Em coluna publicada na Folha de S.Paulo, Celso Rocha de Barros disse que um editorial da Economist criticando a suspensão do X no Brasil “tem o mérito de ser uma oportunidade de ouro para uma errata de página inteira”. Mas não apontou um único erro cometido pela publicação. E não entendeu o alerta que o Brasil está dando às democracias mais ricas.
O colunista disse que a revista “não informou seus leitores que a origem do conflito está na recusa de Elon Musk em suspender contas que divulgaram desinformação”. Essa informação, porém, aparece em uma reportagem na mesma edição da revista. A primeira frase do editorial que ele criticou contém um link para a reportagem, que ainda é mencionada no quarto parágrafo.
Barros afirmou também que a Economist “não vai perder tempo aprendendo sobre as democracias do sul global”, insinuando que a publicação desconhece o que ocorre nesses países, embora tenha uma rica cobertura sobre eles. Ele próprio já citou, em tom de aprovação, textos da Economist sobre o Brasil – com críticas a Jair Bolsonaro e ao impeachment de Dilma Rousseff.
A atitude de Barros lembra a de um leitor hiperpartidário, que gosta apenas de textos com os quais ele concorda – geralmente, reforçando as suas crenças, defendendo as ideias e pessoas com as quais ele se identifica e atacando os seus adversários.
Esse leitor não se importa muito com a qualidade do texto, apenas com a sua conclusão. Argumentos, fatos, lógica, retórica e honestidade intelectual ficam em segundo plano. Se ele discorda da conclusão, automaticamente não gosta do texto.
Encontramos leitores hiperpartidários entre aqueles que elogiavam a Folha por sua cobertura do governo de Jair Bolsonaro e agora reclamam porque ela publica reportagens críticas ao governo Lula. Entre aqueles que elogiavam Glenn Greenwald quando ele revelou mensagens comprometedoras de integrantes da Lava Jato e agora reclamam porque ele critica Alexandre de Moraes. Entre os que insultavam Reinaldo Azevedo quando ele atacava duramente o PT e agora o elogiam porque ele defende o partido.
Barros não é hiperpartidário – discorda de muitos petistas e continua a elogiar Greenwald, por exemplo. No entanto, tem agido como tal em relação às decisões de Moraes.
O colunista disse que a Economist “não está mais ouvindo o alerta que estamos dando às democracias mais ricas”. Seu texto não deixou muito claro que alerta seria esse, mas deu a entender que seria sobre “o problema da incitação ao crime e ao extremismo” nas redes sociais. A revista, contudo, já cobriu diversas vezes esse tema, inclusive citando Jair Bolsonaro e seus apoiadores.
A Economist tem ciência dos problemas apontados por Barros, mas acredita que não justifiquem o bloqueio do X – uma decisão desproporcional, que ela considera ser resultado das leis “intervencionistas” do Brasil sobre a liberdade de expressão e de um ministro que “gosta e entende de poder”.
A Economist não está sozinha. Também criticaram as decisões de Moraes, por exemplo, o publisher do New York Times, A.G. Sulzberger, e o Washington Post, que disse que o episódio está se tornando um aviso para as democracias que acreditam que a resposta para discursos problemáticos seja suprimi-los.
As publicações das democracias ricas mostram que estão, sim, ouvindo um alerta do Brasil: o de como uma Justiça autoritária pode ser prejudicial à liberdade de expressão e à democracia.