Tyler Cowen has changed his mind about Brexit

In Bloomberg:

I no longer think Brexit is a bad idea. I’m not ready to endorse it, because I don’t feel comfortable with the nationalism and populism surrounding so much of the Leave movement, but I no longer wish the referendum had gone the other way.

[…] The problem is that, especially in the last year, the EU has become a less workable political union, especially for the U.K.

Covid-19 has helped to clarify my thinking. […] When rapid, emergency responses become more salient, the case for staying in the EU weakens.

[…]

I still don’t view Brexit as a great decision, but neither do I see it as a terrible one.

Juliano Spyer sobre os evangélicos

No ano passado, Juliano Spyer lançou Povo de Deus, livro sobre os evangélicos no Brasil. A divulgação contou com diversas entrevistas, e a minha favorita foi a da DW Brasil.

E nessa igreja você dá voz à sua religiosidade profunda, é ouvido como pessoa, não como número ou funcionário, põe para fora suas inquietações, frustrações e dores. Além disso, há uma rede de ajuda mútua: quando o marido fica desempregado e se arruma emprego, o filho se envolve com drogas e encontra um lugar para ser tratado, o marido que batia na mulher encontra caminhos para negociar uma harmonia em casa. É um estado de bem-estar social informal.

Esse cristianismo tem consequência direta na estabilização da vida de pessoas em situação de vulnerabilidade.

[…]

[As classes média-alta e alta t]êm uma visão estereotipada, pouco esclarecida e muito arrogante. Veem ou como o evangélico do mal, o sujeito manipulador da fé que ganha dinheiro e se usa da ingenuidade popular, ou como o evangélico do bem, o coitadinho que precisou se apegar a isso. Mesmo quando se tem uma visão benigna, é prepotente.

[…]

No Brasil, de um lado você tem um governo que demonstra respeito pelos valores dessa população [evangélica]. E do outro lado tinha o outro candidato, Fernando Haddad. Não sou antipetista e não falo isso como crítica pessoal, mas ele cometeu um erro ao chamar o bispo Edir Macedo de charlatão. Havia mulheres da Igreja Universal batalhando dentro dos seus espaços de culto para defender um candidato que era alternativa ao Bolsonaro que, com essa declaração, perderam essa possibilidade, pelo argumento de “como votar em alguém que nos desrespeita”.

Spyer acha que a do Estadão foi melhor.

A conversão também é um ato inteligente, e não apenas de fé, que traz benefícios à vida do brasileiro mais pobre. No final dos 18 meses, descobri que várias das pessoas da igreja evangélica com quem me relacionava tinham participado de organizações criminosas e sido presas. E eram ótimos pais, esforçados, generosos. É a principal maneira para reinserir na sociedade pessoas que estiveram envolvidas com violência, com drogas. O cristianismo evangélico produz esse tipo de mudança. O sujeito para de beber, para de bater na mulher, estimula o filho a ir para a escola, cria relações familiares de parceria, de cooperação. A igreja estimula essa transformação, você não vai mudar de vida quando morrer, você pode mudar de vida agora. Pode parecer simplório, mas oferece um senso de auto-estima, cria um contexto para grandes transformações. E a igreja te oferece apoio e uma rede de afetos para fazer isso – porque, muitas vezes, as pessoas se afastam dos antigos amigos e até da família.

[…]

A bancada evangélica não é a bancada dos evangélicos. O exemplo mais conhecido é o de Marina da Silva (que, embora seja evangélica não se alinhava à bancada evangélica quando foi parlamentar). Existem mais nuances do que a gente geralmente conhece, mesmo dentro da própria bancada. Uma estrutura ganha poder que se desdobra em muitos ângulos, que passa a se reproduzir e tomar conta do espaço público. Mas passa a se pautar pelos líderes das igrejas, não por seus eleitores. Esse é o fenômeno triste e que merece atenção: até que ponto atuam em benefício das pessoas que votaram neles? A bancada acaba se aproximando de outros grupos conservadores da elite do Brasil, como a bancada da bala, a bancada do boi, os interesses da igreja, da moral e se distanciando imensamente das pautas que favorecem o grupo que os elegeu, que são os pobres, como o combate à corrupção. A gente precisa refinar o nosso entendimento para separar esse termo tão amplo, evangélico, que se aplica a tudo e se transformou quase em um xingamento, para olhar para o projeto de poder de determinadas igrejas. É um grupo que é diferente da gente em termos de visão de mundo e valores. Mas essas coisas estando separadas, vamos conseguir lidar com ele de forma interessante. A mídia tem parte nisso; a maioria das notícias critica ou demoniza os evangélicos. Invasão e destruição de terreiro é crime, lógico, mas não dá para culpar um grupo tão extenso, múltiplo e variável. Essa mistura de preconceito com discordância acaba fortalecendo os grupos mais conservadores.

