O debate sobre a reorganização das escolas em São Paulo

Guilherme Lichand, na Folha:

Quem está certo, afinal? Resposta curta: não sabemos. Esse é o chamado “problema fundamental da inferência”: não observamos o mundo contrafactual em que tudo é igual, exceto a política que queremos avaliar.

A maneira mais segura e controlada de aprender a resposta seria “pilotando” a iniciativa: algumas escolas seriam sorteadas para serem reorganizadas (“grupo de tratamento”), enquanto outras não (“grupo de controle”). Em seguida acompanharíamos ao longo do tempo variáveis como frequência escolar, notas e evasão de todos os alunos, comparando aqueles cujas escolas foram reorganizadas com os demais.

Também monitoraríamos o tempo de deslocamento de casa até a escola, e as despesas da família com transporte.

[Atualização – 15/12] A Economist desta semana tem matéria e editorial sobre estudos randomizados controlados (RCT, randomised controlled trial).

Da matéria:

RCTs are being used more often to assess social policy in America, France and Scandinavia. In Britain there has been a flurry evaluating educational innovations—including one called “Teensleep”, in which the treatment group starts school at 10am (the idea is that they will learn more after a lie-in). Often the results are underwhelming, though no less important for that. A randomised experiment in New York showed that paying all teachers in a school more if their pupils do better in tests does not raise attainment.

But the emerging world remains far ahead. In Britain and America RCTs are mostly used to test minor policy tweaks, not fundamental reforms. In poorer countries, by contrast, they are being used to design welfare systems and measure corruption.

Do editorial:

To live in a modern democracy is to be experimented on by policymakers from cradle to grave. Education is intended to mould an upstanding future citizen; a prison sentence, to reshape someone who has gone astray. But without evidence, those setting policy for schools and prisons are little better than a doctor relying on leeches and bloodletting. Citizens, as much as patients, deserve to know that the treatments they endure do actually work.

Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’

Em sua coluna na Folha, Ruy Castro escreveu o seguinte:

Há pouco, caiu-me às mãos uma edição recente do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Abri-a e gelei. Rosa concebeu seu romance num bloco maciço, de 600 páginas, sem parágrafos, como se a fala do narrador Riobaldo fosse um novelo sem fim, e assim o publicou. As pausas do original estavam na música do texto.

Pois esta edição da Nova Fronteira esquartejou-o em 1.800 parágrafos. A exemplo do que vão fazer com Shakespeare, por que também não o “traduzem” para o português?

Achei estranho ele dizer isso, pois não conheço edição de “Grande Sertão: Veredas” sem parágrafos (ou com apenas um). Entrei em contato com Ruy e com a Nova Fronteira, mas não obtive resposta.

Em um artigo na Granta, Daniel Galera também diz que o livro de Guimarães Rosa não tem parágrafos.

É curioso. Aparentemente, a primeira edição de “Grande Sertão”, da editora José Olympio, já tinha o texto dividido em parágrafos. Eles também aparecem em reproduções de rascunhos do livro datilografados por Rosa, como as exibidas em uma exposição de 2006 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

[Atualização – 22/12] Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’, parte 2

‘Estadão’: Os melhores de 2015 no esporte

Dois comentários sobre a pesquisa do Estadão na qual jornalistas elegem os maiores destaques do ano:

  1. A “seleção brasileira ideal” evidencia como também os jornalistas sobrevalorizam as atuações dos jogadores em clubes brasileiros.

  2. Divulgar os resultados nesse formato de galeria é uma grande sacanagem. Um desserviço e um desrespeito ao leitor.

O problema dos estádios brasileiros

Paulo Vinícius Coelho, na Folha:

Os novos estádios melhoraram a qualidade do Brasileirão, por cuidarem dos gramados e ajudarem a aumentar a média de público. Mas nenhuma arena tem ainda um modelo de gestão sustentável. O Grêmio está comprando a parte da OAS, o Corinthians precisa vender os naming rights para pagar o financiamento, o Mineirão recebe subsídios, o Palmeiras tem o modelo mais justo, mas sofre com a crise da WTorre.

