A paternidade faz você feliz?

Daniel Gilbert

Sonora Smart Dodd ouvia um sermão sobre abnegação quando decidiu que seu pai, viúvo que criara seis filhos, merecia o seu próprio feriado nacional. Quase um século depois, pessoas de todo o mundo passam o terceiro domingo de junho homenageando seus pais com oferendas rituais como loção pós-barba e gravatas, o que leva milhões de pais a ter exatamente o mesmo pensamento ao mesmo tempo: “Meus filhos”, eles pensam em uníssono, “fazem-me feliz”.

Poderiam todos esses pais estar errados?

Estudos revelam que a maioria dos casais começam felizes e se tornam progressivamente menos satisfeitos no decurso de suas vidas. Ficam desconsolados especialmente quando seus filhos usam fraldas e durante a adolescência – e voltam aos níveis iniciais de felicidade apenas depois de os filhos terem a decência de crescer e ir embora. Quando a imprensa popular inventou uma doença chamada “síndrome do ninho vazio”, ela se esqueceu de mencionar que seu principal sintoma é um notável aumento de sorrisos.

Psicólogos mediram como as pessoas se sentem durante as suas atividades diárias e descobriram que elas são menos felizes quando interagem com seus filhos do que quando comem, exercitam-se, fazem compras ou assistem à televisão. De fato, uma atividade que faz parte da criação dos filhos deixa a maioria das pessoas mais ou menos tão feliz quanto uma atividade que faz parte do trabalho doméstico. Economistas modelaram o impacto de diversas variáveis na felicidade geral das pessoas e consistentemente constataram que os filhos têm apenas um pequeno impacto. Um pequeno impacto negativo.

Essas descobertas são difíceis de engolir porque elas vão contra as nossas intuições mais fortes. Nós amamos os nossos filhos! Falamos sobre eles para qualquer um que escute, mostramos as suas fotos para qualquer um que veja e escondemos as nossas geladeiras por trás de grandes colagens com seus desenhos, anotações, fotos e boletins. Estamos convencidos de que somos felizes com os nossos filhos, sobre os nossos filhos, para os nossos filhos e por causa dos nossos filhos – então por que a nossa experiência pessoal está em desacordo com os dados científicos?

Três razões.

Primeiro, quando alguma coisa nos deixa felizes, dispomo-nos a pagar bastante por ela, e é por isso que o pior chocolate belga é mais caro do que o melhor tofu belga. Mas esse processo pode funcionar ao contrário: quando pagamos muito por alguma coisa, admitimos que ela nos deixa felizes, e é por isso que juramos as maravilhas da água engarrafada e das meias Armani. A compulsão de cuidar dos nossos filhos foi há muito tempo escrita em nosso DNA, então trabalhamos e suamos, perdemos o sono e os cabelos, atuamos como enfermeira, empregada, motorista e cozinheira, e fazemos tudo isso porque a natureza simplesmente não funciona de outra maneira. Dado o alto preço que pagamos, não é de surpreender que racionalizemos esses custos e concluamos que os nossos filhos devem estar nos recompensando com felicidade.

Segundo, se um jogo entre o Red Sox e os Yankees ficar empatado em zero a zero até Manny Ramirez acertar um grand slam na baixa da nona entrada (inning), você pode ter certeza de que os torcedores de Boston vão se lembrar dele como a melhor partida da temporada. As memórias são dominadas pelos exemplos mais poderosos – e não pelos mais típicos. Assim como um glorioso home run que garante a vitória pode apagar da nossa memória 812 tediosas entradas, o momento sublime em que a nossa filha de três anos ergue os olhos da bagunça que está fazendo com o purê de batatas e diz “eu di amu, papai” pode apagar oito horas de não, ainda não, agora não e pare de perguntar. Filhos podem não nos deixar felizes com muita frequência, mas, quando o fazem, essa felicidade é transcendente e amnésica.

Terceiro, embora a maioria de nós pense na heroína como uma fonte de miséria humana, injetá-la na verdade não faz as pessoas se sentirem infelizes. Faz elas se sentirem muito, muito bem – tão bem, de fato, que ela sobrepuja todas as outras fontes de prazer. Família, amigos, trabalho, diversão, comida, sexo – nenhuma delas pode competir com a experiência narcótica; portanto todas são deixadas de lado. A analogia com os filhos é muito clara. Mesmo que a companhia deles fosse um prazer incessante, o fato de exigirem tanta companhia significa que outras fontes de prazer quase desaparecerão. Filmes, teatro, festas, viagens – esses são apenas alguns dos substantivos que os pais de filhos pequenos rapidamente esquecem como se pronuncia. Acreditamos que nossos filhos são a nossa maior alegria, e estamos absolutamente certos. Quando você tem uma única alegria, ela está fadada a ser a maior.

Nossos filhos nos dão muitas coisas, mas um aumento da nossa média de felicidade diária provavelmente não está entre elas. Em vez de negar esse fato, devemos celebrá-lo. Nossa capacidade de amar além de todos os limites aqueles que testam a nossa paciência e cansam os nossos ossos é, ao mesmo tempo, a nossa qualidade mais nobre e mais humana. O fato de os nossos filhos nem sempre nos fazerem felizes – e de sermos felizes em tê-los mesmo assim – é o fato pelo qual Sonora era tão grata. Ela pensou que todos nós faríamos bem em lembrar disso, em todo terceiro domingo de junho.

Daniel Gilbert, psicólogo da Universidade Harvard, é autor de “Stumbling on Happiness” (tropeçando em felicidade).


Daniel Gilbert é uma dessas grandes celebridades acadêmicas com milhões de leitores e espectadores. Professor de psicologia em Harvard, já lançou best-seller, publicou artigos na imprensa, apresentou programa de TV e fez palestra em conferência da TED.

Em 2006, por ocasião do Dia dos Pais (comemorado em junho nos EUA e em outros países), escreveu para a Time o artigo “Does Fatherhood Make You Happy?”, um dos meus textos favoritos sobre paternidade.