Caiu a taxa de homicídio em São Paulo. Prato cheio para o jornalismo chapa-branca de Reinaldo Azevedo.

É impressionante (na verdade, não) como Reinaldo aplica o velho “dois pesos, duas medidas” quando se trata de PT e PSDB.

Em novembro do ano passado, por exemplo, quando foi divulgada a redução do número de mortes no trânsito de São Paulo, ele fez alguns questionamentos válidos, tratando com ceticismo as falas de Fernando Haddad. Lógico, como de praxe, avançou o sinal e partiu para conclusões precipitadas e preconceituosas. Mas o fato é que os questionamentos eram válidos.

Agora, praticamente age como assessor de imprensa do estado e publica um post com tom de press release. Reinaldo não apenas deixa de fazer questionamentos como compra com a maior facilidade o argumento do governo de que a redução dos números se deve à eficiência da polícia. Ceticismo zero.

As únicas objeções que faz em seu post são, como não poderia deixar de ser, à “esquerda” e a “petistazinhos escondidos”. Diz ainda que a agropecuária “serviu de âncora” à “distribuição de renda” no Brasil — afirmação para lá de duvidosa, como qualquer coisa que ele diz sobre economia. (Por que insiste tanto em dar pitaco nessa área? Deve ser culpa do Serra. Aliás, o post não deixa de incluir uma defesa básica de Serra. Quando pode falar bem do amigo, Reinaldo o faz. Quando é impossível, fica calado.)

É difícil afirmar, sem estudos e dados, o que realmente motivou a redução de mortes no trânsito e a queda da taxa de homicídios em São Paulo. Precisamos deixar fé, paixão e preconceito de lado ao abordar tais fenômenos. Isso inclui evitar fazer julgamentos rasteiros baseados apenas em preferências político-partidárias.