[…]

Em termos de convívio e troca conhecemos muito pouco desse outro Brasil, onde prospera o cristianismo evangélico. E esse grande Brasil, que não é a USP, a Unicamp, a Vila Madalena, o Leblon, precisa ser abraçado.

No mês passado, Spyer publicou um texto com alguns dos argumentos apresentados no livro.

Além de não se interessarem pelo tema, intelectuais, formadores de opinião, jornalistas e pessoas com maior escolaridade em geral expressam desprezo pelos evangélicos em conversas privadas. […] Ao evocar uma imagem caricata e ingênua de “evangélicos”, sugere-se que o problema a ser combatido seja a religião e não o posicionamento de certas lideranças religiosas. E eventualmente os críticos cometem o mesmo tipo de incitação ao preconceito que eles acusam evangélicos de cometer.

[…]

As possibilidades abertas aos convertidos de levarem vidas mais seguras e disciplinadas torna o evangélico um funcionário desejado. Observei isso junto acontecer nos maiores negócios da área onde morei, na costa ao norte de Salvador, conhecida como “Costa dos Coqueiros”. […] Para incentivar a permanência no emprego de funcionários evangélicos, alguns dos principais hotéis abriam salas para a realização de cultos aos funcionários evangélicos que trabalham no período noturno ou nos finais de semana.

[…]

Entre várias as consequências positivas da adoção do cristianismo evangélico nos bairros pobres brasileiros — que apresento em detalhes no livro — estão a redução da violência doméstica, o fortalecimento da disciplina no trabalho, o investimento na própria família, o fortalecimento da posição da mulher na família e no mundo do trabalho, o aumento da alfabetização de adultos e valorização da educação, e ajuda para a recuperação de presos e dependentes químicos.

(Todos os grifos são meus.)

Nos trechos acima, Spyer cita o preconceito aos evangélicos nas classes média-alta e alta e entre “intelectuais, formadores de opinião, jornalistas e pessoas com maior escolaridade”. Tenho a impressão de que ele é comum mesmo fora desses grupos.

Pesquisadores querem ensinar ciência, mas não reconhecem os próprios erros

Artigo publicado na ‘Folha de S.Paulo’ contém falhas primárias

No mês passado, o site da Folha de S.Paulo publicou o artigo “Ciência séria não escolhe evidência”, que, entre outras coisas, tenta explicar como se faz ciência. Seus autores, Guilherme Lichand e Márcio Sommer Bittencourt, cometeram pelo menos três erros primários – e admitiram apenas um:

  1. Disseram que um artigo da Scientific Reports foi publicado na “reconhecida revista Nature” (erro não admitido)
  2. Usaram o mesmo artigo, que incluiu estudos com pacientes hospitalizados, como argumento contra o tratamento precoce (erro não admitido)
  3. Disseram que o famoso artigo fraudulento da Lancet “sugeria que cloroquina tinha efeitos positivos” (erro admitido e corrigido)

Aos detalhes.

O texto na Folha cita uma meta-análise “publicada na reconhecida revista Nature”. O artigo, na verdade, saiu na Scientific Reports, um periódico com fator de impacto bem menor que o da Nature e um grande histórico de controvérsias.

Comuniquei o erro ao jornal, que entrou em contato com os autores. A resposta: não foi erro, e o pedido de correção seria “preciosismo” de minha parte, pois a Scientific Reports “é uma publicação da Nature, sob o mesmo guarda-chuva editorial”.

