Alexandre Schwartsman versus Luiz Gonzaga Belluzzo

Resumo comentado com os principais textos da polêmica discussão

No final do ano passado, eu inocentemente imaginava que veria em 2015 um abrandamento, ainda que leve, dos ânimos que tanto se exaltaram durante a campanha eleitoral. Pelo visto, a coisa só piorou.

Exemplo cabal disso é o ponto a que chegou o debate entre economistas brasileiros sobre a situação atual do país. A discussão, útil e necessária, descambou para uma baixaria deplorável, que praticamente joga no lixo qualquer contribuição que ela poderia gerar.

Alexandre Schwartsman é, hoje, um dos mais proeminentes nesse debate — seja por seu conhecimento, que deve ser respeitado, seja por sua arrogância, que deveria ser ignorada. Deveria. Mas, às vezes, é impossível. Como foi há algumas semanas, quando, em sua coluna na Folha, ele escreveu um artigo recheado de ofensas a Luiz Gonzaga Belluzzo e outros.

Abaixo, faço um resumo comentado do que aconteceu, usando como fio condutor os principais textos que surgiram na discussão.

“O Porco e o Cordeiro”, por Alexandre Schwartsman

Em 16 de dezembro, a Folha publicou “O Porco e o Cordeiro”, texto de Schwartsman aparentemente inspirado em A Revolução dos Bichos, de George Orwell. O artigo é bem escrito, e as críticas que ele faz são pertinentes. Seu único problema é o linguajar ofensivo, completamente grosseiro, desnecessário e infantil.

Estava o Cordeiro a tocar o Ministério da Fazenda quando apareceu o Porco, de horrendo aspecto, e perguntou: “Que desaforo é esse de reduzir meu PIB?”. […]

“Não quero saber!”, vociferou o Porco. “Quando o jumentinho te deu as chaves, a inflação era menor que 6,5%, mas agora já varou os 10%.” […]

“Aliás, foi difícil achar um Porco que assumisse a responsabilidade pelo congelamento dos preços. Até o final do ano passado vários deles estavam ainda comemorando que a inflação não tinha estourado o teto da meta, e havia até uma Leitoa afirmando que era tudo ‘terrorismo econômico’.” […]

“Olha, seu Porco, seus colegas de vara deixaram as coisas aqui em pandarecos. Dívida crescendo, inflação em alta (mesmo com preços congelados), desemprego idem, economia em recessão, um buraco sem precedentes nas nossas contas externas. Tanto estrago que nem Dona Anta aguentou vocês e teve de chamar um Cordeiro para arrumar a bagunça.”

E, já que Porco não come Cordeiro, deu-lhe as costas e o deixou chafurdando na lama.

Para quem não decifrou, a lista de personalidades “homenageada” por Schwartsman é esta:

  • Joaquim Levy (Cordeiro);
  • Luiz Gonzaga Belluzzo (Porco);
  • Guido Mantega (jumentinho italiano);
  • Leda Paulani (Leitoa);
  • Dilma Rousseff (Dona Anta).

Como de costume, cerca de uma semana depois a coluna foi publicada em seu blog. Com um bônus: links para textos com as opiniões do “Porco” e da “Leitoa”, explicitando suas ofensas e referências.

Nota de repúdio

No mesmo dia (22/12), intelectuais e professores publicaram uma carta endereçada à Folha na qual atacam Schwartsman, pela redação das ofensas, e o próprio jornal, pela publicação das mesmas.

Repudiamos o desrespeito no plano pessoal, a intolerância inadmissível no plano da disputa política democrática e a violação de todas as regras elementares do debate plural e civilizado de ideias.

Repudiamos também a conivência da Folha de S.Paulo e do respectivo editor na prática de tamanha torpeza, transgredindo o código de ética que o próprio jornal afirma seguir.

A Folha publicou uma parte da nota e o link para a sua íntegra.

“Manifesto Alexandre Schwartsman”, por Carlos Eduardo Gonçalves

No Natal, Carlos Eduardo Gonçalves abordou o episódio em seu blog.

Mas a carta nao eh apenas uma queixa, vejam bem voces. Ela vem com um pedido-ameaca no final. Bem ao estilo sovietico. Os signatarios querem silenciar AS, em pleno 2015!

