Site e aplicativo da ‘Folha’: ainda com muitos problemas

Em fevereiro do ano passado a Folha de S.Paulo estreou um novo site, e eu escrevi uma crítica com as minhas primeiras impressões. Em outro texto, falei sobre o péssimo aplicativo do jornal impresso.

Mais de um ano depois, quais problemas continuam e quais foram solucionados? Vamos ver.

Site

Erros. O site estreou cheio de falhas, com links quebrados, caracteres errados e outras falhas e imperfeições. Pareceu um lançamento precipitado e despreparado, com um deadline que chegou antes de o trabalho estar finalizado. “Vamos lançar o novo site no dia 1º de fevereiro, esteja pronto ou não!” Alguns erros ainda persistem.

Aparentemente os erros mais gritantes foram resolvidos.

Publicidade. Alguns anúncios são bizarros. A home exibe um banner gigantesco no desktop e um pop-up horrível no celular. Mas o maior absurdo são os anúncios da Outbrain, que aparecem colados às notícias recomendadas – e com um visual muito semelhante ao delas. Além de enganar o leitor mais desatento, eles têm chamadas sensacionalistas, com títulos caça-cliques pra lá de sacanas (“iPhone vendido por R$ 280”, “Bancos no Brasil estão preocupados que a Bitcoin oferece uma melhor forma de investimento”). E o destino dos links, claro, são páginas sem credibilidade alguma. É um contrassenso a Folha usar esse tipo de anúncio numa era em que tanto se fala sobre fake news. De alguma maneira, ela está ajudando sites que desinformam e merecem sumir do mapa.

Aqui, nada mudou. OK, quase nada. Agora as imagens das notícias da Folha incluem um ícone do jornal no canto inferior esquerdo. De resto, continuam os links sensacionalistas típicos da Outbrain – com a mesma tipografia da Folha.

Acessibilidade. Falta cuidado com detalhes. Se eu seleciono a versão escura (fundo cinza) na home e, depois, clico em uma notícia, a pagina desta é carregada na versão clara. E na versão escura, é impossível ler os títulos das notícias recomendadas.

Acima, listo dois problemas com a versão escura. O primeiro foi solucionado. O segundo… Bem, o que fizeram foi algo bem tosco. Agora, as notícias recomendadas aparecem com fundo branco mesmo na versão escura do site. É bizarro. Veja este exemplo.

E há outro problema: os blogs, aparentemente, não possuem versão escura. Eles sempre aparecem com o fundo branco.

Tipografia (fonte). A “tipografia […] tratada para usos em diferentes telas” funciona bem em celulares e tablets, que geralmente têm telas com alta densidade de pixels, mas deixa um pouco a desejar em monitores comuns, que têm baixa densidade e são os mais usados em computadores desktop. Vejam nesta imagem a comparação de duas capturas de tela realizadas em um monitor de 24 polegadas com resolução de 1920 × 1200 pixels 1. À esquerda, o texto com a fonte FolhaTexto; à direita, com Georgia 2. Ao menos para mim, a legibilidade do texto com Georgia é superior, principalmente devido ao contraste. O til na versão com FolhaTexto fica distorcido a ponto de parecer um macro.

Aqui, nada foi feito, e provavelmente nem será. A solução ideal seria criar uma versão da FolhaTexto específica para telas de baixa densidade – e exibi-la somente nelas. É muito caro e trabalhoso.

Tipografia (outros). A Folha poderia aproveitar a reforma no site e aplicar nele o mesmo cuidado tipográfico da edição impressa em elementos como travessão e aspas. O primeiro deve ser exibido como travessão de fato, não como um, dois ou três hifens (ou qualquer outro sinal). As aspas devem ser curvas (“como estas”), não retas ("como estas") 3.

O travessão feito com dois hifens e as aspas retas (ou “falsas”) continuam a aparecer com frequência. Em abril do ano passado, a Folha me informou que isso ocorria devido a “algum conflito com o sistema interno” e que estavam “trabalhando nisso”. Pelo visto, era conversa para boi dormir.