Qualquer cientista sério sabe que existe uma grande diferença entre “publicação da Nature” e “reconhecida revista Nature”. A Nature tem dezenas de periódicos. Pela curiosa interpretação de Lichand e Bittencourt, quem publica um artigo na Acta Pharmacologica Sinica ou na Scientific American pode orgulhosamente incluir a “reconhecida revista Nature” em seu currículo. E que ninguém tente corrigi-lo! Seria “preciosismo”.

Ora, nem mesmo os pesquisadores responsáveis pela citada meta-análise concordariam com a bondosa forçada de barra no texto da Folha. Imaginem se saíssem por aí dizendo que emplacaram um trabalho na “reconhecida revista Nature”. Seriam ridicularizados.

O segundo erro foi usar a meta-análise da Scientific Reports, que incluiu estudos em pacientes hospitalizados, como argumento contra o tratamento precoce. São situações distintas. “É o beabá do assunto”, disse Flavio Abdenur em uma surreal conversa com Lichand no Twitter.

Em “A imprensa e a hidroxicloroquina”, escrevi:

Frequentemente vemos resultados de ensaios com pacientes hospitalizados usados como argumentos contra um possível benefício da droga no tratamento precoce. É uma retórica enganosa, e a imprensa, ao misturar tudo e não fazer a devida distinção dos casos, confunde o debate. Muitas vezes o tratamento precoce é mencionado apenas en passant, como se a discriminação entre ele e o tratamento de pacientes hospitalizados fosse pouco importante.

Mas ela é importante. Primeiro, é comum uma droga apresentar diferentes efeitos dependendo da fase do tratamento. Segundo, a parte mais interessante do debate, em que residem as maiores incertezas, é justamente a que envolve a prevenção e o tratamento precoce.

Só para ser claro, não quero defender aqui a atuação do Ministério da Saúde (que apoia o tratamento precoce), apenas apontar a falha na argumentação do texto publicado na Folha.

Para finalizar, provavelmente o erro mais gritante: os autores disseram que o famoso estudo fraudulento publicado na Lancet, com resultados negativos ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina, “sugeria que cloroquina tinha efeitos positivos”.

Daniel Victor Tausk fez um ótimo comentário a respeito (cópia no Substack):

Eles estão tão por fora do assunto que sabem menos que um leigo que acompanha razoavelmente bem as notícias. É como se dois historiadores fossem escrever um artigo no jornal num tom “vão estudar história seus ignorantes” e afirmassem no artigo que Getúlio Vargas derrubou Dom Pedro I, dando início à Guerra dos Cem Anos. Passar só um pouco de vergonha é para os fracos.

Comuniquei o erro à Folha, que corrigiu o texto.

[A]ceitamos a evidência e corrigimos o que exige correção”, disse Lichand. “Diferente de quem tem certezas, reconhecemos e corrigimos erros”, disse Bittencourt.

Infelizmente, é difícil levar essas frases a sério. Antes, ao serem questionados sobre o erro, Lichand desconversou e disse que “a redação saiu dúbia”, e Bittencourt simplesmente ficou quieto. Eles só admitiram o erro porque foram forçados a isso, após o contato da Folha. E, se de fato tivessem compromisso com a verdade, reconheceriam também o erro da “reconhecida revista Nature”. Mas não o fizeram.

Os erros são lamentáveis, e a resistência em admiti-los e corrigi-los é ainda pior. Uma postura um tanto anticientífica de pesquisadores que se propõem a explicar a ciência. (Não estão sozinhos nisso, claro.)

Uncertainty and nuance in the COVID-19 era

Raj Bhopal and Alasdair P S Munro, in The BMJ:

Increasing use of traditional and social media by academics has brought many benefits. However, these platforms foster extreme viewpoints by design. Some, such as Twitter, value brevity over nuance, leaving no room for important qualification or uncertainty. Emotional rewards focusing on numbers of followers, likes, or onward transmissions (such as re-tweets), are best achieved by strong opinions, repeated often. Measured, nuanced, unemotional views do not go “viral.” Furthermore, the system creates groups of like minded individuals that listen only to each other.

[…] The need for influence is another contributing factor. Many academics seek influence because it is judged favourably in research excellence and impact evaluations. Some have huge followings on social media, which can help achieve rapid public involvement in research—an important aim.