Mas que bela forçada de barra. Para enxergar isso na nota contra Schwartsman é necessária uma interpretação de texto com neurose nível Olavo de Carvalho. Não se trata de silenciar o economista — ele pode continuar ofendendo quem quiser, embora isso não seja um comportamento digno. A questão é a publicação dessas ofensas por um periódico que se pretende sério.

Para comecar, Belluzzo reclamando de ofensas pessoais eh uma piada de mau gosto. Segundo, apesar do fato de muitos dos signatarios do tal manifesto escreverem em diversos jornais (FSP inclusive) barbeiragens economicas que geram danos MUITISSIMO maiores que pequenas magoas pessoais, eles seguem la, contribuindo para o empobrecimento do entendimento dos brasileiros sobre o funcionamento da Economia. Pessoas perdem emprego, qualidade de vida, sofrem com a inflacao elevada, por conta das ideias amalucadas desse grupo, que, a proposito, nao se retrata.

Primeiro, o fato de Belluzzo ser agressivo não justifica o fato de Schwartsman agir da mesma maneira. Segundo, a questão levantada pelos signatários da carta não são as ideias, mas as ofensas. Propositadamente ou não, Dudu mistura alhos e bugalhos.

E se eu escrever um manifesto contra as ideias malucas que destroem a vida de milhares de pessoas por ai? E seu pedir aa FSP e ao Valor que proibam a publicacao do que dizem esses “malevolos heterodoxos ”? Voces vao me chamar de ditador se eu pedir isso para o bem do pais? Vao?

Novamente, não se trata de divergência de ideias, mas da maneira de expressá-las. Dudu foi bastante infeliz nesse parágrafo. Parece um adolescente revoltado.

“Controvérsia: porcos, ovelhas e outros bichos”, por Mansueto Almeida

Também no dia 25 de dezembro, Mansueto Almeida publicou um post em seu blog.

Ao que parece, Schwartsman poderia ter “agredido de forma respeitosa”, chamando essas pessoas idiotas, mas jamais usando uma fábula, comparando as pessoas a animais. A crítica é essa? Pelo amor de Deus.

Não, a crítica não é essa. Se Schwartsman tivesse escrito “idiotas” em vez de “Porco” ou “Leitoa”, a reclamação dessas pessoas ainda assim seria válida. O problema não é o uso da fábula, mas o da ofensa. A questão é o baixo nível.

O interessante é que muitos dos que assinam a Nota de Repúdio não são também muito educados no debate público e costumam usar adjetivos bastante fortes para descrever ideias com as quais não concordam, seja em artigos, seja nos posts nas redes sociais.

Aqui, concordo com Mansueto. Mas isso de maneira alguma justifica a atitude de Schwartsman (e da Folha). Se não foi ele o primeiro a baixar o nível da discussão, no mínimo acompanhou quem iniciou essa derrocada. E o jornal deveria tentar abster-se de incentivar ou fortalecer polêmicas tão infantis. Isso não seria limitar, mas sim qualificar o debate e a divulgação de ideias divergentes.

Ele [Schwartsman] tem um estilo agressivo como Paul Krugman, que, aliás, muitos dos que assinam a Nota de Repúdio adoram.

Pobre Krugman. Felizmente essa comparação não deverá chegar aos seus ouvidos.

A Folha de São Paulo tem dado bastante espaço para ideias divergentes, algumas das quais bastante malucas na minha opinião. Nem por isso há um abaixo assinado pedindo para que a Folha não publique certas ideias malucas.

Repito: a questão não é a divergência de ideias, mas a maneira de expressá-las. Schwartsman foi grosseiro. E a nota de repúdio ataca isso.

“Ridendo Castigat Mores”, por Luiz Gonzaga Belluzzo

No dia seguinte, Belluzzo divulgou um texto intitulado “Ridendo Castigat Mores”, que parece uma tentativa de autoafirmação. Belluzzo faz referências a Berlioz, Orwell, Esopo, Phaedro e Arendt e ainda nos brinda com uma pitada de latim. Tudo isso antes de questionar o trabalho “dos economistas acadêmicos, sempre dedicados à construção de teorias e modelos pretensamente sofisticados que, ao invés de explicar como funcionam as engrenagens do capitalismo, cuidam zelosamente de falsificar seu modo de funcionamento”.