O pior é que é relativamente fácil fazer um plug-in ou algo do tipo para converter automaticamente hifens em travessões, aspas retas em aspas curvas etc. O próprio publicador do jornal impresso tem um recurso assim.

É um problema simples e negligenciado.

Padrão. Parece faltar consistência visual na exibição de algumas páginas. Vejam este exemplo. São oito cabeçalhos de colunas no site. Todas são colunas de análise e opinião, ou seja, em tese deveriam apresentar um padrão semelhante. Mas não é o que ocorre. Os três primeiros têm título com fonte FolhaII; os outros aparecem com fonte FolhaTexto. Há colunas com linha fina e chapéu, com linha fina e sem chapéu, sem linha fina e com chapéu e sem linha fina nem chapéu. O chapéu pode ter uma só palavra ou mais. E as palavras podem ou não incluir links para tags. Combinações para todos os gostos! É uma zona tão grande que há diferenças entre textos do mesmo autor (Clóvis Rossi) e até na cor do nome do colunista (Reinaldo Azevedo é o único em cinza). Também seria bom atenção na edição para evitar viúvas como esta.

Parece ter havido alguma melhora nesse quesito, mas os problemas ainda existem. Títulos de colunas continuam a aparecer tanto em FolhaII quanto em FolhaTexto. Os links também pecam pela falta de padrão – alguns usam o formato www1.folha.uol.com.br/colunas/nomedocolunista/ (sem hífen); outros, o formato www1.folha.uol.com.br/colunas/nome-do-colunista/ (com hífen).

Fotos. Parece ter faltado às fotos a atenção que o jornal deu à tipografia. Muitas imagens são exibidas com baixa resolução ou muitos artefatos de compressão – uma falta de consideração não apenas com o leitor, mas com o trabalho dos fotógrafos. O problema ocorre inclusive em galerias (que obviamente deveriam exibir as fotos da melhor maneira possível) e é mais grave em telas com alta densidade de pixels.

Ainda há muitas fotos com problemas. E aproveito para acrescentar que o widget usado para as galerias é muito ruim – não me lembro se já era assim há um ano, mas é bem possível. A navegação é lenta, com travadas frequentes, principalmente no celular.

Tablets. O layout das páginas no iPad parece ter sido meio negligenciado, principalmente quando o tablet é usado na posição retrato (vertical). Como a tela do tablet é maior que a do celular e menor que a do computador, a solução da Folha foi, aparentemente, misturar características dos layouts destinados a estes dois. O resultado é inconsistente. O problema, pelo que vejo, ocorre basicamente na visualização de elementos que foram desenhados para celular. O logotipo do jornal e os banners de publicidade, por exemplo, aparecem espremidos, com tamanho ideal para celular (bem, no caso dos anúncios, isso pode até ser considerado um ponto positivo para o leitor, mas o layout fica estranho). Algumas chamadas para notícias são esticadas de maneira a ocupar toda a largura da tela, como ocorre no celular – mas, no tablet, elas ficam grandes demais e com fotos horríveis (com resolução muito baixa para o tamanho em que são exibidas).

Aqui, nada mudou. E como o aplicativo do jornal impresso continua um lixo (falo abaixo sobre isso), podemos concluir que a Folha não dá a mínima para o leitor que usa tablets.

Comentários. O nível dos comentários era e continuará a ser baixo, isso não tem jeito. Mas o design pode melhorar. Ao clicar no botão “Todos os comentários”, somos levados a uma página não responsiva, com legibilidade terrível no celular (bem, mesmo no desktop ela nunca foi boa, com linhas muito compridas). Outro problema que ocorre no celular é aquele botãozinho cinza com ícone de balão, abaixo do título da matéria e ao lado do botão de WhatsApp. Ele deveria levar o leitor à seção de comentários. Ao clicar nele, porém, os comentários não aparecem porque estão escondidos sob o “Continue lendo”.

O primeiro problema (página não responsiva) foi resolvido. O segundo (botão dos comentários), não – o “Continue lendo” ainda esconde os comentários.

