Mapa racial do Brasil

A Pata, uma agência que trabalha com visualização de dados, fez um mapa interativo de distribuição racial no Brasil.

O que você está vendo é um mapa interativo de distribuição racial no Brasil. Através dele é possível observar a distribuição geográfica, densidade demográfica, e diversidade racial do povo brasileiro. Cada um dos pontos no mapa representa uma pessoa. O local e cor dos pontos são baseados nos dados do Censo IBGE de 2010 disponível online; cada cor no mapa representa uma das opções de raça possível no referido censo. […]

O mapa foi criado por nós da Pata, a inspiração e a base do código utilizado para gerar o mapa vieram de Dustin Cable, um ex-pesquisador do Cooper Center for Public Service da University of Virginia, e autor de um mapa racial dos Estados Unidos. Ele, por sua vez, foi inspirado por Brandon Martin-Anderson do MIT Media Lab, e Eric Fischer, mapmaker/programador.

Mais informações aqui.

O mapa racial dos EUA pode ser visto nesta página.


Marcelo Figueiredo comenta em tempo real julgamento do STF sobre impeachment

O UOL tem feito uma boa cobertura do julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o rito do processo de impeachment de Dilma Rousseff. O destaque é a participação do advogado constitucionalista Marcelo Figueiredo.

Na maioria dos outros portais de notícia, falta um especialista no assunto para explicar e contextualizar o que ocorre no STF. Nos blogs de jornalistas, falta conhecimento e sobra opinião.


Fantasmas do racismo

Lilia Moritz Schwarcz, no Nexo:

Em 2009, o Brasil registrou mais de 191 milhões de habitantes, um aumento de 26% se comparado à população em 1995. Dentre as novidades do censo, uma delas chamava particular atenção: o aumento proporcional da população negra (preta e parda) no país. Em 1995, 44,9% dos brasileiros declaravam-se negros; em 2009 este percentual subiu para 51,1%, enquanto a população de brancos caiu de 54,5% para 48,2%.

Esta elevação não decorre, porém, do aumento da taxa de fecundidade da população negra, mas antes de mudanças comportamentais e na forma como essas pessoas têm se autodeclarado. Ou seja, desde que no final dos anos 1970 assistimos à emergência de uma agenda de direitos civis – pautada no direito à diferença na igualdade – brasileiros têm mudado seus critérios de autodefinição.

Se tal fato permite prever uma maior flexibilidade nos padrões de classificação, já outros resultados sinalizam para uma persistente e incômoda exclusão racial.

Os fantasmas:

De um lado, essa mescla gerou uma sociedade definida por uniões, ritmos, artes, esportes, aromas, culinárias e literaturas realmente misturados. De outro, produziu um país que delega para a polícia o papel de performar a discriminação, como nos atos de intimidação – as famosas batidas policiais –, os quais selecionam sempre mais negros do que brancos.

Continuamos combinando inclusão cultural com exclusão social – mistura com separação – e carregando grandes doses de silêncios e não ditos. Por isso mesmo, não basta culpar o passado e fazer as pazes com o presente; o qual, aliás, anda repleto de passado. Toni Morrison, no romance Amada, conta a história da Casa 124 que era habitada por duas mulheres e seus fantasmas vindos do passado: violências, estupros e mortes dos dias de escravidão.

Paradoxalmente, os fantasmas, que insistiam em retornar, eram o que mais se pareciam com a danada da realidade. Nós brasileiros andamos mesmo perseguidos pelo nosso passado, e nos dedicando, ainda, à tarefa de expulsar fantasmas que, teimosos, continuam a assombrar.


O debate sobre a reorganização das escolas em São Paulo

Guilherme Lichand, na Folha:

Quem está certo, afinal? Resposta curta: não sabemos. Esse é o chamado “problema fundamental da inferência”: não observamos o mundo contrafactual em que tudo é igual, exceto a política que queremos avaliar.

A maneira mais segura e controlada de aprender a resposta seria “pilotando” a iniciativa: algumas escolas seriam sorteadas para serem reorganizadas (“grupo de tratamento”), enquanto outras não (“grupo de controle”). Em seguida acompanharíamos ao longo do tempo variáveis como frequência escolar, notas e evasão de todos os alunos, comparando aqueles cujas escolas foram reorganizadas com os demais.