However, an insatiable appetite for rapid dissemination of evidence has undermined traditional publication in peer reviewed journals. This circumvents the normal checks and balances that ensure appropriate styles of communication. Information about important developments is often made available only in brief press releases and then disseminated without adequate scrutiny through social media channels. Despite a need for speed, the covid-19 pandemic is extremely complex. Collegiate, thoughtful, and mutually respectful dialogue that fully acknowledges uncertainty is essential.

That is why the most reliable sources of information usually do not have huge followings. People don’t like nuance. Social media doesn’t like nuance.

The authors have an interesting suggestion:

Science communication, including appropriate use of social media, should be part of postgraduate training. Learning from the humanities may also help to foster a more holistic perspective on the role of science in public life and policy.

The article is a good complement to another editorial published in The BMJ: “Covid-19’s known unknowns“, by George Davey Smith, Michael Blastland, and Marcus Munafò. From the subtitle – “The more certain someone is about covid-19, the less you should trust them” – to the last paragraph, it is a great read.

In the “science” of covid-19, certainties seem to be everywhere. Commentators on every side—academic, practitioner, old media or new—apparently know exactly what’s going on and exactly what to do about it.

[…]

[W]e are thinking of the many rational people with scientific credentials making assertive public pronouncements on covid-19 who seem to suggest there can be no legitimate grounds for disagreeing with them. If you do, they might imply, it’s probably because you’re funded by dark forces or vested interests, you’re not evidence based, you’re morally blind to the harm you would do, you’re ideologically driven (but I’m objective), you think money matters more than lives, your ideas are a dangerous fantasy . . . . On they go, duelling certitudes in full view of a public desperate for simple answers and clarity—even when, unfortunately, these may not exist.

[…]

Views polarise alongside the increasing certainty with which they are expressed, as if we are in a trench war where giving an inch risks losing a mile

[…]

Acknowledging uncertainty a little more might improve not only the atmosphere of the debate and the science, but also public trust. If we publicly bet the reputational ranch on one answer, how open minded can we be when the evidence changes?

[…]

Similarly, to allege that anyone who speaks of uncertainty is a “merchant of doubt” or exposes science to attack from these quarters, is to concede vital scientific ground by implying that only certainty will do. Generally, and particularly in the context of covid-19, certitude is the obverse of knowledge.

[…]

When deciding whom to listen to in the covid-19 era, we should respect those who respect uncertainty, and listen in particular to those who acknowledge conflicting evidence on even their most strongly held views. Commentators who are utterly consistent, and see whatever new data or situation emerge through the lens of their pre-existing views—be it “Let it rip” or “Zero covid now”—would fail this test.

It was published in October, and it still holds true. I don’t think there have been any improvements in this regard. Actually, things have probably gotten worse.

The WHO guideline on drugs to prevent COVID-19 is flawed

This is from James Watson (the researcher behind that open letter about the fraudulent hydroxychloroquine paper in The Lancet):

This recommendation is basically saying that HCQ has either no effect or a negligible effect -> should not be used

This would suggest that the uncertainty around the primary outcomes of interest are very well characterised. Have they been for HCQ (or any drug) in prevention of COVID-19?

The top outcome for the guidelines panel is mortality (separate debate whether this is right choice)

Only 1/6 trials had deaths (Mitja et al): 5 deaths in HCQ arm (n=1116) and 8 deaths in control (n=1198). This gives the highly noisy estimated OR of 0.67 with a CI of 0.2-2

At the lower end this would be a fantastically good drug – at the upper end this would be a killer drug!

So how the heck does this endpoint get decided as “High quality evidence” that HCQ confers “No important difference in mortality”? That’s bonkers – this is orders of magnitude underpowered to say anything of interest.

Compare this to the same WHO guideline on dexamethasone:

The RECOVERY trial had 930 deaths out of 3883. The odds ratio for death was 0.82 (0.72-0.94). This was graded as “Moderate evidence with serious risk of bias”.

???

[…]

I’m definitely not a HCQ true believer – but we really need these guidelines to make some sense

The guideline was published in The BMJ.