Dados publicados na ‘Folha’ confundem o leitor (e o próprio jornalista)

Em artigo na Folha de S.Paulo, o jornalista Fernando Canzian apresenta dados de maneira aparentemente clara, mas que na verdade só servem para confundir o leitor.

O cientista político Sérgio Praça explica:

Na Folha de hoje, o jornalista Fernando Canzian confunde funções gratificadas (como coordenar uma pós em uma universidade federal — prerrogativa exclusiva de professor concursado) com cargos de confiança (para os quais qualquer cidadão pode ser contratado.) As contas de Canzian estão, portanto, completamente erradas.

Além disso, não há “caixa-preta” com relação a cargos de confiança na esfera federal. Há inabilidade para abrir o site do Ministério do Planejamento e fuçar o Boletim Estatístico de Pessoal e/ou o Portal da Transparência do Governo Federal.

Lula: renúncia é um gesto de grandeza

Renúncia é um gesto de grandeza, e FHC não tem essa grandeza.

Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto de 1999, no auge do “Fora, FHC”.

‘FT’ e ‘NYT’: Dilma não deve sair

Editorial do Financial Times, com a linha fina “A presidente deve continuar no cargo, apesar dos apelos por impeachment”:

Mas ele [impeachment] deve acontecer? Além disso, faria alguma diferença se ocorresse? Dilma não foi acusada de corrupção. […]

Além disso, mesmo se Dilma for removida, provavelmente apenas veremos outro político medíocre tomar o seu lugar — e então tentar implementar a mesma estabilização econômica que ela está tentando fazer.

Editorial do New York Times:

Forçar Dilma a deixar o cargo sem qualquer evidência concreta de irregularidade causaria danos sérios a uma democracia que tem ganhado força há 30 anos, sem qualquer benefício para contrabalançar. E não há nada que sugira que qualquer um dos líderes de prontidão faria um trabalho melhor com a economia.

FHC e Serra fortalecem discurso pró-renúncia

Fernando Henrique Cardoso, no Facebook:

Se a própria Presidente não for capaz do gesto de grandeza (renúncia ou a voz franca de que errou, e sabe apontar os caminhos da recuperação nacional), assistiremos à desarticulação crescente do governo e do Congresso, a golpes de Lavajato.

José Serra, no Valor Econômico:

A renúncia é prerrogativa da Dilma. E, ao que tudo indica, pelo que ela tem reiterado numerosas vezes, não cogita de renunciar. Mas não tenho dúvida que a esmagadora maioria do país gostaria que ela renunciasse.

Pelo visto, FHC e Serra veem na renúncia de Dilma a melhor oportunidade para o PSDB se beneficiar da crise do governo.

Mas será que realmente acham que a renúncia seria boa para o Brasil? Pensando no país (e não em partidos), parece difícil defender, com bons argumentos, a saída da presidente antes de 2018.

Frei Betto, by the way

In the interview Frei Betto gave Folha de S.Paulo, the best passages are not about Dilma, but on José Dirceu and religion, especially when he uses “by the way”.

If it is true that him [José Dirceu] has so many millions in his account, I cannot understand how he could promote the kitty [to pay the mensalão fine]. By the way, I have friends who contributed to the kitty. They are extremely outraged. They feel aggrieved. […]

Well, many religious schools are mere school companies. By the way, the most corrupt politicians in Brazil studied all in religious schools. One wonders: what the hell did they do, what kind of evangelisation was that?

Frei Betto e os aliás

Na entrevista de Frei Betto à Folha de S.Paulo, os melhores trechos não são sobre Dilma, mas sobre José Dirceu e religião, especialmente os “aliás”.

Se é verdade que ele tem tantos milhões na conta, eu não posso entender como é que ele promoveu a vaquinha. Aliás, tenho amigos que contribuíram com a vaquinha. Estão sumamente indignados. Eles se sentem lesados. […]

Bom, tem muito colégio religioso que é mera empresa escolar. Aliás, os políticos mais corruptos do Brasil saíram todos de colégios religiosos. É de se pensar: que diabo andaram fazendo, que evangelização era essa?

Harm reduction

The Brazilian government had no time to prepare the market for the reduction of the target for the primary fiscal surplus (the budget balance before interest payments) from 1.2 per cent of gross domestic product to 0.15 per cent. The harm-reduction efforts apparently include increasing the media exposure of the finance minister, Joaquim Levy.

In the past last few weeks, he was interviewed by Fernando Dantas, for Agência Estado, and by Miriam Leitão, for her programme on GloboNews. The minister also wrote an article for Folha de S.Paulo (English version here).

Mr Levy cautiously tries to show some optimism and sends messages to the Congress — with no explicit attacks.

Redução de danos

O governo não teve tempo de preparar o mercado para a redução da meta de superavit primário, que passou de 1,1% para 0,15% do PIB. O esforço para diminuir os danos, pelo visto, inclui aumentar a exposição do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, na mídia.

Nas últimas semanas, ele foi entrevistado por Fernando Dantas, para a Agência Estado, e por Miriam Leitão, para seu programa na GloboNews. O ministro ainda escreveu um artigo para a Folha de S.Paulo.

De maneira comedida, Levy tenta transmitir certo otimismo e manda recados ao Congresso, mas sem atacá-lo explicitamente.

Sergio Fausto: past, present and future of the PSDB

In an article for Folha de S.Paulo, political scientist Sergio Fausto presents a good summary of the past, the present and the future of the PSDB, the main opposition party in Brazil.

During Lula’s mandate [2003-2010], there is no doubt that the PSDB was wrong trying to avoid being connected to the supposedly cursed inheritance left by the Fernando Henrique Cardoso government [1995-2002]. The party committed several times the mistake of giving up a constituent part of its identity […].