O Maracanã era o maior estádio do mundo. Não é mais. Agora precisa ser o melhor. O estádio mais bonito, da torcida mais festiva, no país do futebol, na cidade maravilhosa. Tudo isso exige um novo modelo. Nem ser do Estado, nem da Odebrecht. Precisa ser do novo futebol brasileiro. Aquele com que, utopicamente, ainda sonhamos.

Algumas diferenças entre Dunga e Tostão

Tostão, na Folha:

Dunga e Gilmar não fazem nada ilegal, aproveitam uma ótima oportunidade profissional, e as pessoas não costumam se preocupar com a vida do patrão quando são contratadas por uma empresa. Porém, no mínimo, deveriam sentir-se constrangidos por exercerem cargos de confiança do presidente da CBF.

Por isso, em 2000, não aceitei o convite para ser diretor-técnico da seleção, quando o presidente era Ricardo Teixeira, e, recentemente, para manter minha independência como colunista, recusei o plano de saúde ofertado pela CBF aos campeões do mundo.

Dunga criticou os que não comparecem, quando convidados, aos eventos realizados pela CBF, pois, segundo ele, são oportunidades para ajudar o futebol brasileiro. Não aceitei ir a encontros entre campeões do mundo, comentaristas e a comissão técnica porque quero manter distância da CBF e porque não acredito em reuniões esporádicas, em que todos se abraçam, se elogiam e cada um diz uma frase, geralmente um lugar-comum. É muito blá-blá-blá e pouca ação.

Quando a amizade prejudica o jornalismo

Parece que Reinaldo Azevedo, jornalista que gosta de palpitar sobre tudo e todos, não escreveu nem uma linha sobre a brincadeira machista de José Serra em Kátia Abreu em jantar de fim de ano na casa de Eunício Oliveira, líder do PMDB.

O ocorrido mereceu chamada de capa na Folha e no Globo. Mas não apareceu no blog de Reinaldo, amigo de Serra. Imaginem se fosse Lula o autor de tal brincadeira. Comportamento exemplar para alguém que adora criticar o jornalismo alheio.

Reinaldo poderia aprender um pouco, quem sabe, com seu Frias. Em seu Diários da Presidência, Fernando Henrique Cardoso relata um encontro que teve com o todo-poderoso da Folha em 11 de maio de 1995:

O curioso é que ontem o Frias pai [Octavio Frias de Oliveira] e os dois filhos vieram jantar aqui em casa. Conversa difícil, Frias está muito surdo, o Otavinho [Otavio Frias Filho] fica encabulado diante dele, da Ruth e de mim, o outro irmão [Luiz Frias], um pouco mais saído. O velho todo o tempo protestando um grande entusiasmo por mim, que fui o presidente dos seus sonhos, que agora é realidade, que ele está numa torcida danada, que o Brasil depende do meu êxito, enfim… Mencionei a reportagem do jornal, eles fingiram que não era nada, aquela conversa estranha da Folha. Pessoalmente o Frias é sempre muito gentil e muito entusiasmado, na prática, a Folha sempre fazendo as suas jogadas.

FHC achava que a Folha agira “de forma maldosa” na reportagem mencionada.

O importante aqui é que a Folha não pegou leve com FHC, o presidente dos sonhos de Frias.

Diferentemente do que faz Reinaldo com Serra, o presidente dos seus sonhos.

Exagero nas prisões da Lava Jato

Diz a última edição da Economist, em texto intitulado “Weird justice”, com a linha fina “The courts treat suspects too harshly, and convicts too leniently”:

Pre-trial detention should not be used to browbeat them into co-operating with investigations or to signal the gravity of the charges they face. The Lava Jato inquisitors deny they are doing this, but readers of Blackstone’s report will wonder. Timothy Otty, its lead author, has written human-rights opinions on behalf of Abdullah Ocalan, a Kurdish separatist leader, and detainees at the American prison in Guantánamo Bay. “Just as it was wrong to jettison the protection of liberty and right to fair trial as part of the war on terror, so it would be wrong in the fight against corruption,” says Mr Otty.