Ao tratar da discussão sobre a coluna de Schwartsman, Belluzzo fez um grande favor aos seus desafetos.

E saibam que não corro da raia, como jamais corri jogando bola desde a várzea do Glicério até Ermelino Matarazzo. Não sou valentão: apanhei e bati, mas jamais fugi do pau. Assim, os Mansuetos da vida, os Alexandres da morte podem preparar o lombo. Os Carlos Eduardo vou deixá-los entregues aos ressentimentos de suas nulidades. Seja como for, não vou desistir e muito menos apelar para grosserias e maledicências.

A última frase simplesmente contradiz o resto do parágrafo.

Com sua mensagem, Belluzzo entrou na onda de grosserias e mudou o foco da discussão — eram as ofensas de Schwartsman, agora passaram a ser o trabalho dos economistas. Ou, mais especificamente, o trabalho do próprio Belluzzo.

“Sr. Belluzzo, o culto”, por Carlos Eduardo Gonçalves

No mesmo dia, Dudu decidiu ironizar a suposta erudição de Belluzzo e atacar a sua carreira acadêmica e profissional. As críticas são válidas e, se pouco acrescentam à discussão, é em parte por culpa do próprio Belluzzo, que resolveu mudar o assunto.

Infelizmente, o post apresenta, mais uma vez, um lamentável tom de jovem em boteco. É até difícil de acreditar que o Estadão tenha um blog com escrita dessa qualidade.

“Sobre a importância histórica do nosso Astromar”, por Irineu de Carvalho Filho

Ainda em 26 de dezembro, Irineu de Carvalho Filho entrou na briga para atacar Belluzzo. Assim como Gonçalves, ele faz boas críticas, porém com um texto de qualidade bem superior. Irineu é certeiro não apenas ao mencionar a carreira de Belluzzo, mas também ao ironizar o seu discurso.

Ele é uma relíquia do passado, uma caricatura risível do fidalgo ocioso e inútil que esgrime sua cultura rococó para se diferenciar da plebe. Suas citações e referências pseudo-intelectuais me remetem ao professor Astromar (personagem do Dias Gomes), o intelectual jeca amigo-do-Poder que com sua fala rebuscada e sem sentido intimida os cidadãos semi-analfabetos de Asa Branca. […]

O Brasil profundo agoniza, mas ainda respira. Nele, fidalgos ainda se eximem de parecer corretos ou dominar o assunto que discutem, escorados pelo seu paladar refinado que distingue os melhores vinhos e música clássica.

Esse é, junto com a coluna de Schwartsman, o melhor texto de toda a discussão, embora não toque em seu cerne original — as ofensas.

“Belluzzo e a Revolta dos Bichos”, por Sergio Almeida

A coluna que originou tudo isso voltou a ser mencionada em 27 de dezembro, por Sergio Almeida, no blog Economista X. Ele embarca na interpretação neurótica de Dudu ao dizer que os signatários da nota de repúdio à Schwartsman “parecem querer invocar o jornal, senão a demitir, ao menos a censurar Alexandre”.

Mas censurar ao quê exatamente? A textos que fazem alusões simbólicas (depreciativas, que sejam) a figuras públicas — expediente feito famoso por um certo livro e relativamente comum na literatura? A chamar tais figuras públicas de “burro”, “jumento” e “anta”? Num caso ou noutro, a demanda é estapafúrdia, ainda que feita de forma velada. É (mais) uma demonstração de como boa parte da nossa esquerda não entende o que significa democracia e liberdade de expressão, sempre insistindo em serem tolerantes apenas com as visões de mundo e opiniões com as quais concordam. É portanto digno de profunda vergonha que professores universitários subscrevam uma carta com esse tipo de teor reacionário, ainda que de forma insinuativa. Shame on you!!!

Nesse parágrafo há três problemas. Primeiro, não há nada de estapafúrdio em desejar que um jornal sério não publique xingamentos como os feitos por Schwartsman. Isso não se trata de “democracia e liberdade de expressão”, mas de qualidade jornalística. Uma publicação séria, como a Folha pretende ser, deve filtrar criteriosamente o que sai em suas páginas. Nesse contexto, evitar baixarias como textos com ofensas não seria algo estapafúrdio.