Basically, the PSDB did not have conviction that the Cardoso government, despite the crisis and the unsatisfactory results in terms of growth and employment, represented a significant advancement for the country and constituted an asset and not a liability to the party, not only in a retrospective view, but also in a perspective of the future.

The scenario faced by the PT today has some similarities. After the elections and especially this year, with the effects of the crisis more evident, it has been hard to see members of the party defending the first term of Dilma Rousseff. In addition, a fraction of the PT believes that the party or the government mimics the PSDB by committing “the mistake of giving up a constituent part of its identity”.

There is at least one significant difference: it will probably be much harder for the PT to convince the population (and perhaps even itself) that the Dilma government, “despite the crisis and the unsatisfactory results in terms of growth and employment”, will have represented “a significant advancement for the country”.

To stablish a qualified dialogue with this network [of potential PSDB supporters] implies not only to democratise the party internally, but also to define more clearly the place of the PSDB in the ideological map of the country. For that, the party cannot forget it built its history in the progressive and viscerally democratic camp. Forgetting its DNA might seem tempting in the face of the conservative tendencies on the rise in the Brazilian society, but that would represent the irremediable loss of its character and its transformation into a party like any other.

More than a provocation to the most conservative fraction of the PSDB, that message is a warning to his progressive colleagues of the party. “We cannot lose our character.”

‘Brasil: A Corrupção do Progresso’

Esse é o título do último artigo de Kenneth Maxwell para a New York Review of Books. Apesar de alguns pequenos erros (como “Sérgio Mota” em vez de Sergio Moro), ele oferece uma boa visão geral do que vem acontecendo no Brasil nos últimos meses.

Ele pode ser lido aqui.

‘Brazil: The Corruption of Progress’

That is the title of the latest article by Kenneth Maxwell for the New York Review of Books. Despite a few little mistakes (e.g., “Sérgio Mota” instead of Sérgio Moro), it offers a good overview of what has been happening in Brazil over the past few months.

It can be read here.

Sergio Fausto: passado, presente e futuro do PSDB

Em artigo para a Folha, Sergio Fausto faz uma boa síntese sobre o passado, o presente e o futuro do PSDB. Destaco dois trechos.

No período Lula, não resta dúvida de que o PSDB errou ao buscar se desvencilhar da suposta maldita herança do governo FHC. O partido cometeu repetidas vezes o equívoco de abdicar de parte constitutiva de sua identidade […].

No fundo, faltou ao PSDB convicção de que o governo FHC, apesar das crises e dos resultados insatisfatórios em matéria de crescimento e emprego, representara um significativo avanço para o país e constituía um ativo e não um passivo para o partido, não apenas em uma mirada retrospectiva, mas também em uma perspectiva de futuro.

O cenário enfrentado pelo PT hoje tem algumas semelhanças. Depois do período eleitoral e principalmente neste ano, com os efeitos da crise mais evidentes, ficou difícil achar petistas que defendam o primeiro mandato de Dilma Rousseff. Além disso, uma parcela do PT acredita que o partido ou o governo repete o PSDB ao “abdicar de parte constitutiva de sua identidade”.

Há pelo menos uma diferença significativa: provavelmente será muito mais difícil para o PT convencer a população (e talvez até a si mesmo) que o governo Dilma, “apesar das crises e dos resultados insatisfatórios em matéria de crescimento e emprego”, terá representado “um significativo avanço para o país”.

Estabelecer uma interlocução qualificada com essa rede [potencial de apoio ao PSDB] implica não apenas democratizar internamente o partido, mas também definir com mais clareza o lugar do PSDB no mapa ideológico do país. Para tanto, o partido não pode esquecer que construiu a sua história no campo progressista e visceralmente democrático. O esquecimento de seu DNA pode parecer tentador diante das tendências conservadoras em alta na sociedade brasileira, mas representaria a descaracterização irremediável do partido e a sua transformação em uma sigla como outra qualquer.

Mais do que uma cutucada na parcela mais conservadora do PSDB, essa mensagem é um recado aos colegas progressistas do partido. “Não podemos nos descaracterizar.”

Reunião com governadores: ‘Folha’, ‘Estado’ e ‘Globo’

Os jornais de ontem (31/7) fornecem bom material para um rápido exercício de jornalismo comparado.

Na capa, a Folha de S.Paulo deu como notícia principal o deficit primário do governo federal no primeiro semestre e usou uma chamada menor para a reunião da presidente Dilma Rousseff com os governadores, além de outra para uma análise sobre o encontro. O Estado de S. Paulo e O Globo preferiram o inverso e colocaram a reunião como o maior destaque da primeira página.

Mais interessante do que isso é o modo como cada jornal tratou a reunião. Eis os títulos usados na primeira página:

Folha: “Presidente pede aos governadores ajuda para superar crise”

Estado: “Governadores vão combater pauta que ameaça ajuste”

Globo: “Governadores apoiam Dilma contra aumento de gastos”

A Folha colocou Dilma como personagem principal, enquanto os outros dois deram mais destaque à reação dos governadores.

O Estado e o Globo, que têm fama de serem mais duros com o PT, deram um ar mais positivo à reunião, com matérias que passam a ideia de que algo de bom saiu dali — os governadores se comprometeram a ajudar a presidente no ajuste fiscal.

A matéria da Folha pouco fala sobre a reação dos governadores — uma falha grave, pois eles também eram protagonistas do evento. Fica a impressão de uma reunião completamente infrutífera, com a presidente indefesa pedindo socorro.

Nesse caso, os leitores dos outros dois diários tiveram uma cobertura mais bem apurada, que relata não apenas o que Dilma disse, mas também o que ouviu.