Blackstone é um escritório de advocacia em Londres contratado pela defesa do empresário Marcelo Odebrecht.

A revista ainda diz que os condenados, por outro lado, podem ficar em casa enquanto recorrem das sentenças impostas e cita o caso do jornalista Antonio Pimenta Neves, ex-diretor de redação do Estado de S. Paulo, que ficou anos em liberdade antes de ser preso, em 2011, pelo assassinato da ex-namorada Sandra Gomide, que ocorreu em 2000.

Não achei tradução desse texto no site do Estadão, que tem os direitos de publicação de conteúdo da Economist em português. Talvez o jornal discorde da revista.

A Folha, por outro lado, publicou dias antes um editorial com tom semelhante:

Há sinais muito claros, contudo, de que está em curso o fenômeno da hipercorreção no sistema judicial. Procurando sanar uma evidente distorção, responsáveis pelas investigações e sobretudo magistrados têm incorrido em outro erro de grandes proporções.

Muitos dos investigados têm sido mantidos atrás das grades sem que exista nada parecido com um julgamento definitivo. A opção pelo encarceramento provisório, no entanto, só deve ser evocada quando a aplicação de medidas alternativas –suspensão da função e tornozeleira eletrônica, por exemplo– se mostrar incabível. […]

No caso específico da Lava Jato, alegações vagas sobre a possibilidade de que os réus insistam na prática dos crimes ou interfiram nas investigações têm bastado para privá-los da liberdade. […]

Tais exageros não podem continuar.

As pedaladas de Michel Temer

Andreza Matais e João Villaverde, no Estadão:

O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), assinou no exercício da Presidência, entre novembro de 2014 e julho de 2015, sete decretos que abriram crédito suplementar de R$ 10,807 bilhões mesmo num cenário de crise econômica e queda na arrecadação. A prática é a mesma adotada pela presidente Dilma Rousseff e que consta, agora, como um dos principais motivos para o pedido de impeachment aberto contra a petista na Câmara.

Jânio de Freitas, na Folha:

A responsabilidade é em tudo idêntica: também Michel Temer liberou verbas pela modalidade das ditas “pedaladas fiscais”, que os advogados Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaina Paschoal invocaram para a proposta de impeachment de Dilma –e, sem o saber, puseram o vice-presidente sob a mesma ameaça que quiseram criar para a presidente. Logo, se as tais “pedaladas” forem motivo para destituir Dilma, o mesmo destino estará aberto a Temer. E o presidente da Câmara será o seguinte, na hierarquia constitucional das sucessões, a receber a Presidência da República. […]

Vê-se que Temer, o decorativo, não o é na medida em que diz.

Renúncia defensável

Em agosto, eu disse:

Pensando no país (e não em partidos), parece difícil defender, com bons argumentos, a saída da presidente antes de 2018.

A situação é tão difícil que, hoje, a renúncia pode ser de fato defensável.

O impeachment é mais complicado.

Dados publicados na ‘Folha’ confundem o leitor (e o próprio jornalista)

Em artigo na Folha de S.Paulo, o jornalista Fernando Canzian apresenta dados de maneira aparentemente clara, mas que na verdade só servem para confundir o leitor.

O cientista político Sérgio Praça explica:

Na Folha de hoje, o jornalista Fernando Canzian confunde funções gratificadas (como coordenar uma pós em uma universidade federal — prerrogativa exclusiva de professor concursado) com cargos de confiança (para os quais qualquer cidadão pode ser contratado.) As contas de Canzian estão, portanto, completamente erradas.

Além disso, não há “caixa-preta” com relação a cargos de confiança na esfera federal. Há inabilidade para abrir o site do Ministério do Planejamento e fuçar o Boletim Estatístico de Pessoal e/ou o Portal da Transparência do Governo Federal.