Assim como tantos outros economistas (e profissionais e estudiosos das mais diversas áreas), Sergio aparenta desconhecer jornalismo e, por conta disso, faz julgamentos precipitados. Ele deveria tomar mais cuidado ao falar, pelo menos de maneira tão assertiva, sobre áreas que lhe são estranhas — até porque costuma criticar duramente leigos em economia que se arriscam a falar tolices sobre o assunto.

O segundo problema é sugerir que não entender “o que significa democracia e liberdade de expressão, sempre insistindo em serem tolerantes apenas com as visões de mundo e opiniões com as quais concordam” seja um defeito presente apenas na esquerda. OK, Sergio não disse exatamente isso, mas essa é uma interpretação possível — e adotada, posso apostar, por muitos de seus leitores. Esse defeito existe entre pessoas de esquerda, de direita, de centro, de quase qualquer grupo ideológico imaginável.

Por fim, o terceiro problema é insinuar que as pessoas assinaram a nota por “serem tolerantes apenas com as visões de mundo e opiniões com as quais concordam”. Talvez algumas delas realmente sejam intolerantes com ideias divergentes, mas o ponto não é esse. Praticamente todas as colunas de Schwartsman expressam opiniões das quais a maioria dos signatários discorda, mas o protesto saiu justamente após a publicação de “O Porco e o Cordeiro”. Por quê? Por causa das ofensas. Se as ofensas não tivessem sido publicadas, a nota de repúdio não existiria.

Nota em defesa de Alexandre Schwartsman

Um grupo de pessoas que decidiu enviar à Folha uma nota em defesa de Schwartsman. O texto, de um cinismo atroz, diz que as “pessoas que se identificaram com alguns dos animais da fábula de Orwell o fizeram por conta própria”. Quanta hipocrisia. É óbvio que tal identificação foi feita não apenas pelas vítimas da ofensa, mas pelo próprio autor da mesma (que foi até mais explícito em seu blog, como dito acima) e por muitos de seus leitores.

Em seu post no Economista X, Sergio disse o seguinte sobre a nota de repúdio a Schwartsman:

Tenho sérias dúvidas se os mais de 150 signatários (154 para ser exato) — economistas heterodoxos no meio dos quais há até bibliotecária, professores de letra e arquitetura , produtor (do quê?), demógrafo e advogado –, leem as colunas do Alexandre com regularidade ou se se inteiraram das ofensas (a) de uma única vez antes de assinar o manifesto ou (b) se simplesmente subscreveram ao manifesto por simpatia ideológica aos ofendidos.

Compartilho dessas dúvidas. A grande ironia é que as mesmas podem ser estendidas aos que têm defendido Schwartsman, como deixam claro os bizarros comentários de alguns dos signatários da nota em solidariedade ao economista.

“Controvérsia-2: porcos, ovelhas e outros bichos”, por Mansueto Almeida

No dia 28 de dezembro, Mansueto voltou a tratar da discussão. Corretamente se defende dos ataques de Belluzzo, mas infelizmente coloca o seu nome como signatário da tosca nota em apoio a Schwartsman.

Atenção: a nota não é tosca porque defende Schwartsman, mas sim porque seu texto é hipócrita. Seria perfeitamente possível redigir um abaixo-assinado apoiando o economista sem apelar para tamanho cinismo. Bastaria dizer que, na opinião dos signatários, a coluna não foi ofensiva a ponto de merecer aquela nota de repúdio. Afinal, como o próprio Mansueto questiona, “Será que em uma democracia algumas pessoas têm o direito de achar que Alexandre Schwartsman não foi grosseiro como muitos afirmam?”