Também monitoraríamos o tempo de deslocamento de casa até a escola, e as despesas da família com transporte.

[Atualização – 15/12] A Economist desta semana tem matéria e editorial sobre estudos randomizados controlados (RCT, randomised controlled trial).

Da matéria:

RCTs are being used more often to assess social policy in America, France and Scandinavia. In Britain there has been a flurry evaluating educational innovations—including one called “Teensleep”, in which the treatment group starts school at 10am (the idea is that they will learn more after a lie-in). Often the results are underwhelming, though no less important for that. A randomised experiment in New York showed that paying all teachers in a school more if their pupils do better in tests does not raise attainment.

But the emerging world remains far ahead. In Britain and America RCTs are mostly used to test minor policy tweaks, not fundamental reforms. In poorer countries, by contrast, they are being used to design welfare systems and measure corruption.

Do editorial:

To live in a modern democracy is to be experimented on by policymakers from cradle to grave. Education is intended to mould an upstanding future citizen; a prison sentence, to reshape someone who has gone astray. But without evidence, those setting policy for schools and prisons are little better than a doctor relying on leeches and bloodletting. Citizens, as much as patients, deserve to know that the treatments they endure do actually work.


Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’

Em sua coluna na Folha, Ruy Castro escreveu o seguinte:

Há pouco, caiu-me às mãos uma edição recente do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Abri-a e gelei. Rosa concebeu seu romance num bloco maciço, de 600 páginas, sem parágrafos, como se a fala do narrador Riobaldo fosse um novelo sem fim, e assim o publicou. As pausas do original estavam na música do texto.

Pois esta edição da Nova Fronteira esquartejou-o em 1.800 parágrafos. A exemplo do que vão fazer com Shakespeare, por que também não o “traduzem” para o português?

Achei estranho ele dizer isso, pois não conheço edição de “Grande Sertão: Veredas” sem parágrafos (ou com apenas um). Entrei em contato com Ruy e com a Nova Fronteira, mas não obtive resposta.

Em um artigo na Granta, Daniel Galera também diz que o livro de Guimarães Rosa não tem parágrafos.

É curioso. Aparentemente, a primeira edição de “Grande Sertão”, da editora José Olympio, já tinha o texto dividido em parágrafos. Eles também aparecem em reproduções de rascunhos do livro datilografados por Rosa, como as exibidas em uma exposição de 2006 no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

[Atualização – 22/12] Os parágrafos de ‘Grande Sertão: Veredas’, parte 2


‘Estadão’: os melhores de 2015 no esporte

Dois comentários sobre a pesquisa do Estadão na qual jornalistas elegem os maiores destaques do ano:

  1. A “seleção brasileira ideal” evidencia como também os jornalistas sobrevalorizam as atuações dos jogadores em clubes brasileiros.

  2. Divulgar os resultados nesse formato de galeria é uma grande sacanagem. Um desserviço e um desrespeito ao leitor.


O problema dos estádios brasileiros

Paulo Vinícius Coelho, na Folha:

Os novos estádios melhoraram a qualidade do Brasileirão, por cuidarem dos gramados e ajudarem a aumentar a média de público. Mas nenhuma arena tem ainda um modelo de gestão sustentável. O Grêmio está comprando a parte da OAS, o Corinthians precisa vender os naming rights para pagar o financiamento, o Mineirão recebe subsídios, o Palmeiras tem o modelo mais justo, mas sofre com a crise da WTorre.

O Maracanã era o maior estádio do mundo. Não é mais. Agora precisa ser o melhor. O estádio mais bonito, da torcida mais festiva, no país do futebol, na cidade maravilhosa. Tudo isso exige um novo modelo. Nem ser do Estado, nem da Odebrecht. Precisa ser do novo futebol brasileiro. Aquele com que, utopicamente, ainda sonhamos.


Algumas diferenças entre Dunga e Tostão

Tostão, na Folha:

Dunga e Gilmar não fazem nada ilegal, aproveitam uma ótima oportunidade profissional, e as pessoas não costumam se preocupar com a vida do patrão quando são contratadas por uma empresa. Porém, no mínimo, deveriam sentir-se constrangidos por exercerem cargos de confiança do presidente da CBF.