Busca. O sistema de pesquisa do site apresenta pelo menos dois problemas. O primeiro é a busca de palavras com acento. Ao acessar a home, clicar na lupa e digitar “previdência”, o resultado é este (link). Nessa página de resultados, substituir “previdência” por “previdência” dá certo – o resultado é este (link). O segundo problema é que, ao fazer a busca no celular, a página de resultados é exibida na antiga versão para desktop, não na mobile.

Resolvido.

Antigo site para dispositivos móveis. As páginas de comentários e resultados de busca têm um problema em comum: ambas são exibidas na antiga versão para desktop, mesmo quando acessadas pelo celular. É necessário melhorar a integração entre o site novo (responsivo) e o antigo (com versões separadas para desktop e mobile). Ao navegar pelo site novo e clicar em um link com destino ao site antigo, somos levados à versão desktop da página, mesmo quando o acesso é feito pelo celular. Em outras palavras, o velho site mobile foi jogado para escanteio. Posso dar outros exemplos além dos acima (comentários e busca). Ao acessar a página da edição impressa e selecionar uma data anterior a 1/2/2018, somos sempre levados à versão desktop, nunca à mobile. O mesmo ocorre quando acessamos a página de um colunista e selecionamos um artigo.

Aqui a situação melhorou, mas o problema da página da edição impressa em datas anteriores a 1/2/2018 continua.

Página de opinião. Nela, a maioria das chamadas tem apenas o chapéu “Opinião” e o título do texto. O ideal seria ver também o nome do autor do artigo (talvez no próprio chapéu).

Resolvido.

HTTPS. O acesso ao site ainda não é feito com HTTPS. Demorou, Folha.

Resolvido.

Aplicativo

O aplicativo continua a mesma porcaria. Tudo o que escrevi há um ano continua válido. Texto ruim, imagens ruins. Aliás, faltou mencionar outro problema: a completa falta de links. Na versão antiga do app, a primeira página de cada edição tinha links para as matérias correspondentes. O leitor podia “clicar” na chamada da capa e ir direto à matéria. Esse recurso inexiste no app atual. É outra vantagem do aplicativo do Estadão.

Para piorar, alguns profissionais da Folha que trabalham na área digital consideram resolvido o problema da nitidez. Quando soube disso, fiquei estupefato e desapontado.

Estupefato porque eu não imaginava que o nível de exigência ou de conhecimento técnico na Folha estivesse tão baixo assim – mesmo não esperando muito do jornal nesses aspectos (ou seja, a minha expectativa já era baixa e, ainda assim, fui surpreendido). Desapontado porque concluí que, de fato, não há por que ter esperanças de que o app fique minimamente decente. Ele será um lixo até que a Folha troque de desenvolvedora (ou de profissionais).


  1. Densidade de 94 PPI (pixels por polegada). O MacBook Pro de 13 polegadas tem 227 PPI. O iPhone X tem 463 PPI; o iPhone 8, 326 PPI; o Galaxy S8, 568 PPI. (Fonte: DPI Calculator / PPI Calculator.) 
  2. A fonte Georgia foi desenhada em 1993 por Matthew Carter especialmente para o uso em telas de baixa resolução. 
  3. Robert Bringhurst, em The Elements of Typographic Style, sobre as “dumb quotes” (“aspas falsas”, na edição brasileira): “These are refugees from the typewriter keyboard. […] They have no typographic function.” 

Novo aplicativo da ‘Folha’: não dá para ler

O novo site da Folha, apesar de tantos problemas, é melhor do que a sua versão anterior. O mesmo não se pode dizer do aplicativo da edição impressa.

O jornal trocou de desenvolvedora, e a responsável pelo novo app é uma empresa chamada Maven. Por enquanto, as consequências dessa mudança são desastrosas. Basta ler os comentários no site da Folha e na App Store. É praticamente uma unanimidade – algo que, neste ambiente tão polarizado de hoje, é difícil de conseguir. Parabéns, Folha.

O pior problema chega a ser absurdo de tão ridículo: a baixa definição das páginas do jornal. Como é possível um app dedicado à leitura oferecer uma legibilidade tão baixa?

Para ter uma noção melhor do problema, veja estas capturas feitas com o iPad:

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