Mansueto destaca alguns signatários:

Edmar Bacha (PUC-RJ), Gustavo Franco (PUC-RJ), Carlos Vianna (PUC-RJ), Carlos Eduardo Gonçalves (USP e FMI), Irineu Carvalho (FMI), João Manoel Pinho de Mello (INSPER), Vinicius Carrasco (PUC-RJ), Tiago Berriel (PUC-RJ), Paulo Picchetti (FGV-SP), Roberto Ellery (UNB), Mauricio Bugarin (UNB), Marcos Fernandes (FGV-SP), Mário Ribeiro (UFPA), Gustavo Maia Gomes (UFPE), Giacomo Balbinotto Neto (UFRGS), Bruno Cara Giovannetti (FEA-USP), Mansueto Almeida, etc. – A lista completa dos que assinaram a petição pode ser acessada aqui.

Muitos nomes bons. Pena que, aparentemente, não entendam de bons modos como entendem de economia. A presença deles reforça o fato de que a discussão virou mesmo uma briga de pessoas que querem, antes de mais nada, defender o amigo que pensa parecido.

Comentários finais

Em economia, tendo a concordar muito mais com as ideias de Schwartsman do que com as de Belluzzo. Acho que essa informação pouco agrega ao texto — e, inicialmente, este parágrafo não estava nos planos —, mas decidi publicá-la para deixar claro aos mais exaltados que as minhas críticas ao comportamento de Schwartsman (e de Belluzzo) independem de suas opiniões econômicas.

Dito isso, ao olhar a lista de signatários das duas notas, é fácil identificar certa congruência ideológica entre os nomes mais conhecidos. É muito provável que a maioria tenha assinado as notas por afinidade ideológica ou mesmo pessoal entre eles e os protagonistas da discussão.

Isso, porém, não invalida o teor da nota de repúdio a Schwartsman e à Folha. Aliás, ao meu ver, o erro maior é do jornal, que teoricamente tem um compromisso com um jornalismo sério. Por outro lado, talvez eu esteja esperando demais da Folha, principalmente se considerarmos o crescente espaço que ela tem dado a conteúdo de baixa qualidade.

Não sei qual é o compromisso de Schwartsman em sua coluna. Se a intenção é contribuir para o debate econômico, suas ideias são bem-vindas — e sou simpático à maioria delas —, mas as ofensas só atrapalham. Ao se expressar de modo tão grosseiro, Schwartsman diminui o alcance de sua voz, limitando-a a um público que já concorda com ele e afastando leitores que tenham uma visão diferente. Em outras palavras, o economista joga apenas para a sua torcida. Uma maneira diferente de se expressar, com mais educação e cuidado, certamente contribuiria para a divulgação e aceitação de suas opiniões.

Se o propósito de Schwartsman for mostrar a sua superioridade e humilhar os seus adversários, como a linguagem que usa por vezes permite entender, as ofensas serão compreensíveis, mas, ainda assim, impróprias. O uso delas, além de prejudicar o impacto de suas ideias, apequena o próprio colunista mais do que os seus alvos. Como diz a famosa citação atribuída (mas não confirmada) a Thomas Carlyle, “A great man shows his greatness by the way he treats little men.” E o seu próprio espaço no jornal passaria a ter uma utilidade questionável — afinal, o que a Folha e seus leitores ganhariam com uma coluna que se prestasse a isso?

De qualquer maneira, é uma pena que o posicionamento contra ou a favor de Schwartsman neste episódio seja, em grande parte, determinado pela afinidade das pessoas em relação a ele. O ideal seria que elas conseguissem separar as coisas — uma, as ofensas em “O Porco e o Cordeiro”; outra, as opiniões em economia. Infelizmente, não é o que vemos na grande maioria que se manifestou sobre o episódio. Faltam vozes que (como a deste que lhes fala) concordem com as ideias de Schwartsman, mas repudiem sua grosseria; ou que discordem dele, mas não vejam ofensas em sua coluna.

É difícil de acreditar que boa parte, se não a maioria, dos que são solidários a Schwartsman nesta polêmica não se sentiria ofendida caso estivesse no lugar de Belluzzo, Paulani, Mantega ou Dilma.

A dimensão que esta controvérsia atingiu mostra, de maneira triste e alarmante, como os ânimos continuam exaltados após as eleições do ano passado. Como diz Samuel Pessôa, as cicatrizes ainda estão abertas. Tal comportamento, a meu ver, não é apenas resultado das campanhas eleitorais de 2014, mas também um sinal da polarização que parece cada vez mais comum na sociedade.