Por isso, em 2000, não aceitei o convite para ser diretor-técnico da seleção, quando o presidente era Ricardo Teixeira, e, recentemente, para manter minha independência como colunista, recusei o plano de saúde ofertado pela CBF aos campeões do mundo.

Dunga criticou os que não comparecem, quando convidados, aos eventos realizados pela CBF, pois, segundo ele, são oportunidades para ajudar o futebol brasileiro. Não aceitei ir a encontros entre campeões do mundo, comentaristas e a comissão técnica porque quero manter distância da CBF e porque não acredito em reuniões esporádicas, em que todos se abraçam, se elogiam e cada um diz uma frase, geralmente um lugar-comum. É muito blá-blá-blá e pouca ação.


Quando a amizade prejudica o jornalismo

Parece que Reinaldo Azevedo, jornalista que gosta de palpitar sobre tudo e todos, não escreveu nem uma linha sobre a brincadeira machista de José Serra em Kátia Abreu em jantar de fim de ano na casa de Eunício Oliveira, líder do PMDB.

O ocorrido mereceu chamada de capa na Folha e no Globo. Mas não apareceu no blog de Reinaldo, amigo de Serra. Imaginem se fosse Lula o autor de tal brincadeira. Comportamento exemplar para alguém que adora criticar o jornalismo alheio.

Reinaldo poderia aprender um pouco, quem sabe, com seu Frias. Em seu Diários da Presidência, Fernando Henrique Cardoso relata um encontro que teve com o todo-poderoso da Folha em 11 de maio de 1995:

O curioso é que ontem o Frias pai [Octavio Frias de Oliveira] e os dois filhos vieram jantar aqui em casa. Conversa difícil, Frias está muito surdo, o Otavinho [Otavio Frias Filho] fica encabulado diante dele, da Ruth e de mim, o outro irmão [Luiz Frias], um pouco mais saído. O velho todo o tempo protestando um grande entusiasmo por mim, que fui o presidente dos seus sonhos, que agora é realidade, que ele está numa torcida danada, que o Brasil depende do meu êxito, enfim… Mencionei a reportagem do jornal, eles fingiram que não era nada, aquela conversa estranha da Folha. Pessoalmente o Frias é sempre muito gentil e muito entusiasmado, na prática, a Folha sempre fazendo as suas jogadas.

FHC achava que a Folha agira “de forma maldosa” na reportagem mencionada.

O importante aqui é que a Folha não pegou leve com FHC, o presidente dos sonhos de Frias.

Diferentemente do que faz Reinaldo com Serra, o presidente dos seus sonhos.


Brazil’s weird justice

In Brazil, “the courts treat suspects too harshly, and convicts too leniently,” says the Economist:

Gratifying as it may be to see billionaires behind bars, some lawyers are troubled by Mr Moro’s penchant for locking up suspects before they go on trial. Most are loth to challenge a charismatic judge. Those who publicly object tend to work for one of the innumerable defence teams. All 11 directors of the comically named but serious Institute for the Defence of the Right to Defence are thus employed. Heloisa Estellita, a professor of criminal law at the Fundação Getulio Vargas Law School in São Paulo, is one of the few public critics of Mr Moro’s methods who is independent. She thinks he has wrongly “used pre-trial detention to extract plea bargains”. […]

Pre-trial detention should not be used to browbeat them into co-operating with investigations or to signal the gravity of the charges they face. The Lava Jato inquisitors deny they are doing this, but readers of Blackstone’s report will wonder. Timothy Otty, its lead author, has written human-rights opinions on behalf of Abdullah Ocalan, a Kurdish separatist leader, and detainees at the American prison in Guantánamo Bay. “Just as it was wrong to jettison the protection of liberty and right to fair trial as part of the war on terror, so it would be wrong in the fight against corruption,” says Mr Otty. […]

However, “the law can be as weirdly indulgent as it is harsh,” says the periodical. “Convicts are entitled to go home while they exhaust their appeals,” and that can take years.

Many critics of the system, including Mr Moro, think convicts should have to file appeals from their jail cells. That would make sense. So would an overhaul of the criminal code which left at liberty people presumed innocent and guaranteed them a fair trial.